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Muitas pessoas, atentas à saúde e
controle do peso, ficaram surpresas e preocupadas
com a publicação recente, pela grande imprensa, do resultado de um
trabalho
experimental mostrando que o consumo de sacarina esteve associado a ganho
de
peso. O estudo foi originalmente publicado pela revista americana
Behavioral
Neuroscience, da American Psychological Association. Para esclarecer o
assunto, os
editores da Revista ABESO recorreram a dois especialistas. Leiam a
entrevista com
a autora do trabalho, Susan E. Swithers - psicóloga da Purdue University,
Indiana,
USA – e o artigo do endocrinologista mineiro Rodrigo Lamounier.
Entrevista
Dra. Susan E. Swithers
“Precisaremos Esperar por Dados Adicionais”
Revista da Abeso: Você acha que
as conclusões do seu estudo em relação à sacarina podem ser aplicadas a
seres humanos?
Dra. Swithers: Acho possível que
mecanismos similares possam ocorrer em humanos, mas neste momento não
temos dados para saber se isso realmente acontece.
Revista da Abeso: O número de
ratos (27) utilizados no seu estudo é suficiente para permitir conclusões
definitivas?
Dra. Swithers: Nós estamos
confiantes nesses resultados, mas, como em qualquer outro resultado
científico, repetições irão fortalecer nossa habilidade para tirar
conclusões.
Revista da Abeso: Médicos
deveriam mudar alguma coisa nas práticas clínicas diárias, após ler seu
artigo?
Dra. Swithers: Eu não sou médica e
não me sinto confortável em fazer tais recomendações.
Revista da Abeso: Os adoçantes,
como a sacarina, são importantes no tratamento da obesidade?
Dra. Swithers: Nossos dados sugerem que o
uso de tal adoçante pode fazer as coisas mais difíceis se as pessoas não
prestarem atenção às ingestões calóricas e aos gastos energéticos.
Contudo, se as pessoas fizerem esse esforço de maneira consciente, então
os adoçantes, como a sacarina, poderão ajudar a reduzir as calorias.
Revista da Abeso: Para um
paciente obeso não diabético, é melhor usar adoçante ou açúcar?
Dra. Swithers: Eu penso que a
resposta para essa questão não está clara.
Revista da Abeso: O déficit na
regulação de energia, induzido pelo uso da sacarina, é clinicamente
importante para causar ou contribuir com a obesidade?
Dra. Swithers: Novamente, nós não
sabemos, nesse momento, se esses efeitos seriam clinicamente importantes.
Contudo, mesmo pequenas mudanças que se acumulam ao longo do tempo têm
potencial para alterar a regulação energética.
O tipo de efeito que nós vimos com a sacarina deve representar uma pequena
mudança, que poderia contribuir.
Revista da Abeso:
Você teria algum conselho para médicos e pacientes sobre o uso dos
adoçantes?
Dra. Swithers: Eu acho que a
mensagem é: as pessoas não devem achar que, simplesmente mudando do açúcar
para o adoçante, a ingestão calórica irá automaticamente baixar. Além
disso, nossos dados sugerem que os adoçantes devem inibir algum gasto
energético. Como resultado, o conselho poderia ser que o uso destes
produtos pode ser útil em reduzir calorias, mas somente se as pessoas
estiverem dispostas a cortarem calorias. Se elas simplesmente consomem os
produtos esperando que, automaticamente, resultará em uma menor ingestão
calórica, podem se desapontar ao descobrir que isso não estará de fato
acontecendo. Como eu disse, não sou médica e, como nossos dados são
provenientes de estudos em ratos, eu não quero generalizá-los além dos
significados que eles têm. Acho que eles, realmente, têm algumas
implicações para a obesidade em humanos, mas precisaremos esperar por
dados adicionais para saber o tamanho dessas implicações.

Artigo
Adoçantes Podem Levar a Ganho de Peso?
Dr. Rodrigo Lamounier
A pesquisa baseou-se num dos princípios
básicos da fisiologia moderna, o grande legado deixado pelo cientista
russo Ivan Pavlov, ganhador do prêmio Nobel de Medicina. Trata-se do
conceito conhecido como “reflexo condicionado”. Esta teoria propõe que
todos os animais se condicionam de modo que um determinado estímulo
segue-se de uma experiência sensorial e fisiológica específica, decorrente
daquele estímulo. Em outras palavras, o organismo, ao ser estimulado,
“espera” aquela conseqüência com a qual está acostumado. E se regula em função disso.
