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Obesidade – Artigo sobre o tratamento cirúrgico, do Dr. Giusepe Repetto


Muitas pessoas, atentas à saúde e controle do peso, ficaram surpresas e preocupadas com a publicação recente, pela grande imprensa, do resultado de um trabalho experimental mostrando que o consumo de sacarina esteve associado a ganho de peso. O estudo foi originalmente publicado pela revista americana Behavioral Neuroscience, da American Psychological Association. Para esclarecer o assunto, os editores da Revista ABESO recorreram a dois especialistas. Leiam a entrevista com a autora do trabalho, Susan E. Swithers - psicóloga da Purdue University, Indiana, USA – e o artigo do endocrinologista mineiro Rodrigo Lamounier.

Entrevista
Dra. Susan E. Swithers
“Precisaremos Esperar por Dados Adicionais”

Revista da Abeso: Você acha que as conclusões do seu estudo em relação à sacarina podem ser aplicadas a seres humanos?

Dra. Swithers: Acho possível que mecanismos similares possam ocorrer em humanos, mas neste momento não temos dados para saber se isso realmente acontece.

Revista da Abeso: O número de ratos (27) utilizados no seu estudo é suficiente para permitir conclusões definitivas?

Dra. Swithers: Nós estamos confiantes nesses resultados, mas, como em qualquer outro resultado científico, repetições irão fortalecer nossa habilidade para tirar conclusões.

Revista da Abeso: Médicos deveriam mudar alguma coisa nas práticas clínicas diárias, após ler seu artigo?

Dra. Swithers: Eu não sou médica e não me sinto confortável em fazer tais recomendações.

Revista da Abeso: Os adoçantes, como a sacarina, são importantes no tratamento da obesidade?

Dra. Swithers: Nossos dados sugerem que o uso de tal adoçante pode fazer as coisas mais difíceis se as pessoas não prestarem atenção às ingestões calóricas e aos gastos energéticos. Contudo, se as pessoas fizerem esse esforço de maneira consciente, então os adoçantes, como a sacarina, poderão ajudar a reduzir as calorias. 

Revista da Abeso: Para um paciente obeso não diabético, é melhor usar adoçante ou açúcar?

Dra. Swithers: Eu penso que a resposta para essa questão não está clara.

Revista da Abeso: O déficit na regulação de energia, induzido pelo uso da sacarina, é clinicamente importante para causar ou contribuir com a obesidade?

Dra. Swithers: Novamente, nós não sabemos, nesse momento, se esses efeitos seriam clinicamente importantes. Contudo, mesmo pequenas mudanças que se acumulam ao longo do tempo têm potencial para alterar a regulação energética.
O tipo de efeito que nós vimos com a sacarina deve representar uma pequena mudança, que poderia contribuir.

Revista da Abeso: Você teria algum conselho para médicos e pacientes sobre o uso dos adoçantes?

Dra. Swithers: Eu acho que a mensagem é: as pessoas não devem achar que, simplesmente mudando do açúcar para o adoçante, a ingestão calórica irá automaticamente baixar. Além disso, nossos dados sugerem que os adoçantes devem inibir algum gasto energético. Como resultado, o conselho poderia ser que o uso destes produtos pode ser útil em reduzir calorias, mas somente se as pessoas estiverem dispostas a cortarem calorias. Se elas simplesmente consomem os produtos esperando que, automaticamente, resultará em uma menor ingestão calórica, podem se desapontar ao descobrir que isso não estará de fato acontecendo. Como eu disse, não sou médica e, como nossos dados são provenientes de estudos em ratos, eu não quero generalizá-los além dos significados que eles têm. Acho que eles, realmente, têm algumas implicações para a obesidade em humanos, mas precisaremos esperar por dados adicionais para saber o tamanho dessas implicações.

Artigo

Adoçantes Podem Levar a Ganho de Peso?
Dr. Rodrigo Lamounier

A pesquisa baseou-se num dos princípios básicos da fisiologia moderna, o grande legado deixado pelo cientista russo Ivan Pavlov, ganhador do prêmio Nobel de Medicina. Trata-se do conceito conhecido como “reflexo condicionado”. Esta teoria propõe que todos os animais se condicionam de modo que um determinado estímulo segue-se de uma experiência sensorial e fisiológica específica, decorrente daquele estímulo. Em outras palavras, o organismo, ao ser estimulado, “espera” aquela conseqüência com a qual está acostumado. E se regula em função disso.

