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Entrevista
Cirurgia Bariátrica: Avanços e
Perspectivas
Dois dos maiores especialistas brasileiros na
cirurgia bariátrica no Brasil – os Drs. José Carlos Pareja, de Campinas, SP, e
Cid Pitombo, do Rio de Janeiro, RJ – falam com exclusividade à Revista da
ABESO sobre o quadro atual e os rumos desta cirurgia - incluindo, aqui, as
perspectivas de reversão do diabetes em pacientes obesos e a cirurgia em
pacientes magros com diabetes, ainda em fase experimental.
“Hoje já sabemos por que a cirurgia
bariátrica melhora o diabetes e o motivo
do emagrecimento.”
Dr. José Carlos Pareja,
pesquisador e chefe do Serviço de
Cirurgia de Obesidade da
Unicamp
Por Cristina Dissat
Revista da ABESO: Há quanto tempo sabe-se
que a cirurgia bariátrica poderia curar o diabetes?
Dr. Pareja: Há mais de dez anos já sabíamos que
a cirurgia bariátrica curava o diabetes, mas não sabíamos como acontecia.
Todos achavam que o motivo era a perda de peso. O sujeito emagrece e, com
isso, o seu quadro melhora. Um clínico ou especialista, ao tratar esse
paciente, sabe que ele precisa emagrecer. De 10 anos para cá, os
questionamentos foram crescendo, e as dúvidas sobre os reais motivos que
levavam à cura do diabetes, se intensificando. Como um paciente sai da
cirurgia bariátrica sem precisar tomar os medicamentos para diabetes? Depois
de 5 dias, mais ou menos, ele não precisa de mais nada!
Revista da
ABESO: Qual o raciocínio primário dos cirurgiões?
Dr. Pareja: Não é somente a perda de peso que
cura. Algo acontece, fazendo com que o organismo mude muito rapidamente. As
primeiras respostas a essas dúvidas surgiram com a descoberta do GIP (1970) e
do GLP-1 (1985). Com as pesquisas destas incretinas, observou-se que a cura do
diabetes poderia estar no intestino. Fazer essa avaliação era muito complexo.
Era preciso dosar, saber como dosar, o que só foi possível a partir da década
de 70, quando surgiram os radioimunoensaios. Entre 1990 e 1995, outros métodos
surgiram para identificação e detecção de hormônios, possibilitando encontrar
as respostas para todas as dúvidas quanto ao diabetes. Era preciso dosar antes
da operação e observar o que acontecia no organismo. Um dos pontos é que no
paciente com diabetes tipo 2, obeso, o GIP é produzido em quantidade normal ou
aumentada. Na cirurgia bypass os resultados surpreendiam, pois no dia seguinte
à cirurgia ocorre muita produção de GLP-1. Baseadas nesses dados, as
experiências começaram a ser feitas com ratos magros, curando-os do diabetes.
Revista da ABESO: Em que ponto estão as
pesquisas?
Dr. Pareja: Hoje já sabemos por que a cirurgia
bariátrica melhora o diabetes e o motivo que leva ao emagrecimento. Estamos
realizando um trabalho muito sério na Unicamp. Atualmente é a única que já tem
um protocolo, com pesquisas em todos os hormônios. As demais que existem
no país são baseadas em resultados clínicos. É um acompanhamento caro, pois
cada paciente faz de 70 a 100 dosagens antes da cirurgia, representando um
gasto médio de R$ 150 mil. Além de outros procedimentos, como o controle com
glicosímetros. A avaliação dos resultados em relação ao diabetes não pode ser
feita em período inferior a um ano.
Revista da ABESO: O que existe, em matéria
de resultados, na cirurgia bariátrica em magros para a cura do diabetes?
Dr. Pareja: Como disse, são teóricos.
Acompanhamos seis doentes e observamos que, após a cirurgia, é possível
controlar ou curar o diabetes, com estatísticas que variam de 80 a 100%. Um ou
outro doente precisará tomar algum medicamento, mas a maioria pode dispensar
todos. Agora sabemos o que está acontecendo dentro da célula; que o GLP-1 e o
GIP são importantes; que a perda de peso tem uma influência significativa,
assim como a menor ingestão de alimento. Não podemos prever em quantos
pacientes o procedimento vai funcionar, mas posso dizer que será abaixo de
80%. Ninguém no mundo tem esses números ainda. Todos estão em fase de estudo.