Então, o
organismo se acostumou que o estímulo sensório do doce nas papilas
gustativas segue-se de um aporte de nutrientes hipercalóricos. Isso
determina um comportamento neurosensorial que regula a saciedade e o
metabolismo.
A quebra desta seqüência (gosto doce –
aporte calórico) poderia levar a um desequilíbrio na regulação da ingestão
alimentar dos animais. Esta foi a hipótese testada no estudo. O consumo de
adoçantes não calóricos (que são mais doces que o próprio açúcar) pode
levar a excessos na ingestão diária de calorias, numa compensação do
organismo pela “falta” que sentiu após aquele estímulo vazio.
Assim, os pesquisadores administraram uma
refeição padrão (um iogurte, no caso), adoçado com açúcar (hipercalórico),
para um grupo; ou com sacarina (sem calorias), para o outro grupo. Ao
final, observaram que aqueles ratos que ingeriram o alimento com sacarina
apresentaram ganho de peso 20% maior, com maior
ingestão calórica diária e maior adiposidade, com alteração na resposta
termogênica a uma dieta doce.
Seguindo a mesma linha, no ano passado um
estudo também americano, com humanos, publicado na Circulation, mostrou
que o consumo excessivo de refrigerantes diet implicou em risco 31% maior
para obesidade futura e 53% maior para desenvolvimento de síndrome
metabólica, além de risco aumentado para desenvolvimento futuro de
hipertrigliceridemia e de hiperglicemia. Este efeito foi idêntico ao
observado quando se considerou apenas refrigerantes comuns, doces e
calóricos.
As explicações:
1 - O consumo de alimentos muito doces pode
aumentar a “fissura” dos indivíduos por alimentos mais palatáveis (e
calóricos), como mostraram os ratinhos. Isso reforça o dito popular de que
“adoçante engorda, porque todo gordo usa adoçante”. Em outras palavras, se
alguém com problemas de excesso de peso vai a uma lanchonete de
fast-food, faz uma refeição de 1400 kcal e toma o cafezinho com adoçante,
certamente não está agindo bem para o controle do seu peso e de sua saúde.
É um típico comportamento em que o uso de adoçante pode estar relacionado
a aumento de peso, ou que o consumo excessivo de refrigerantes, diet ou
não, pode ser um marcador de maus hábitos alimentares e de saúde.
2 - A “confusão” metabólica observada neste
estudo mostra que os adoçantes ingeridos à revelia, sem um
planejamento nutricional, podem contribuir para piorar o hábito alimentar,
aumentar a ingestão total de calorias e, eventualmente, para um
comportamento alimentar compulsivo.
Sobre Açúcar e Adoçantes
Há uma grande diferença entre um estudo com
ratos de laboratório - em que observa-se a fisiologia “pura”, condicionada
no comportamento estrito - e o que ocorre com um ser humano, imbuído da
intenção de reeducar seus hábitos de vida. Neste contexto, se o indivíduo
quer melhorar sua alimentação e adequar sua ingestão calórica, consciente
dos esforços necessários em um processo de reeducação, o uso dos adoçantes
é muito válido, pois de fato eles são hipocalóricos.
Na década de 70, o biólogo americano
Willian Duffey escreveu “Sugar Blues”, em que ele defende a tese de que o
açúcar simples é uma das drogas da humanidade, que induz ao vício,
sendo por ele denominado como “antinutriente”. Não há nenhuma dúvida, ou
polêmica, em torno do fato de que o consumo excessivo de açúcar simples
está associado à obesidade. A literatura científica é cada vez mais
consistente em mostrar que indivíduos com hábitos alimentares baseados em
dietas ricas em alto índice glicêmico e em açúcares simples
apresentam risco elevado para desenvolver também doença cardiovascular,
hiperinsulinemia, síndrome metabólica e diabetes.
Portanto, os edulcorantes podem e devem ser
usados no controle de peso e da glicose, desde que sejam ingeridos como
parte de um plano nutricional balanceado e com conteúdo calórico adequado
para o objetivo de peso do indivíduo. Adoçantes são, sim, úteis para
diminuir a ingestão de calorias; e seu consumo, dentro das doses diárias
recomendadas, é seguro.
E sempre é tempo de lembrar que atividade
física, além de ser muito importante para a saúde, ajuda bem, certo? Então
cuidemos da alimentação e saúde!
 
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