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Palavra do Presidente – Dr. Marcio Mancini fala dos planos para sua gestão, até dezembro de 2009

Sacarina – Entrevista com autora do polêmico estudo, S. Swithers, e análise crítica do Dr. R. Lamounier

 

Publicados seguidamente desde 2007, o presente artigo faz parte da série de textos científicos produzidos pelos coordenadores dos Cursos sobre Obesidade e Ética da Abeso. O trabalho a seguir vem assinado pelo Dr. Giuseppe Repetto – Coordenador Clínico do Centro da Obesidade Mórbida do HSL PUCRS (COM); Dra. Jacqueline Rizzolli – Endocrinologista do COM; Dra. Karin Daniele Mombach – Psiquiatra do COM; e Nutricionista Daniela Schaan Casagrande – Nutricionista do COM.

A principal função do clínico no pré-operatório de Cirurgia Bariátrica é fazer a avaliação e o diagnóstico de doenças concomitantes e adequar o tratamento clínico destas comorbidades, fazendo com que o risco cirúrgico seja o menor possível. O paciente deve ser muito bem orientado sobre todos os cuidados pós-operatórios, mudanças de hábitos e comportamentos e a necessidade de uma boa adesão ao acompanhamento pós-operatório para obter o melhor resultado possível: emagrecer com saúde. A seguir, descrevemos a avaliação clínica pré-operatória e o seguimento pós-operatório.

1. Seleção de Pacientes

A cirurgia deve ser cogitada naqueles pacientes que já tiveram diversas tentativas prévias de tratamento convencional, porém sem atingirem redução satisfatória e sustentada de peso (perda de 5% ou mais do peso corporal, mantido por um período maior de cinco anos). Como se trata de um procedimento cirúrgico de grande porte em pacientes que apresentam risco aumentado de complicações, é de fundamental importância que a seleção seja cuidadosa e embasada em critérios que avaliem riscos e benefícios do procedimento cirúrgico.

Critérios de Inclusão

1. Em relação à massa corpórea:

  • IMC > 40, independentemente da presença de comorbidades.

  • IMC entre 35 e 40, na presença de comorbidades.

  • IMC entre 30 e 35, na presença de comorbidades que tenham obrigatoriamente a classificação “grave” por um médico especialista na respectiva área da doença.

2. Em relação à idade:

  • Até 12 anos: não há estudos suficientes que corroborem esta indicação, com exceção dos casos de Prader-Willy ou outras síndromes genéticas similares, que podem ser operados com o consentimento da família disposta ao acompanhamento do paciente por longo prazo.

  • De 12 a 18 anos: sempre que houver indicação e consenso entre a família e equipe multidisciplinar.

  • Entre 18 e 60 anos: sem restrições quanto à idade.

  • Acima de 60 anos: avaliação individual pela equipe multidisciplinar, considerando: risco cirúrgico, presença de comorbidades, expectativa de vida com qualidade como benefícios do emagrecimento.

3. Em relação ao tempo da doença:

  • Apresentar índice de massa corporal - IMC - e comorbidades em faixa de risco há, pelo menos, dois anos; ter realizado tratamentos convencionais prévios (reeducação alimentar, exercícios físicos, medicações com eficácia comprovada ou grupos de apoio) pelo menos uma vez, por período não inferior a três meses; e ter tido insucesso ou recidiva do peso, através de dados colhidos na história clínica.

  • Exceção: Em casos de pacientes com IMC maior que 50 essa exigência fica dispensada.

Critérios de Exclusão

  • Praticamente inexistem critérios absolutos de exclusão. O que devemos levar em conta são condições clínicas ou psiquiátricas que contra-indiquem temporariamente o procedimento, devendo ser manejadas e estabilizadas previamente.

  • Adição a drogas ou álcool. O paciente deve estar em tratamento psiquiátrico e abstinente há, no mínimo, dois anos;

  • Doença mental que impeça o paciente de compreender e aderir ao tipo de tratamento que deverá ser seguido no pós-operatório.

  • Condição clínica grave (p.ex.: angina instável, infarto recente, diabetes descompensado) que aumente de forma significativa o risco cirúrgico;

  • Qualquer tipo de câncer que não esteja em remissão e considerado livre de doença há, pelo menos, três anos;

2. Avaliação Pré-Operatória

2.1. Consulta de entrada no sistema (Triagem):

Pode ser realizada pelo clínico/ endocrinologista ou pelo cirurgião. Avalia critérios de inclusão e exclusão; desejo do paciente em submeter-se ao tratamento cirúrgico e seguimento pós-operatório; aborda aspectos gerais sobre o procedimento cirúrgico.