Então, o organismo se acostumou que o estímulo sensório do doce nas papilas gustativas segue-se de um aporte de nutrientes hipercalóricos. Isso determina um comportamento neurosensorial que regula a saciedade e o metabolismo.

A quebra desta seqüência (gosto doce – aporte calórico) poderia levar a um desequilíbrio na regulação da ingestão alimentar dos animais. Esta foi a hipótese testada no estudo. O consumo de adoçantes não calóricos (que são mais doces que o próprio açúcar) pode levar a excessos na ingestão diária de calorias, numa compensação do organismo pela “falta” que sentiu após aquele estímulo vazio.

Assim, os pesquisadores administraram uma refeição padrão (um iogurte, no caso), adoçado com açúcar (hipercalórico), para um grupo; ou com sacarina (sem calorias), para o outro grupo. Ao final, observaram que aqueles ratos que ingeriram o alimento com sacarina apresentaram ganho de peso 20% maior, com maior ingestão calórica diária e maior adiposidade, com alteração na resposta termogênica a uma dieta doce.

Seguindo a mesma linha, no ano passado um estudo também americano, com humanos, publicado na Circulation, mostrou que o consumo excessivo de refrigerantes diet implicou em risco 31% maior para obesidade futura e 53% maior para desenvolvimento de síndrome metabólica, além de risco aumentado para desenvolvimento futuro de hipertrigliceridemia e de hiperglicemia. Este efeito foi idêntico ao observado quando se considerou apenas refrigerantes comuns, doces e calóricos.

As explicações:

1 - O consumo de alimentos muito doces pode aumentar a “fissura” dos indivíduos por alimentos mais palatáveis (e calóricos), como mostraram os ratinhos. Isso reforça o dito popular de que “adoçante engorda, porque todo gordo usa adoçante”. Em outras palavras, se alguém com problemas de excesso de peso vai a uma  lanchonete de fast-food, faz uma refeição de 1400 kcal e toma o cafezinho com adoçante, certamente não está agindo bem para o controle do seu peso e de sua saúde. É um típico comportamento em que o uso de adoçante pode estar relacionado a aumento de peso, ou que o consumo excessivo de refrigerantes, diet ou não, pode ser um marcador de maus hábitos alimentares e de saúde.

2 - A “confusão” metabólica observada neste estudo mostra que os adoçantes ingeridos à revelia, sem um planejamento nutricional, podem contribuir para piorar o hábito alimentar, aumentar a ingestão total de calorias e, eventualmente, para um comportamento alimentar compulsivo.

Sobre Açúcar e Adoçantes

Há uma grande diferença entre um estudo com ratos de laboratório - em que observa-se a fisiologia “pura”, condicionada no comportamento estrito - e o que ocorre com um ser humano, imbuído da intenção de reeducar seus hábitos de vida. Neste contexto, se o indivíduo quer melhorar sua alimentação e adequar sua ingestão calórica, consciente dos esforços necessários em um processo de reeducação, o uso dos adoçantes é muito válido, pois de fato eles são hipocalóricos.

Na década de 70, o biólogo americano Willian Duffey escreveu “Sugar Blues”, em que ele defende a tese de que o açúcar simples é uma das drogas da  humanidade, que induz ao vício, sendo por ele denominado como “antinutriente”. Não há nenhuma dúvida, ou polêmica, em torno do fato de que o consumo excessivo de açúcar simples está associado à obesidade. A literatura científica é cada vez mais consistente em mostrar que indivíduos com hábitos alimentares baseados em dietas ricas em alto índice glicêmico e  em açúcares simples apresentam risco elevado para desenvolver também doença cardiovascular, hiperinsulinemia, síndrome metabólica e diabetes.

Portanto, os edulcorantes podem e devem ser usados no controle de peso e da glicose, desde que sejam ingeridos como parte de um plano nutricional balanceado e com conteúdo calórico adequado para o objetivo de peso do indivíduo. Adoçantes são, sim, úteis para diminuir a ingestão de calorias; e seu consumo, dentro das doses diárias recomendadas, é seguro.

E sempre é tempo de lembrar que atividade física, além de ser muito importante para a saúde, ajuda bem, certo? Então cuidemos da alimentação e saúde!