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Entrevista – Dr. Walter Pories, um dos maiores especialistas em cirurgia bariátrica no mundo, em conversa exclusiva para revista ABESO.

Obesidade e suas Co-morbidades – Artigo dos pesquisadores Marcos Antonio Tambascia, Bruno Geloneze e Sylka Geloneze, da Unicamp.

 

XII CBOSM
Alto Nível Científico no Congresso da ABESO

Cerca de 2 mil participantes, dois convidados estrangeiros de peso, uma programação cuidadosamente preparada, alto nível nas apresentações e presença expressiva nos mais variados horários marcaram o XII Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica realizado em agosto, em São Paulo, SP.

Uma cerimônia de abertura “light, em harmonia com o tema do congresso”, deu início ao XII CBOSM, segundo a definição do presidente do evento, Dr. Marcio Mancini. Depois de afirmar que o XII “deve ser o maior Congresso Brasileiro de Obesidade até hoje realizado”, ele apresentou os estrangeiros convidados - Drs. Arne Astrup, da Dinamarca, e Eric Ravussin, dos EUA. Novidades foram destacadas, como o Prêmio Jovem Investigador e a inserção de Temas Livres entre as palestras dos Simpósios.

Seguiram-se as rápidas e carinhosas homenagens ao Dr. Renato Di Dio (um dos fundadores da Abeso, ausente por motivos de saúde), apresentada pelo Dr. Mancini; e ao Dr. Amélio de Godoy-Matos, a cargo do Dr. Alfredo Halpern.

Concluído o agradecimento do homenageado e do presidente do congresso, todos passaram ao hall do Centro de Convenções, onde um suave conjunto de música instrumental, ao vivo, fez o pano de fundo para os encontros, as conversas e o coquetel.

A Primeira Conferência

O convidado estrangeiro Dr. Eric Ravussin, dos EUA, abriu a parte científica do XII CBOSM com sua conferência, na manhã do dia 17 de agosto. Em plenário praticamente lotado, ele apresentou suas pesquisas atuais, realizadas no Pennington Biomedical Research Center, sobre os efeitos da restrição de calorias sobre o envelhecimento em indivíduos não obesos. Seu trabalho tenta comprovar que comer menos prolonga a vida, o que já está bem estudado em animais, mas não em seres humanos. O que concluiu até agora é que as células do corpo apresentam maior qualidade sob restrição calórica: mais mitocôndrias funcionantes e menos estresse oxidativo. O metabolismo fica mais quiescente, mas cai um pouco a libido, segundo ele. As pesquisas prosseguem.

Tratamento da Obesidade Infanto-Juvenil

Ainda na manhã do dia 17, dentro de simpósio com este tema, o Dr. Mauro Fisberg lembrou que os hábitos alimentares infanto-juvenis são, em geral, inadequados e que garantir o crescimento dentro dos padrões é o desafio. Ele explicou em detalhes as etapas do tratamento nutricional, mostrando cuidados para evitar o fracasso total, e falou sobre as novas recomendações/ 2007 da Academia Americana de Medicina.

Na palestra sobre Atividade Física, o Dr. Victor Matsudo disse que pesquisas mostram que é cada vez maior o tempo passado diante da TV pela população brasileira e que o sedentarismo mata: “o gordinho ativo morre menos que o magro sedentário”, afirmou. O Dr. Matsudo acredita que com mudanças comportamentais e no estilo de vida é possível evitar a intervenção farmacológica. Ele citou a experiência da cidade de Sorocaba, SP, que implantou diversas áreas de lazer e reduziu os índices de doenças cardíacas e hipertensão.

Falando sobre Tratamento Farmacológico em Crianças e Adolescentes, a Dra. Lucia Carraro disse que estudos mostram prevalência da Síndrome Metabólica extremamente alta nesta faixa etária, independente dos critérios usados. Segundo a especialista, a SM pode ser prevenida, desde que precocemente. Ela apresentou estudos que consideram a sibutramina uma droga segura; que apresentaram o orlistat como “de uso limitado”, pois 1/3 dos participantes foi retirado do grupo de estudo por efeitos colaterais; e melhora da resistência insulínica com a metformina, entre outros benefícios observados.

Mecanismos Moleculares de RI na Obesidade

A segunda conferência do primeiro dia do XII CBOSM foi apresentada pelo Dr. Mario Saad, da Unicamp, que mostrou “de maneira tecido-específico” cada um desses mecanismos. Inicialmente, falou sobre a Resistência à Insulina (RI) no Sistema Nervoso Central, afirmando que o animal obeso  tem RI no hipotálamo e Resistência à Leptina no SNC.

