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Avaliação Clínica do Paciente Obeso
Continuamos a publicação dos textos científicos produzidos, em 2006, pelos
coordenadores dos
Cursos sobre Obesidade e Ética da ABESO. O presente artigo é dos Drs. Marcio
Mancini (Chefe da Liga
de Obesidade Infantil do HC-FMUSP; Supervisor do Ambulatório de Obesidade
Infantil e de Obesidade
Mórbida; e Presidente eleito (2008/2009) da ABESO) e Alfredo Halpern (Professor
Livre-Docente da
Faculdade de Medicina da USP e Chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica
do HC/FMUSP).
É importante, na anamnese do paciente obeso,
abordar a história detalhada do ganho de peso, dos padrões alimentares, dos
hábitos de atividade física, das doenças pré-existentes, dos exames e
tratamentos já realizados (incluindo as medicações já utilizadas) e das
expectativas do paciente. Esses itens podem fornecer informações valiosas que
ajudam a direcionar o tratamento, seja na abordagem nutricional, seja na escolha
de um agente terapêutico. Devem ainda ser avaliados, além dos exames realizados
no passado, os antecedentes mórbidos pessoais e familiares, incluindo hábitos
dos pais e irmãos e a presença de excesso de peso e co-morbidezes associadas à
obesidade na família.
O médico que se propõe a tratar de obesidade deve
adequar equipamentos (mobiliário adequado, manguito suficientemente grande para
a medida da pressão arterial, balança que suporte pacientes com mais de 150 kg
etc) para atender pacientes afetados por esta doença.
Os pacientes obesos, já expostos a inúmeras
outras doenças e outros fatores de risco, são alvo de discriminação e
ridicularização em vários setores: na mídia popular, no ambiente escolar,
profissional e médico. Sendo assim, profissionais que se propõem a cuidar de
pacientes obesos devem evitar atitudes negativas em relação à obesidade dos
pacientes, que possam refletir na diminuição da qualidade do relacionamento
médico-paciente e em conseqüente aumento do índice de abandono do tratamento.
As pessoas podem engordar em qualquer idade, mas
isso é mais comum em algumas fases da vida. Mesmo antes do nascimento, a
alimentação da gestante pode ser determinante da presença de obesidade na idade
adulta no filho que ainda nem nasceu. Tanto o ganho excessivo de peso como a
exposição a períodos de fome e desnutrição durante a gestação podem favorecer o
ganho de peso futuro do filho.
A alimentação oferecida pela mãe a seu filho pode
influenciar sua massa corporal, seu peso e sua composição corporal, mesmo em
idade mais avançada. No primeiro ano de vida, o peso corporal triplica e a
gordura corporal normalmente duplica. A chance de obesidade na idade adulta é
80% para crianças com ambos os pais pesados, 40% para crianças com um dos pais
com sobrepeso e <10% se nenhum dos pais apresenta excesso de peso.
Boa parte das mulheres com sobrepeso apresenta
esse ganho de peso durante ou após a adolescência, que pode ser precipitado por
gestação, casamento e menopausa. Algumas mulheres ganham peso consideravelmente
durante a gestação, chegando a aumentar mais que 30 kg. Embora seja uma queixa
freqüente entre as pacientes com ganho de peso, estudos demonstram que o ganho
de peso provocado pelo uso de contraceptivos orais é 0,5 kg, e 20% das mulheres
perdem peso. Após a menopausa, existe um declínio na secreção de estrógeno e
progesterona, que altera a deposição de gordura corporal, favorecendo a
deposição de gordura central (andróide), um determinante importante de risco
cardiovascular.
Em muitos homens, a transição de um estilo de
vida ativo, quando adolescente e adulto jovem, para um estilo de vida mais
sedentário nos anos posteriores, associado a início de trabalho e casamento, é
determinante de ganho de peso. Ganho de peso também é bastante comum por ocasião
de cessação de tabagismo, explicado, ao menos parcialmente, pela supressão do
efeito termogênico da nicotina, e por aumento da ingestão de calorias. É comum
um aumento de 1 a 2 kg nas primeiras semanas após a interrupção do fumo, seguido
de um ganho de 2 a 3 kg nos seis meses seguintes. Em média, o ganho de peso
limita-se a 4 a 5 kg, mas pode ser maior.
O peso corporal pode variar durante um dia, à
medida que o alimento é ingerido e metabolizado. Flutuações de peso podem
ocorrer na dependência da ingestão de sal e do conteúdo intestinal. O peso tende
a ser menor logo pela manhã.
Flutuações maiores de peso, relacionadas a
períodos de perda de peso induzida por dieta e de recuperação posterior foram
denominadas fenômeno do “io-iô” (ou “efeito sanfona”). Tem sido debatido se
essas flutuações são mais prejudiciais à saúde do que a manutenção de peso
elevado, porém não há evidências que suportem essa afirmação.
