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Tratamento Não
Farmacológico
da Obesidade
Como fazemos desde maio deste
ano, estamos publicando textos
científicos produzidos pelos
coordenadores dos Cursos sobre
Obesidade e Ética, realizados pela
ABESO em 2006.
O trabalho a seguir é de autoria
do Dr. Henrique Suplicy,
Professor de Endocrinologia e
Metabologia da Universidade
Federal do Paraná e Presidente
da ABESO (gestão 2006/2007).
Dieta
A orientação dietoterápica no tratamento e
controle da obesidade é objeto de estudo há mais de 50 anos. A educação de
pacientes com sobrepeso e obesidade sobre os alimentos e hábitos
alimentares é um componente essencial em todas as estratégias aceitas
cientificamente, para se obter a perda e manutenção do peso perdido.
Dietas baseadas em princípios alimentares saudáveis e que incluem um
pequeno déficit energético apresentam um melhor prognóstico a longo prazo,
especialmente quando não utilizados como única estratégia de tratamento.
Para perdas de 0,5 a 1 Kg por semana, uma redução de 500 a 1000 Kcal por
dia é normalmente eficaz e razoavelmente bem tolerada. Este déficit
calórico apresenta, a médio e longo prazo, manutenção do peso perdido mais
efetiva quando comparadas àquelas dietas mais restritivas.
As proteínas são os macronutrientes mais
sacietógenos. Desta forma, os alimentos ricos em proteína devem fazer
parte de pelo menos 3 refeições diárias, sob a forma de carnes magras e
leite desnatado e seus derivados.
Os carboidratos têm poder sacietógeno
intermediário, mas o mesmo valor energético das proteínas (4Kcal/g). Devem
entrar na composição de todas as refeições, dando preferência aos
carboidratos complexos (arroz, pães, cereais, leguminosas). Os
carboidratos simples, como o açúcar, devem ser evitados.
As gorduras são altamente energéticas
(9Kcal/g) e bem menos sacietógenas. Porém, acentuam o sabor dos alimentos.
Estas características associadas propiciam uma maior ingestão energética,
dificultando de forma importante o controle alimentar dos indivíduos
obesos. As gorduras devem sempre ser evitadas. No caso de uso, optar por
óleos de oliva, canola e amendoim, que possuem ácido graxos
monoinsaturados, ou outros óleos vegetais como o de soja, milho, girassol,
ricos em ácidos graxos poliinsaturados, que não parecem ter efeito
deletério sobre o colesterol. Os ácidos graxos trans (formas
trans-isoméricas dos ácidos graxos monoinsaturados) também podem estar
presentes na composição de determinados tipos de margarinas e de produtos
com gordura vegetal hidrogenada e promovem elevação dos níveis de
colesterol. O programa ideal para
redução de peso deve incluir a redução da ingestão calórica e satisfazer a
fome. As metas devem ser realistas. Está bem estabelecido que a redução de
10% do peso é o suficiente para o controle de várias complicações
associadas à obesidade. Um bom tratamento, que inclua um programa
alimentar adequado e consiga uma mudança no peso do paciente, é
clinicamente
favorável: reduz os níveis de glicemia e de insulinemia, geralmente reduz
os níveis elevados de pressão arterial e a hipertrigliceridemia, e
contribui para elevar o nível de colesterol HDL. Além dessas
mudanças metabólicas, a mudança de peso melhora a função cardíaca,
problemas na função respiratória, melhora o funcionamento articular (com
melhores resultados se vinculado à atividade física) e contribui
psicologicamente para melhorar a autoestima e as relações sociais do
paciente.
A mudança do peso implica numa tarefa
difícil. Não se tem que enfrentar apenas uma tendência biológica, mas
também a oferta permanente de alimentos “inconvenientes”.
A presença abundante de produtos
hipercalóricos e altamente palatáveis tem tornado essa tarefa extremamente
árdua. Se feita com disciplina, é evidente que a maioria das dietas
emagrece, mas a falência do tratamento está justamente na manutenção da
restrição alimentar a longo prazo, para manutenção posterior do peso, a
qual raramente é conseguida. Desta forma, as dietas milagrosas que
prometem perda rápida de peso atraem cada vez uma parcela maior da
população que busca o peso “ideal”. Mas o grande foco é a reeducação
alimentar, que o paciente obeso incorpora, no seu dia-a-dia, novos e bons
hábitos alimentares. Antes do
planejamento dietético deve ser feita uma avaliação do grau de obesidade,
uma avaliação da presença de comorbidades e das experiências nutricionais
anteriores. A atividade física diária e a motivação também são fatores que
vão influenciar no tratamento. O
objetivo da perda estável de peso à custa de massa gordurosa só pode ser
obtido através de um balanceamento calórico/gordura negativo. Um
planejamento alimentar hipocalórico - baixo em gorduras e em açúcares
simples, porém completo em seu conteúdo nutritivo (proteínas, ácidos
graxos essenciais, vitaminas, minerais e fibras) - é necessário e muitas
vezes descuidado. Neste momento, pode
ser útil observar a pirâmide alimentar. Ela permite um planejamento
alimentar saudável. O uso adequado dos alimentos permite a realização
prática do planejamento. Ele integra os alimentos dos 5 grupos
(carboidratos simples e complexos, carnes, gorduras, leite e derivados,
legumes e verduras e frutas), cumpre os requisitos nutricionais e
possibilita a educação nutricional do paciente, além da perda de peso.