Além do Sistema Nervoso Central, ele mostrou a RI no fígado, no músculo, no tecido adiposo e nos vasos. Segundo o Dr. Saad, “o melhor entendimento destes mecanismos certamente vai fazer com que possamos desenvolver mais drogas para combater a Resistência à Insulina, e melhorá-la na obesidade e no diabetes tipo 2”. Ele afirmou que “a questão principal não é só criar drogas novas. A partir do momento em que entendermos os mecanismos, poderemos dar novos usos a drogas antigas”. Segundo Dr. Saad, a médio prazo será possível testá-las para tratamento da RI.

Bases Fisiopatológicas da RI

No simpósio da tarde do dia 17 de agosto, o Dr. Eric Ravussin apresentou a palestra
“O papel do tamanho dos adipócitos na RI”. O pesquisador acredita que, quando o indivíduo tem dificuldade em ativar programas que levem à diferenciação adipocítica, ao invés de fabricar muitos e pequenos adipócitos, produz poucos e grandes. Nessa situação, o adipócito não consegue absorver todo o ácido graxo proveniente da dieta. “Uma parte acaba sendo incorporada no fígado e no músculo, o que potencializa a RI”, afirmou.

O Dr. Licio Veloso, da Unicamp, disse durante a palestra “Resistência Hipotalâmica à Insulina” que o grupo de pesquisa do qual participa está tentando caracterizar os mecanismos através dos quais a insulina e a leptina agem inadequadamente no hipotálamo.
“Eles têm papel importante no hipotálamo: controlam e coordenam o acoplamento entre a fome e o gasto de energia. Assim, “se ele deixa de responder adequadamente aos dois hormônios, perde esta coordenação”. A tendência é o ganho de peso. Ele apresentou informações para responder a duas questões, entre várias outras: porque as pessoas perdem a resposta à insulina e à leptina?; e como o ácido graxo presente na dieta pode predispor à RI?

Na seqüência, o Dr. Josivan Lima, da UFRN, falou sobre dislipidemia pós-prandial e resistência à insulina. Ele comentou que cerca de 20 a 30% dos que têm eventos cardiovasculares apresentam lipídios normais. “É que as dosagens são feitas em jejum e o problema surge após a alimentação”, disse. O pesquisador mostrou que se poderia dosar o triglicerídeo após a alimentação. “Nossos trabalhos mostram que o triglicerídeo pós-prandial é um fator de risco independente”, informou. Ele acrescentou que dois trabalhos importantes publicados recentemente no JAMA, com mais de 20 mil pacientes estudados, mostraram que, quanto maior o triglicerídeo pós- jejum – independente do horário da refeição - , maior o risco para infarto, doença isquêmica do coração e morte.

Livro e Jantar

No intervalo da tarde, uma rápida parada para autógrafos no lançamento do livro dos Drs. Adriano Segal e Marcio Mancini, no estande da ABESO: “Tudo que Você Precisa Saber Antes de Reduzir seu Estômago – Guia completo da cirurgia da obesidade”, Editora Brasiliense. No dia seguinte, pela manhã, repetiuse a sessão de autógrafos.

À noite, o Dr. Mancini, presidente do XII CBOSM, recebeu palestrantes e acompanhantes para o tradicional Jantar do Presidente, no elegante restaurante do Jockey Clube de São Paulo. Mais de 100 convidados estiveram presentes.

Dr. Astrup: a Importância do Tipo de Dieta

O segundo dia do XII CBOSM começou com uma das apresentações mais esperadas: a conferência do Dr. Arne Astrup, da Universidade de Copenhagen, Dinamarca.

Sobre tipos de dieta, afirmou que tudo leva a crer que as pobres em gordura tendem mais a manter o peso; refrigerantes e bebidas doces têm baixo poder sacietógeno, acrescem o valor calórico diário, podendo contribuir para obesidade; as gorduras trans estão associadas a riscos cardiovasculares, diabetes e maior tendência a engordar, sendo totalmente abolidas na Dinamarca; sob o ponto de vista de engordar menos, o cálculo do índice glicêmico não seria relevante; leite e outros alimentos ricos em cálcio estariam associados à perda ou ao ganho menor de peso; sobre o chocolate amargo, surpreendeu ao afirmar que estudo comprovou que, após c o n s u m o do tipo amargo, sente-se menos fome nas 24 horas seguintes. Para concluir, consumo de frutas, verduras e grãos ainda deve ser estimulado.

Diabetes e Obesidade

Dentro do simpósio com este tema, o Dr. Bruno Geloneze, da Unicamp, apresentou palestra sobre Incretinas na Diabesidade em que afirmou que cerca de 70% da secreção de insulina, após a ingestão de glicose, é mediada pelas incretinas. “Elas estimulam esta secreção, em concentração fisiológica, estimulando sua produção de maneira glicose-dependente”, disse. Ao descrever o mecanismo das incretinas na manutenção da glicemia, lançou a questão: o diabetes pode ser uma doença intestinal? A resposta, ao final, foi positiva. O especialista afirmou que “a leptina é um hormônio que tenta nos defender da obesidade”, enquanto o GLP1 tem efeito anorexigênico. Portanto, a interação entre os dois pode ser um mecanismo de defesa ou limitação da obesidade”. O que seria, segundo ele, um “conceito polêmico, uma hipótese a ser questionada”.

