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Especial – Reportagens sobre o ADA 2008, nos EUA, e Simpósio sobre SM, em Curitiba.

Artigo de Revisão – Tratamento Medicamentoso das Comorbidades Metabólicas do Obeso.


Os Drs. Adriano Segala e Débora Kinoshita
Kussunokib comentam, neste artigo, uma
reportagem preconceituosa com a população
obesa, publicada em site de notícias brasileiro.

Muito barulho por... ?

No dia 16 de maio de 2008, no endereço eletrônico http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u402686.shtml foi publicada uma matéria com o título “Obesidade contribui para aquecimento global, diz estudo; calcule seu IMC”.

A matéria, assinada como “da Reuters” e “da Folha Online” começa dizendo que a obesidade, além de algoz do indivíduo obeso (fato inquestionável) passou a ser vista como “vilã do planeta” (uma possibilidade, ainda a ser demonstrada).

Não vamos discutir as eventuais discrepâncias que existem entre o foco do texto científico¹ original (o impacto do uso do transporte de alimentos sobre o uso de energia e o aquecimento global, equação na qual o aumento da prevalência da obesidade possivelmente teria papel indesejado) e o foco das duas matérias leigas (novamente, um provável inoculador de aspecto moralizador da perda de peso). Dissemos “novamente”, pois, em termos históricos, a obesidade ciclicamente é vista como imoral: quer como sinal de imoralidade escancarada mesmo, como era vista antes do advento da medicina científica, no século XVI, quer como sinal de aspectos mal adaptativos do desenvolvimento egóico (tentativa de compreensão psicológica da obesidade de que alguns psicoterapeutas lançavam mão, mas que trazia muitas vezes a antiga pseudoquestão moral disfarçada).

Hoje (transcorrida aproximadamente uma década - bem mais racional - na qual a obesidade foi vista como uma doença multifatorial e o obeso como uma pessoa com uma doença grave e de difícil tratamento), a intolerância com os obesos já quer voltar forte, agora disfarçada de (ou no mínimo diluída na) preocupação com o aquecimento global² ou, como foi numa rápida voga há aproximadamente um ano, de otimização da rede de amizades (lembra quando um estudo - aí sim, veja adiante o porquê desta interrupção - demonstrou que ter amigos gordos podia engordar? Alguns textos mais politicamente corretos - ou dissimulados - traziam a idéia de que seria uma boa atitude ajudar “seu amigo gordinho” a emagrecer através de seu exemplo pessoal. Mas, nas entrelinhas, sempre mantendo uma distância segura dele).

Quem conta um conto, aumenta um ponto?

Nossa intenção é de chamar a atenção dos leitores desta revista para a necessidade de relativização daquilo que se lê, mesmo em publicações mais sérias. Agir de modo contrário é um excelente caminho para a criação de preconceitos, quer de modo acidental quer de modo intencional.

Para quem quisesse ler³, o texto científico em questão apresentava 362 palavras incluindo o título e sem as referências bibliográficas e se encontra na revista médica The Lancet. Quando você acabar de ler este parágrafo, este texto terá 451 palavras.

É claro que este não é um critério central: um artigo com mais palavras não é mais sério do que um com menos palavras. Mas normalmente há um limite inferior e superior no tamanho de um artigo de pesquisa a ser publicado em uma revista científica. E 362 é um número muito abaixo de ambos os valores. Por mais conciso que seja, é impossível que um artigo que descreva em detalhes suficientes um estudo científico tenha um tamanho tão reduzido. O mesmo não se pode dizer do Abstract (resumo) de um artigo. Nele, o número de palavras é menor, obviamente (vamos parar de contar, mas foram 561 palavras até aqui e este, certamente, nunca seria um artigo científico).

Teriam a Reuters e a Folha Online citado um resumo de um estudo?

Não, não é o caso. Salvo algum engano nosso, o termo “estudo” foi adicionado pela Folha Online: checamos a matéria da Folha Online (endereço acima), a matéria leiga original no sítio da Reuters (http://uk.reuters.com/article/healthNews/idUKL1572011320080516?pageNumber=2&virtualBrandChannel=0) e o texto científico original (www.thelancet.com Vol 371 May 17, 2008, p 1661). Só a fonte nacional, e não as outras duas, utiliza o termo “estudo”.

Qual o problema em se utilizar o termo “estudo”?

Este é o ponto crucial de nosso artigo (e não o conteúdo da matéria propriamente dito, como poderia parecer). O problema é que o texto científico em questão não é um estudo. É uma carta. Uma carta importante, de autores importantes, mas ainda só uma carta (nos dois sentidos que o “ainda” pode ter). E, como uma carta, ela apropriadamente se encontra na seção Correspondence (correspondência) do The Lancet e não nas seções destinadas a artigos científicos completos (experimentos originais ou artigos de revisão da literatura).

Nesta carta, os autores levantam hipóteses e dão suas opiniões que, como já dissemos, são racionais e inquietantes e, portanto, provavelmente serão pesquisadas a fundo. Mas estas hipóteses e opiniões não estão comprovadas, ou ao menos não encontramos a demonstração e/ou quantificação completa das hipóteses levantadas, nem mesmo nas referências bibliográficas da própria carta (onde, por princípio, esta demonstração, se existisse, deveria estar).