Revista da ABESO: E o que representa isso
para o paciente?
Dr. Pareja: É uma cirurgia cujos resultados
poderão ser considerados de razoáveis a médios. Não há restrição alimentar e
não há grande perda de peso, pelo fato do paciente já ser magro. Agora, se ele
não tiver uma vida saudável e engordar, não se sabe o que pode acontecer.
Outra questão fundamental para o paciente é o custo. O gasto médio mensal para
um tratamento do diabetes de excelente qualidade é de R$ 1 mil. Valores que
durarão por 10, 20 anos, ou mais. Se a cirurgia funcionar em 50% dos
pacientes, estamos muito satisfeitos. É uma economia
Revista da ABESO: Qualquer paciente pode
fazer a cirurgia?
Dr. Pareja: Não. Somente os que têm diabetes
tipo 2; em uso de insulina e medicação, sendo que, preferencialmente, há menos
de 15 anos; e com peptídeo-C em valores normais, a partir de uma série de
exames. Com todos os recursos que a endocrinologia dispõe hoje, não será
necessário avaliar o resultado da cirurgia em 100 ou 200 pacientes para saber
se irá funcionar, ou não. Daqui a um ano, mais ou menos, teremos todas as
respostas. Se forem dentro do que mencionei, o procedimento será aprovado.
Revista da ABESO: Por que a cirurgia
bariátrica não fazia parte dos congressos e simpósios e agora vem ocupando
tanto espaço?
Dr. Pareja: Porque a técnica foi desenvolvida
fora do ambiente universitário. Havia também uma incompatibilidade entre os
especialistas. Hoje, os cirurgiões entenderam que é o endocrinologista que
encaminha o paciente para a cirurgia. Esse comportamento aconteceu aqui no
Brasil. Em países como Suécia, Holanda, Dinamarca, Noruega, Itália e Espanha,
o crescimento da pesquisa científica foi mais rápido, por existir uma relação
melhor entre as especialidades. Com a possibilidade do tratamento do diabetes,
países como os Estados Unidos aumentaram seus investimentos, porque a doença é
um dos maiores problemas de saúde. São U$ 120 bilhões, 7% do orçamento, gastos
com o tratamento do diabetes.
Revista da ABESO: O Simpósio SBD-ABESO do
dia 18 de novembro, em Campinas, é uma mostra de que o debate científico deve
ocorrer entre diversas especialidades?
Dr. Pareja: Com certeza. Os endocrinologistas
falam sobre os hormônios e a evolução das pesquisas, enquanto o nosso foco é
sobre a experiência inicial da cirurgia de Exclusão Duodeno-Jejunal no doente
magro. Talvez se o desenvolvimento da cirurgia bariátrica tivesse ocorrido
dentro das universidades, não teríamos as dificuldades que ocorrem hoje. Mas
existem especialistas como os Drs. Bernardo Leo Wajchenberg, Antonio Carlos
Lerário, Alfredo Halpern, Marcos Tambascia, Bruno Geloneze, Ney Cavalcanti e
Giuseppe Reppeto que estão ajudando a aproximar as especialidades. O mais
importante é que os vários especialistas se unam, pois precisamos pensar em
prol do paciente.
Cirurgia Bariátrica: Avanços e
Perspectivas
“Reversão
do diabetes tipo 2 é
a coisa mais fantástica na
cirurgia de obesidade.”
Dr. Cid Pitombo,
pesquisador da Unicamp e
doutor em cirurgia pela Unicamp/UFRJ
Por Beth Santos
Revista da ABESO: Já se passaram mais de 50
anos desde o primeiro procedimento bariátrico, a derivação jejuno-ileal. Quais
são, atualmente, as perspectivas da cirurgia de obesidade?
Dr. Cid Pitombo: Todas as técnicas cirúrgicas
têm sido um grande laboratório de pesquisa. Cirurgiões, clínicos e
especialmente os endocrinologistas, que começaram a estudar cientificamente os
efeitos dessa cirurgia, estão ganhando um mercado muito grande de idéias.