Conferência: Tratamento Cirúrgico

O Dr. Arthur Belarmino Garrido-Junior, do HC da FMUSP, apresentou os três métodos cirúrgicos da obesidade, lembrando que o mais utilizado, no Brasil e no mundo, é o bypass gástrico. Segundo ele, a cirurgia da obesidade é hoje uma realidade “e já se esboçam tratamentos cirúrgicos para pessoas menos obesas, que já apresentem problemas metabólicos graves, principalmente o diabetes tipo 2”. O especialista acha que “tudo indica que estas cirurgias vão se firmar como novos recursos importantes no tratamento de doenças metabólicas em pessoas não tão obesas”.

Também no dia 18, a Dra Luciana Bahia, da UERJ, apresentou a palestra “Citocinas, Disfunção Endotelial e Resistência à Insulina”. Ela comentou que várias adipocinas podem prejudicar a função vascular, prejudicando as ações da insulina. Estudos conseguiram demonstrar, segundo ela, que sensibilizadores de insulina, como metformina e rosiglitazona, podem não só melhorar estas alterações metabólicas, como também a função vascular em obesos jovens com SM, e em pessoas com DM2. “No entendimento da relação entre SM, DM2 e doença cardiovascular, é fundamental o entendimento da função do endotélio e o papel das substâncias secretadas pelo tecido adiposo e pelo vaso”, concluiu.

Eleita Diretoria ABESO 2008/2009

Na tarde do dia 18, os associados da ABESO se reuniram em Assembléia Geral Ordinária, em que aprovaram as contas da gestão 2006/ 2007; ouviram relato sobre as conquistas do período; elegeram a nova diretoria 2008/2009 e foram informados sobre o próximo congresso.

A diretoria eleita para o próximo biênio é encabeçada pelos Drs. Marcio Mancini, presidente, e Bruno Geloneze, vice-presidente; João Eduardo Nunes Salles, 1° secretário; Josivan Gomes de Lima, 2° secretário; Mario Carra, tesoureiro. No Conselho Fiscal estão Adriano Segal, Claudia Cozer e Mônica Beyruti, tendo como suplentes Mônica Cabral e Perseu Seixas. Os diretores pela SBEM são Fátima S. Afonso, Josivan Lima e Zuleika Halpern. Foram apresentados três sócios honorários, categoria recém criada: Renato Di Dio, Alfredo Halpern e Eric Ravussin.

Os associados foram comunicados de que Salvador, Bahia, será a sede do XIII CBOSM, a ser presidido pela Dra. Leila Araújo, em 2009. Nos anos pares haverá sempre um Simpósio de Síndrome Metabólica, sendo o próximo nos dias 30 e 31 de maio de 2008, em Curitiba, PR.

A Festa

Na noite de sábado, aconteceu a tão esperada Festa de Confraternização, reunindo centenas de convidados no Espaço Gardens, para uma noite de muita música, dança, animação. Os participantes foram recebidos com flashes dos fotógrafos contratados, dando a todos tratamento de celebridade. Na saída, as fotos eram entregues. Durante toda a festa a pista de dança permaneceu lotada, indo até as 2 da madrugada.

 

Manhã de Encerramento

Apesar da festa na noite anterior, a platéia estava cheia, às 8 horas, na conferência “Tratamento Farmacológico da Obesidade – Atualização”, pelo Dr. Henrique Suplicy (foto abaixo, à esquerda), da UFPR, atual presidente da ABESO. Ele abordou passado, presente e futuro dos tratamentos, incluindo os alternativos, em apresentação clara e informativa.

Entre os pontos que ressaltou, estão: a utilização das formulações magistrais no tratamento da obesidade – há anos proibidas pela ANVISA, mas que continuam sendo praticadas, usando diversos artifícios para burlar a lei – e a questão dos alternativos. “Fala-se muito que os fitoterápicos são inofensivos, mas vemos que têm efeitos colaterais, e não fazem perder peso”, comentou. Dr. Suplicy informou que em maio de 2008 entrará em vigor Resolução da ANVISA que obrigará todas as farmácias do país a comunicar online a venda de medicamentos controlados.

Após três simpósios com palestras concorridas, chegou ao fim o XII CBOSM, em cerimônia comandada pelo seu presidente, Marcio Mancini (foto acima, à direita) que agradeceu às comissões, patrocinadores, expositores, à empresa organizadora e demais colaboradores. Para encerrar, foram anunciadas as ganhadoras nas duas áreas previstas no Prêmio Jovem Investigador, da ABESO: Cristiane M. de Moraes (área clínica) e Ananda Lages Rodrigues (área básica). Cada uma recebeu um cheque de 3 mil reais. Os Drs. Alfredo Halpern e Henrique Suplicy, respectivamente, fizeram a entrega das premiações.