Qualidade da informação 1

Voltando à intenção deste nosso texto, é usual (embora nem sempre defensável) que as pessoas se limitem a ler matérias que trazem apenas resumos e/ou resenhas (sobre os temas que não estudam em profundidade, mas sobre os quais têm interesse). As pessoas tenderão a usar a mensagem central da matéria como um ponto certo, algo adequadamente investigado pela fonte que divulgou tal informação. Quanto mais confiável for a fonte, menor será a quantidade de questionamentos que o leitor tenderá a fazer sobre o que leu. Mas existe outro motivo pelo qual o leitor não questionará muito a informação: o elevado grau de frisson causado pela matéria.

Dá para se estimar a grande responsabilidade que os meios de comunicação têm em relação à informação que divulgam. Muitas das conversas mais ou menos empoladas, em ambientes mais ou menos sofisticados, são alimentadas por estas informações, mesmo que muitas vezes as informações sejam menos do que superficiais.

O que não deveria ser usual e certamente não é desejado é uma notícia ser publicada com menos do que todo o rigor de pesquisa possível.

Todos os endereços de Internet aqui citados são acessíveis: não somos assinantes do The Lancet nem do The British Medical Journal (referências da carta objeto desta reflexão), não foi gasto um centavo (além da assinatura da Internet) sequer para se ter acesso a estas fontes e nem identificações profissionais específicas foram necessárias. A pesquisa demorou menos de meia hora.

Por que o mesmo procedimento não foi feito no momento da publicação da matéria brasileira? Pensamos em duas respostas, provavelmente as pontas de um gradiente, com vários pontos intermediários possíveis:

  1. Talvez porque os prazos, notadamente em publicações em tempo real, sejam exíguos e o ambiente de uma redação de grande veículo de mídia tende a ser agitado e estressante. O prazo é “prá ontem”.

  2. Esta argumentação deixa clara sua fragilidade: não se pode publicar qualquer coisa, sem atenção. Este não foi um erro de digitação ou um erro gramatical (erros inferiores na escala hierárquica dos erros e facilmente desprezáveis). Não escreveríamos este artigo se a chamada fosse algo como “Obesidade podem contribuir para aqueçimento global”. Teríamos comunicado o erro à Redação, apenas. Se tanto.

  3. Por isso, este não é um argumento válido. É apenas uma situação atenuante. Obviamente compreensível, mas não justificadora.

  4. Talvez se a chamada fosse “Uma carta publicada na seção de cartas do The Lancet levantou a hipótese de que a obesidade poderia contribuir para o aquecimento global”³, ela não seria tão inquietante e impactante quanto afirmar que um estudo diz isso categoricamente. Verdade, não seria mesmo tão impactante (mas ainda assim, seria inquietante).

Só que publicar a matéria desta forma não indutiva teria sido muito mais justo e importante, a nosso ver. Provavelmente esta teria sido a principal mensagem que o texto da Folha Online poderia ter dado aos internautas interessados em jornalismo científico, obesos ou não: uma carta de um cientista ou de um grupo de cientistas não tem a mesma relevância científica que um estudo bem desenhado e conduzido. Este último tem a primazia.

Portanto, ainda não é lícita a afirmação do título da matéria (ainda não quer dizer nada além de ainda: pode ser que a obesidade contribua para o aquecimento, pode ser que não. Faltam pesquisas!). Não deixar isso claro é inadequado e, portanto, pode e deve ser questionado.

A bem da verdade, o texto leigo em inglês também não foi completamente esclarecedor, porém, como dissemos, não usou termo tão indutivo quanto “estudo”.

Qualidade da informação 2

Acreditamos fortemente nas qualidades positivas da “vulgarização dos conhecimentos científicos” (divulgar na mídia leiga, em linguagem coloquial, aquilo que está acontecendo nas “últimas pesquisas científicas”, para usar uma expressão habitual). É impossível termos real intimidade com mais do que poucas e pequenas parcelas do conhecimento científico humano. O jornalismo científico e a vulgarização dos conhecimentos são necessidades e suas existências são muito bem vindas.

Por isso mesmo, é nossa opinião que o amplo rigor investigativo é uma das características comuns à boa ciência e ao bom jornalismo e, portanto, é justo (e tomara que útil, a médio prazo) cobrá-lo ativamente dos cientistas e dos meios de comunicação.

Não acreditamos em momento algum que houve maldade voluntária ou qualquer agenda oculta por parte da Folha Online (da qual somos e continuaremos a ser assinantes e a qual recomendamos como uma das boas fontes de informação). Mas acreditamos que é imprescindível a atenção devida à hierarquia das informações científicas e aos termos escolhidos na sua vulgarização.

P.S: Começamos a escrever este artigo no dia 24 de maio de 2008 e concluímos no dia 25. Poucos dias depois, saiu uma matéria muito interessante no Freakonomics sobre a mesmíssima carta publicada no The Lancet, abordando outros aspectos da questão, de forma bem humorada (a crítica no Freakonomics foi ao próprio teor da carta do The Lancet).

Sugerimos que o leitor acesse estas páginas: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/freakonomics/2008/05/29/ult3431u54.jhtm, em português (por sinal, do mesmo grupo da Folha Online) e http://freakonomics.blogs.nytimes.com/2008/05/20/to-fightglobal-warming-we-must-tax-all-recreational-exercise/, em inglês.