Para uma melhor exposição do que deve ser
avaliado no paciente obeso será mostrado como são protocolados os pacientes no
Ambulatório de Obesidade e Síndrome Metabólica do Serviço de Endocrinologia e
Metabologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo.
Histórico da obesidade - Documentamos o peso ao
nascer, a idade do início da obesidade (na infância, na adolescência até os 20
anos, ou na idade adulta) e a existência de suposto fator desencadeante.
Tratamentos anteriores são também anotados, incluindo as medicações, efeitos
colaterais e resposta ao tratamento.
Fatores etiológicos - A presença de doenças
orgânicas levando a ganho de peso deve ser avaliada caso a caso, de acordo com
os sinais e sintomas. Desse modo, pacientes hipertensos com deposição abdominal
de gordura, pletóricos e com estrias cutâneas devem ter o cortisol urinário
livre de 24 horas medido e, se elevado, ser avaliados para Síndrome de Cushing.
Da mesma forma, pacientes com sinais e sintomas de hipotiroidismo devem ter seu
TSH avaliado. Pacientes com cefaléia crônica e sintomas visuais devem
submeter-se a avaliação oftalmológica e neurológica, e realizar exames de imagem
do crânio para excluir lesões centrais, levando à hiperfagia; assim como
mulheres com hirsutismo e amenorréia devem ter a relação LH/FSH, a arquitetura
ovariana e os andrógenos avaliados para excluir Síndrome dos Ovários
Policísticos.
Padrões de alimentação - A Síndrome do Comer
Compulsivo (Binge Eating Disorder) é uma doença psiquiátrica caracterizada por
episódios descontrolados de alimentação compulsiva, mais comum no final da
tarde.
Existem outros padrões alimentares, não caracterizados como doença, mas que
merecem avaliação, pois podem auxiliar o médico na escolha de um ou outro
medicamento, diante de um paciente específico.

Desse modo, existem pacientes que possuem
hiperfagia prandial, comportamento alimentar mais comum no sexo masculino,
caracterizado por comer em excesso, mas apenas nos horários de refeições
programadas.
Alguns pacientes omitem o desjejum (e algumas
vezes também o almoço), sendo denominados “comedores noturnos”. Outro
comportamento distinto é o beliscador, caracterizado por inúmeras pequenas
refeições ou bocados não programados. Um comportamento menos comum, o
“madrugador” caracteriza-se por levantar da cama para alimentar-se durante a
madrugada (night eating syndrome). Alguns destes casos podem ter distúrbios do
sono associados, como apnéia do sono e síndrome das pernas inquietas.
Comorbidezes da obesidade - A presença de doenças
associadas à obesidade, como hipertensão arterial, diabetes mellitus,
dislipidemia, apnéia obstrutiva do sono, doença coronariana, litíase biliar,
osteoartrose, alterações menstruais são assinaladas, bem como reserva-se espaço
para anotar as doenças não associadas à obesidade e os medicamentos usados para
cada uma delas.
Antecedentes familiares - São registrados os
antecedentes familiares para essas doenças e também os antecedentes familiares
de obesidade, graduandose a gravidade da obesidade nos pais, irmãos e filhos.
Hábitos - Avalia-se a presença de tabagismo e etilismo, e a atividade física do indivíduo, classificando-o em sedentarismo,
atividade física programada ou cotidiana (leve, moderada ou intensa).
Exame físico: dados antropométricos - Registrase
o peso (em kg) e a altura (em m), calculando-se o índice de massa corporal (IMC).
Esse índice é calculado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado. O IMC é
proporcional à gordura corporal e está também relacionado ao risco de morte e ao
risco de doenças associadas à obesidade. A faixa normal vai de 18,5 a 24,9 kg/m2
e índices de 25 kg/m2 ou mais indicam a presença de graus progressivamente
maiores de sobrepeso (Tabela 1).

