Prof. Dr. João Eduardo
Salles
Professor da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de São Paulo e Diretor da ABESO
Dr. Tomás Sousa Lima
Residente de Endocrinologia da Santa
Casa de São Paulo
O tratamento medicamentoso da
hipertensão arterial na síndrome metabólica tem como objetivo reduzir a
morbi-mortalidade cardiovascular e renal, em razão da elevada prevalência
de hipertrofia do ventrículo esquerdo, aterosclerose e microalbuminúria
nesta população1. Cerca de 50% dos pacientes com diabetes tipo
2 têm hipertensão 2,3.
O Estudo de Intervenção
Múltipla de Fatores de Risco, realizado com cerca de 348 mil homens em um
período de 12 anos, demonstrou que o risco absoluto de morte
cardiovascular foi três vezes maior em homens diabéticos quando comparados
àqueles sem DM. Este risco foi ainda maior naqueles com DM e elevação
progressiva da pressão arterial4.
A fisiopatologia da
hipertensão em pacientes diabéticos se baseia no sistema renina
angiotensina aldosterona (SRAA) e no sistema nervoso simpático. A
resistência insulínica por si só está relacionada com a atividade
simpática aumentada5.
O esquema terapêutico nestes
pacientes está centrado no controle rigoroso da pressão arterial em curto
período de tempo (de 3 a 6 meses), uma vez que os mesmos apresentam,
geralmente, associação de vários fatores de risco cardiovasculares6.
O objetivo a ser atingido no controle da hipertensão na síndrome
metabólica é de valores inferiores a 130 por 80 mmHg7.
Considerando-se que a maioria
desses pacientes necessitará de associação de hipotensores, a Sociedade
Brasileira de Cardiologia sugere a combinação de fármacos desde o início
do tratamento. O princípio geral para associação de fármacos baseia-se no
emprego de classes distintas, sendo as combinações mais eficazes até o
momento:
-
Inibidores da enzima de
conversão de angiotensina (iECA) e diurético
-
Bloqueadores do receptor de
angiotensina e diurético
-
Antagonista de canal de cálcio
e iECA
-
Antagonista de canal de cálcio
e betabloqueador
-
Beta bloqueador e diurético
É recomendado que se inicie a
terapia anti-hipertensiva com dois ou mais agentes, quando a pressão
arterial sistólica inicial está 20 mmHg acima do objetivo, ou 10 mmHg
acima do preconizado para a diastólica (8).
Para os pacientes resistentes
à terapia dupla, associam-se três ou mais medicamentos. Importante
considerar um período mínimo de quatro semanas antes de efetuar alterações
na terapêutica anti-hipertensiva, salvo em situações especiais6.

Principais classes de
anti-hipertensivos utilizados no Brasil:
Inibidores
da Enzima de Conversão de Angiotensina Antagonistas do Receptor AT1 da
Angiotensina II
Reduzem a mortalidade e
morbidade cardiovascular em pacientes hipertensos com síndrome metabólica
e alto risco de doença aterosclerótica9. Esses anti-hipertensivos também
retardam o declínio da função renal em pacientes com nefropatia diabética,
independente da redução de níveis pressóricos10,11. Esses
hipotensores não possuem efeitos deletérios ao metabolismo lipídico ou
glicídico. São medicações de primeira linha no tratamento da hipertensão
no paciente com síndrome metabólica.
O Heart Outcomes Prevention
Evaluation demonstrou as vantagens do uso de iECA em pacientes
diabéticos. Entre 5720 participantes sem DM, observou-se que 3,6% daqueles
que receberam ramipril desenvolveram DM; em contraste, 5,4% evoluíram com
DM no grupo placebo (p<0,001)12 (ver tabela 1).
Diuréticos
Eficazes na redução da
hipertensão e de mortalidade cardiovascular. Altas doses de diuréticos,
especialmente os tiazídicos, não melhoram níveis pressóricos e podem
exercer efeitos diabetogênicos e deletérios no perfil lipídico13 (ver
tabela 2).
Beta
bloqueadores
Eficazes como
anti-hipertensivos e na redução da mortalidade cardiovascular. Estão
indicados como primeira escolha para tratamento da HAS associada à doença
coronariana. Como regra geral, devem ser evitados como monoterapia em
pacientes com síndrome metabólica, a menos em situações específicas, visto
que podem induzir aumento de peso, reduzir sensibilidade à insulina,
aumentar risco de DM tipo 2 e provocar alterações lipídicas indesejáveis,
como aumento de triglicérides e redução de HDL14.
Por fim, o UKPDS avaliou a
evolução de pacientes tratados com iECA ou atenolol e encontrou um valor
de hemoglobina glicada final de 7,5% no grupo atenolol e 7% no grupo
captopril, nos primeiros quatro anos de seguimento. Além disto, o primeiro
grupo ganhou 3,4Kg contra 1,6Kg do grupo captopril15 (ver tabela 3).
Bloqueadores dos canais de cálcio - BCC
São eficazes em reduzir a
pressão arterial e não provocam alterações negativas no metabolismo
lipídico ou glicídico.
O estudo nórdico do diltiazem16,
que acompanhou um grupo de pacientes usando diltiazen ou diurético
associado com betabloqueador, mostrou que as taxas de eventos cardíacos
foram semelhantes nos dois grupos.


No entanto, alguns estudos
sugerem benefícios dos BCC semelhantes aos iECA em pacientes com
insuficiência renal, incluindo preservação da TFG e redução da albuminúria17,18
(ver tabela 2). Fundamental também é sempre orientar medidas não
farmacológicas (plano alimentar para perda de peso, exercícios) na
abordagem da hipertensão arterial.