2.2. Consulta Clínica:

Anamnese: deve ser composta por:

  • Dados de identificação;

  • História médica atual e revisão de sistemas: tempo de obesidade, peso máximo atingido, comorbidades associadas e tratamento em uso; Tabagismo atual ou prévio, consumo de álcool ou drogas atual ou prévio, atividade física atual e limitações físicas, método anticoncepcional em uso;

  • Padrões alimentares: Come poucas refeições com muito volume? “Beliscador”? Ingestão excessiva de carboidratos (sweet-eaters)? Come mais à noite que durante o dia? Ataques de compulsão alimentar?

  • História médica pregressa: tratamentos e medicações anti-obesidade utilizadas previamente, resultados obtidos, histórico de compulsão alimentar, Binge eating, antecedentes da Bulimia nervosa ou Anorexia nervosa, cirurgias, gestações, internações hospitalares; História familiar de obesidade e comorbidades associadas à obesidade.

2.3. Exame Físico:

  • Medidas antropométricas adequadas (balança que tolere até 300 kg);

  • Medida de cintura (maior perímetro abdominal entre a última costela e a crista ilíaca);

  • Pressão arterial (manguito adequado), FC, FR;

  • Pele (acantose, úlceras varicosas, dermatites);

  • Ausculta pulmonar e cardíaca.

2.4. Exames Complementares Pré-operatórios:

A rotina de exames pré-operatórios irá variar com a técnica cirúrgica utilizada, com a idade e comorbidades apresentadas pelo paciente. É indispensável uma boa investigação préoperatória, pois muitas das doenças associadas à obesidade somente são diagnosticadas nesta avaliação.

Após a avaliação clínica, cirúrgica, psicológica/psiquiátrica, nutricional e anestésica, o paciente é encaminhado para cirurgia, que geralmente deverá ocorrer com período de internação de 4-5 dias, a não ser que haja necessidade de estabilização clínica pré-cirúrgica ou alguma complicação que necessite internação prolongada. A equipe clínica atua no pósoperatório imediato acompanhando a evolução do paciente,reintroduzindo as medicações necessárias, ajustando sedação e analgesia. O paciente recebe alta com dieta líquida e deveretornar para revisão cirúrgica e nutricional entre o 10º e 15º dia de pós-operatório.

Lista de Comorbidades

As doenças que podem estar associadas ou serem agravadas
pela obesidade são enumeradas na tabela 1.

3. Consulta Clínica Pós-operatória

Os principais tópicos da consulta clínica devem ser:

  • Padrão alimentar e intolerâncias;

  • Atividade física;

  • Queixas mais comuns (vômitos, dor, queda de cabelos, mudança do hábito intestinal, dumping, alterações de memória, parestesias, etc);

Tabela 1 — Comorbidades associadas à Obesidade
Comorbidades relacionadas a alterações metabólicas decorrentes do excesso de gordura corporal:

Síndrome metabólica
• Hipertensão Arterial sistêmica
• Diabete Melittus tipo 2, intolerância a glicose e Glicemia de jejum alterada
• Dislipidemias: Hipertrigliceridemia, HDL baixo, Hipercolesterolemia
• Hiperuricemia
• Esteatose Hepática e Esteato-hepatites não alcoólicas
• Colelitíase
• Cardiopatia isquêmica
• Insuficiência cardíaca Congestiva
• Cor Pulmonale
• Síndrome da Hipoventilação Pulmonar relacionada à Obesidade
• Síndrome dos ovários policísticos
• Alguns tipo de Câncer (mama, endométrio, colo-retal, vesícula, esôfago, rins)

Comorbidades relacionadas ao aumento de carga sobre a estrutura corporal:

Apnéia Obstrutiva do Sono
• Artropatias degenerativas
• Insuficiência venosa periférica
• Refluxo Gastro-esofágico
• Incontinência urinária de esforço

Condições de Limitação física agravando a Obesidade*

Amputação de Membro(s) Inferior(s)
• Seqüela de Paralisia infantil ou Paralisia cerebral
• Seqüela de Acidente Vascular Encefálico
• Tetraplegia, Paraplegia ou Hemiplegia

 
  • Medicações em uso, álcool, tabagismo;
  • Verificar: peso, IMC, peso reduzido, excesso de peso reduzido, cintura, quadril, pressão arterial, edema periférico, hidratação, etc;
  • Ajustar medicações e avaliar os exames laboratoriais para definir a necessidade de reposição de vitaminas e nutrientes.