 A
dieta hipocalórica balanceada é composta segundo a tabela abaixo:

O planejamento dietético deve ser feito após o
conhecimento do gasto calórico, que na prática clínica é feito por meio de
fórmulas que levam em consideração o gasto metabólico basal (GMB) e a
atividade diária do indivíduo. Para o cálculo do GMB são utilizadas
fórmulas como as preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ou
as de Harris-Benedict, a seguir:
Dentro do
planejamento alimentar também é importante que o profissional utilize
estratégias de mudança comportamental que facilitem a aderência ao
tratamento como, por exemplo, ensinar o paciente a:
• Comer devagar, em pequenas porções e
mastigar bem os alimentos;
• Não fazer compras em supermercado quando estiver com fome;
• Não fazer intervalo muito grande entre as refeições;
• Não comer em frente à televisão;
• Dividir as cotas alimentares de forma a poder alimentar-se antes e após
a atividade física. Apesar da
reeducação alimentar com planejamento dietético para prescrição de uma
dieta hipocalórica ser o tratamento ideal, uma infinidade de outras dietas
estão disponíveis em livros e na internet:
- Dieta de baixíssimas calorias: dietas com
menos de 800 Kcal/dia. A adesão é muito baixa e não há benefícios em
mantê-la por muito tempo.
- Dietas populares: existem mais de 1200 livros tratando sobre o assunto.
Prometem resultados rápidos e simplificam as orientações.
- Dietas ricas em gorduras e com baixo teor de carboidratos: as mais
famosas são “A nova dieta revolucionária do Dr. Atkins” e “A dieta de
South Beach”. Os indivíduos não conseguem suportar por longo prazo a
restrição severa de carboidrato, retomando a alimentação anterior ao
tratamento.
- Dietas ricas em proteínas e pobre em carboidratos: similares à dieta
cetogênica, mas permitem uma quantidade maior de carboidratos. É conhecida
como “O ponto Z – a dieta”. Utiliza 40% de carboidrato, 30% de proteínas e
30% de gorduras. Os únicos alimentos liberados são vegetais. Frutas são
consumidas com moderação.
- Dietas ricas em carboidratos e pobres em gordura: dieta com somente 10%
de gordura, proposta pelo Dr. Dean Ornish em “Salvando seu coração” e
“Coma mais e perca peso”.
- Dietas que preconizam a combinação de alimentos: “A dieta de Beverly
Hills”, 35 dias com dieta exclusiva de frutas. Após este período, os
carboidratos não são misturados com as proteínas.
Como o maior determinante da redução de peso é
o balanço calórico e não a composição dos macronutrientes, todas as dietas
que reduzem ingestão calórica resultam em perda de peso. A grande maioria
delas, sem estudos científicos que comprovem cientificamente sua
efetividade. É necessário um movimento de conscientização da população
sobre a importância de uma melhor qualidade na alimentação e da atividade
física diária para a manutenção da saúde. Essa postura não pode ser apenas
individual, mas social. As pessoas precisam saber que comer é uma
atividade saudável e prazerosa, mas que não é isenta de riscos se cuidados
não forem tomados.
Atividade Física
Melhores resultados na perda de peso são
obtidos quando se associa atividade física à dieta. O exercício físico
facilita a aderência à dieta hipocalórica e vice-versa, alterando a
proporção de gordura e carboidratos utilizados tanto durante a atividade
física como em repouso, e acrescentando maior perda de gordura corporal
durante o tratamento. É um mito associar a atividade física ao aumento do
apetite. Quando se avalia a ingestão de macronutrientes em 24 horas,
observa-se que nos dias em que são feitos os exercícios a ingestão
calórica é semelhante aos dias sem atividade física programada. Mas o
exercício físico parece influenciar na seleção dos macronutrientes.
Exercícios de longa duração e baixa intensidade produziram maior ingestão
de lipídeos do que em condições sedentárias e os exercícios de alta
intensidade e curta duração produziram um consumo maior de carboidratos. O
exercício físico melhora a força muscular, o equilíbrio, a agilidade e o
condicionamento cardiovascular não só no momento do exercício, mas durante
o restante do dia. Quando um
indivíduo obeso perde peso, há redução do tecido adiposo, também de massa
magra (água, eletrólitos e tecido muscular). Quanto mais intensa a perda
de peso, maior é a perda de massa magra. Quando o tratamento não inclui
atividade física, esta perda pode chegar a ser de 25 a 30% da redução
total do peso. Se associado a uma atividade aeróbica, a perda de massa
magra pode ser reduzida a 5%.