O excesso de gordura pode estar mais concentrado
na região abdominal ou no tronco, o que define obesidade tipo andróide, superior
(de upper), central, abdominal, ou em maçã (apple), mais freqüente, mas não
exclusiva, no sexo masculino; ou pode estar mais concentrado na região dos
quadris, o que define obesidade tipo ginóide, inferior, periférica ou
subcutânea, glúteo-femoral, ou em pêra, mais freqüente, mas não exclusiva, no
sexo feminino. A obesidade andróide apresenta maior correlação com complicações
cardio-vasculares e metabólicas. A gordura visceral pode ser avaliada por
diversos métodos, sendo o mais preciso a tomografia computadorizada e a
ressonância nuclear magnética, métodos que, em geral, são muito caros e não
disponíveis para este propósito. As medidas da circunferência abdominal ou da
relação cintura-quadril são alternativas clínicas baratas e práticas. Mede-se a
circunferência da cintura (na maior circunferência entre a última costela e a
crista ilíaca, horizontalmente, com o indivíduo em pé) e a circunferência do
quadril (na altura do trocânter do fêmur), podendo ser calculada a relação
cintura-quadril ou razão abdome-quadril. Quanto maior a relação ou a medida da
cintura, maior o risco de doenças cardiovasculares e diabetes mellitus. Relação
cintura-quadril superior a 0,8 em mulheres e 0,9 em homens define distribuição
central de gordura e, estatisticamente, se correlaciona com maior quantidade de
gordura visceral ou portal, medidas por métodos de imagem. A medida isolada da
circunferência da cintura tem mostrado ser suficiente para estabelecer risco,
sendo considerados os limites normais a circunferência <94 cm para homens; <80
cm para mulheres; e risco elevado cardiovascular quando a medida em homens
ultrapassa 104 cm e em mulheres ultrapassa 88 cm (Tabela 2).

A medida da circunferência abdominal tem
importância no estabelecimento de diagnóstico de síndrome metabólica,
relacionada a maior risco cardiovascular.
Recentemente, uma nova definição de síndrome
metabólica foi proposta pela Federação Internacional de Diabetes (IDF). Por essa
nova definição, apresentam síndrome metabólica indivíduos que apresentam
obesidade central (definida como circunferência abdominal >94 cm para homens
europídeos e >80 cm para mulheres europídeas – de origem européia – com valores
específicos para outros grupos étnicos), mais dois dos seguintes quatro fatores:
triglicérides acima de 150 mg/dL (ou tratamento para), colesterol HDL <40 mg/dL
em homens e <50 mg/dL em mulheres (ou tratamento para), hipertensão arterial
definida por PA sistólica >130 ou PA diastólica >85 (ou tratamento para) e
glicemia de jejum >126 mg/dL (ou diagnóstico de diabetes mellitus – caso a
glicemia esteja entre 100 e 125, um GTT oral é fortemente recomendado).
Exame físico: aparelho cardiovascular - A
morbidade e a mortalidade que se associam à presença de obesidade são dominadas
pelas doenças cardiovasculares, manifestando-se na forma de doença cardíaca
isquêmica, hipertensão, arritmias e insuficiência cardíaca. Pacientes obesos, em
especial os pacientes com adiposidade abdominal marcante, devem ser
exaustivamente investigados em relação à presença de doenças cardiovasculares.
Pacientes com obesidade mórbida apresentam com
freqüência uma mobilidade muito comprometida e podem não apresentar queixas
sugestivas de cardiopatia, parecendo assintomáticos, mesmo que apresentem doença
cardiovascular importante. Deve-se buscar dados sugestivos de insuficiência
cardíaca - como estase jugular, ritmo cardíaco anormal, estertores crepitantes
ou alterações da percussão pulmonar, hepatomegalia e edema periférico - sinais,
porém, difíceis de identificar no paciente com obesidade mórbida. A investigação
com exames complementares deve ser indicada.
A aferição da pressão arterial de pacientes
obesos deve ser realizada com aparelho com braçadeira adequada à circunferência
do braço do paciente, uma vez que o uso do aparelho convencional tende a
hiperestimar o valor obtido. A associação entre obesidade e hipertensão
tem grande importância clínica, uma vez que a redução de peso, mesmo modesta (da
ordem de 5-10% do peso inicial), mas mantida a longo prazo, tem como
conseqüência a redução da pressão arterial diastólica em 0,35 mmHg e da
sistólica em 0,45 mmHg para cada quilo de peso perdido. A redução pressórica é
aditiva à observada com restrição de sódio, álcool e medicações
anti-hipertensivas, possibilitando em muitos pacientes a suspensão dessas
medicações.
A obesidade prejudica a ausculta cardíaca e
sopros silenciosos são altamente prevalentes em indivíduos com obesidade. Uma
ausculta negativa não é suficiente para excluir a presença de alterações.
Xantomas e xantelasmas podem ocorrer devido à
dislipidemia, e acantose nigricans, provocada por resistência à insulina, pode
também estar presente. A acantose nigricans é uma condição clínica com aumento
da pigmentação nas dobras do pescoço, no dorso das articulações interfalangeanas
e metacarpofalangeanas e nas axilas.
Exame físico: abdome - O exame físico do abdome
globoso e tenso de pacientes obesos transmite poucas informações, sendo tanto a
percussão, como a palpação e a ausculta extremamente dificultadas pela presença
de tecido adiposo subcutâneo abundante.
Exames complementares
- Vários exames
complementares apresentam limitações no paciente obeso. Na Tabela 3 estão
arrolados os exames complementares, as limitações impostas pela obesidade e,
quando aplicável, possíveis alternativas.

 
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