4. Exames Laboratoriais Pós-operatórios

A rotina de exames irá variar com a técnica cirúrgica empregada. São realizados exames para avaliar a evolução das comorbidades e marcadores nutricionais: hemograma, glicose, colesterol total, colesterol HDL, tri glicerídeos, TGO, TGP, Gama-gt, albumina, cálcio, ferro, ferritina, ácido fólico, vitamina B12, creatinina, ácido úrico. Estes exames devem ser feitos em cada consulta clínica prevista.

5. Nutrição e Reposições Vitamínicas no Pós-operatório

O paciente candidato à cirurgia bariátrica, deverá ser submetido uma avaliação nutricional detalhada tanto no pré-operatório, quanto no pós-operatório. Independente da técnica utilizada é necessário que haja um extremo cuidado com o estado nutricional do paciente, pois qualquer procedimento bariátrico visa a perda de peso ‘”forçada”, podendo ou não estar associado a um processo de desnutrição.

Na fase pré-operatória, a nutricionista verifica hábitos alimentares através da anamnese nutricional detalhada. Nesta consulta, o paciente é orientado quanto à dietoterapia do pósoperatório com esclarecimento de dúvidas quanto às dificuldades e a adaptação ao “novo” aparelho digestivo. Será feita uma avaliação para verificar o estado nutricional objetivando minimizar riscos no trans e pós-operatório. Atualmente, não é necessária a perda de peso pré-operatória, visto que aumenta o risco de desnutrição prévia à cirurgia.

* Estas comorbidades dependerão de avaliação individualizada e específica de risco-benefício pela Equipe Multidisciplinar para definir se podem ser utilizadas como critério para indicação cirúrgica


A Terapia Nutricional pós-cirúrgica objetiva a obtenção e manutenção de um estado nutricional adequado durante a perda de peso a longo prazo. O paciente retorna para reconsulta aos 10 DPO (10 dias pós-operatório) para introdução da dieta líquido-pastosa, aos 25 DPO para introdução da dieta normal (consistência normal) e após segue rotina de visitas mensais, trimestrais a anuais, conforme avaliação e protocolo do Serviço de Cirúrgia Bariatica ao qual esta vinculado.

A restrição de alimentos ricos em sacarose deve ser bem orientada, pois estes podem causar diarréia osmótica em função das alterações absortivas secundárias á derivação realizada (Dumping). A manutenção de uma boa hidratação (mínimo 1500 ml./dia) é fundamental.

Vômitos e náuseas são comuns (técnicas restritivas e mistas) em pacientes que não mastigam suficientemente o alimento ou que ingerem uma quantidade maior do que o “novo” estômago suporta. É importante orientar que, após a cirurgia, o paciente deverá fazer seis refeições/dia e em pequenos volumes (90 a 120 gr. por refeição), completando o valor calórico total com líquidos nutritivos.

A Terapia Nutricional após o procedimento cirúrgico é indispensável para o êxito da proposta terapêutica, buscando a correção de erros alimentares, evitando carências nutricionais.

5.1. Desnutrição Protéica

As deficiências nutricionais podem ser secundárias ao catabolismo presente durante os primeiros dois anos pós-cirurgia, associado a uma ingestão alimentar inadequada, ocasionandoa depleção de tecido metabolicamente ativo, ou seja, massa magra e de reserva protéica visceral. Até a adaptação total á alimentação (em torno de 6 a 12 meses pós-operatórios), é necessário a ingestão protéica em torno de 0,8 a 1,0 g /Kg. peso ideal (60 a 70 g. de proteínas totais).

5.2. Deficiência de Vitaminas

A suplementação de vitaminas do complexo B, vitamina A, D, C, ferro, cálcio, magnésio, zinco, é fundamental durante os primeiros meses, e deverá ser monitorada e reavaliada rotineiramente. O uso de polivitamínicos é indispensável no período de perda de peso (até 24 meses pós-cirurgia) e pode ser necessária para toda a vida.

6. Avaliação e Acompanhamento Psiquiátrico

Um dos maiores desafios no tratamento de obesos em geral é a baixa adesão aos tratamentos propostos. Nos pacientes morbidamente obesos esta dificuldade pode ser maior, pois existe a necessidade de um acompanhamento a longo prazo (geralmente ao longo de toda a vida) para perda e manutenção do peso corporal.

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