A importância dessa preservação da massa
magra reside no fato de esta ser o maior determinante do gasto metabólico
basal (GMB). Como o GMB representa cerca de 60 a 70% do gasto energético
diário total, modificações de 1 a 2% teriam um grande efeito na regulação
do peso a longo prazo. Além disso, a restrição calórica produz redução de
15 a 30% no GMB, com conseqüências óbvias: a redução de peso cria
situações adaptativas no gasto energético que podem prevenir posterior
redução do peso, o que poderia ser revertido com o acréscimo da atividade
física. A atividade física prescrita
pode ser a programada e a não programada. As atividades físicas não
programadas são as atividades rotineiras e devem ser incluídas no programa
de perda de peso. Modificações de coisas simples (como reduzir o uso de
controle remoto da televisão, de telefones sem fio, de elevadores e
escadas rolantes, deixar o carro em casa de vez em quando e passear a pé)
fazem diferença importante no final do dia.
A atividade física programada deve fazer
parte do tratamento para perda de peso, mas no momento de prescrevê-la
devemos levar em conta as limitações do paciente, tais como magnitude da
obesidade, doença isquêmica, problemas ortopédicos etc. A adesão é maior
quando há prazer no exercício praticado.
Além dos benefícios da atividade física como
tratamento para perda de peso, é unanimidade que ela é fundamental para a
manutenção do peso perdido.
Modificação Comportamental
Juntamente
com a dieta e a atividade física, outro fator importante na perda e
manutenção do peso é a mudança comportamental. Para isso, devem ser
investigados os fatores que facilitam a ingestão inadequada de alimentos
naquele indivíduo em particular; a presença de episódios de comer
compulsivo (binge eating); os hábitos alimentares do paciente; seu padrão
de atividade física; seu histórico de perda e ganho de peso; os eventos
associados às oscilações de peso e suas conseqüências; os pensamentos,
sentimentos e comportamentos associados ao peso, formato
corporal e alimentação; o nível de funcionamento social e familiar, dentre
outros aspectos. Ao longo de seu
desenvolvimento, o indivíduo associa a alimentação a vários tipos de
situação, formando hábitos alimentares inadequados. Habitua-se a comer
enquanto estuda, enquanto assiste televisão, em uma pausa no trabalho, ou
quando outra pessoa vai comer. Com a repetição, essas situações podem se
tornar tão associadas à alimentação que, cada vez que elas ocorrem, a
resposta
de comer provavelmente será emitida, mesmo que a pessoa esteja sem fome.
O automonitoramento pode ser útil no
tratamento. Pode-se iniciar pedindo que o paciente monitore apenas o tipo
de alimento ingerido, a quantidade, o local e a situação que o levou a
comer. Gradualmente, pode-se solicitar que acrescente no seu diário
pensamentos e sentimentos associados à alimentação, hábitos de exercício
etc.
Alguns pontos podem ser seguidos para uma
melhor intervenção comportamental: -
Automonitorização: registrar em diários os alimentos ingeridos, local das
refeições e estado de humor nas refeições.
- Controle do estímulo que precede a
alimentação: fazer refeições e lanches em horários preestabelecidos;
levantar da mesa após o almoço; substituir os beliscos por outras
atividades. - Controle no ato de
comer: não comer em pé, não assistir televisão, ler, ou escrever enquanto
estiver se alimentando.
- Reestruturação cognitiva: objetivar
expectativas reais quanto à velocidade de perda de peso e peso ideal.
- Recaídas: aceitar que elas são normais e não
catastróficas; aprender a identificar lugares e situações emocionais que
levam às recaídas: emoções negativas (depressão, ansiedade), eventos
sociais (férias, festas). Aprender a
solucionar esses problemas pode ser útil: se está ansioso ou preocupado,
pode tentar ir adiando o comer inadequado enquanto aplica estratégias para
relaxamento; se está irritado, pode sair com um amigo ou praticar
exercícios; se freqüentemente come muito em festas, pode alimentar-se
antes destas para diminuir a fome ou optar por bebidas dietéticas. O
paciente deve ter participação ativa no processo de busca de soluções
alternativas. Em muitos casos é necessário fazer um treino em habilidades
sociais. Este treino implica no desenvolvimento da capacidade de expressão
de sentimentos e pensamentos; da capacidade de estabelecer limites e
defender direitos; de fazer e negar pedidos; de lidar com a crítica e com
eventuais erros. Essas habilidades favorecem o aumento da autoestima do
paciente e permitem que este consiga lidar melhor com os fatores
estressores sociais que antes z poderiam gerar ansiedade, insatisfação e,
conseqüentemente, alimentação inadequada.
A regularidade no comparecimento às consultas
e o reforço contínuo do conhecimento sobre a dieta, atividade física e a
intervenção comportamental são fundamentais para o controle da obesidade.
 
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