Descobriu-se recentemente um hormônio no estômago chamado grelina, responsável
pela fome. A partir do momento que desconectamos o pequeno estômago, esse
hormônio pára de ser roduzido, e o paciente perde a fome. Existem hormônios no
final do intestino – PYY 3-36 e GLP-1 – responsáveis pela saciedade. Alguns já
eram conhecidos, outros só a partir da cirurgia da obesidade. Para quem faz
pesquisa séria, esse é um grande laboratório para tentar descobrir a cura ou
os avanços na cirurgia da obesidade, ou ainda, os hormônios que possam
melhorar a saciedade do paciente.
Revista da ABESO: Para onde aponta o futuro?
Dr. Cid Pitombo: O futuro deve demorar de 5 a
10 anos. Nos próximos 10 anos algum procedimento cirúrgico ainda será
realizado. A interação cirurgia/tratamento clínico ainda continuará por muito
tempo, depois da descoberta de algo mais revolucionário. Acho, no entanto, que
as cirurgias serão cada vez menos agressivas. Com cirurgiões que têm
experiência, o risco de complicações é muito pequeno. O problema é que há
grupos, nada estruturados, que habitualmente operam vesícula, mas se surge um
gordinho com condições financeiras, eles operam para ganhar o dinheiro do
paciente.
Revista da
ABESO: Até agora, qual é o balanço dos erros e acertos na cirurgia bariátrica?
Dr. Cid Pitombo: A cirurgia de obesidade é
muito segura quando feita por grupos de cirurgiões treinados e bem
estruturados. Vários grupos tiveram que passar pelo erro para chegar ao
acerto. Isso é inevitável. Outros erros que eu citaria são os tecnológicos. No
início, os grampeadores e as pinças não eram adequados, os grampos eram muito
curtos. Então, a incidência de complicações era maior. Mas os acertos foram
muito maiores.
Revista da ABESO: O que se descobriu até
agora sobre a melhora de doenças associadas e a reversão do diabetes Tipo 2?
Dr. Cid Pitombo: A reversão do diabetes tipo 2
é a coisa mais fantástica na cirurgia de obesidade. Foram feitos estudos de
metanálise em 22 mil pacientes e observou-se que 80 a 90% dos doentes operados
revertiam o diabetes. Hoje temos uma pequena idéia do porquê. Basicamente, a
restrição alimentar - concomitante com a produção de uma Incretina chamada GLP-1,
que vai ao pâncreas, melhora o funcionamento da célula beta, e a redução da
gordura faz a reversão do diabetes. Baseado nisso, hoje há estudos focados em
pacientes magros com diabetes.
A Unicamp, a pioneira, já está operando magros
diabéticos para reverter o quadro. Isto é
uma outra linha de pesquisa.
Revista da ABESO: Pode-se falar em cura do
diabetes através desta cirurgia?
Dr. Cid Pitombo: Resolução seria a melhor
palavra. Existem apenas alguns grupos trabalhando a sério, e a Unicamp tem o
estudo mais protocolado. Agora, é preciso muito cuidado com grupos ou
simpósios que falem sobre a cura do diabetes. Neste momento, ainda é uma
técnica experimental e, sobre estudos experimentais, no Brasil a lei faculta
que não se pode ter lucro. Temos hoje a perspectiva, no mundo, de 200 a 300
milhões de pacientes diabéticos tipo 2. Que maravilha, então, se pudermos
curar parte deste contingente. Mas não podemos pular as etapas científicas,
sob pena de virarmos marqueteiros.
Revista da ABESO: Explique um pouco sobre
sua tese de Doutorado.
Dr. Cid Pitombo: Foi um trabalho desenvolvido
na Unicamp com o objetivo de estudar mais sobre a adiponectina. Sabemos que
ela, no obeso, está muito diminuída. Porque provavelmente a gordura aumentada
tem efeito reverso, ou seja, quanto mais obeso, menos adiponectina vai ter.
Depois que o paciente é operado, os níveis de adiponectina sobem
tremendamente. Ela é extremamente útil, porque bloqueia alguns fatores
inflamatórios e doenças arterioescleróticas, como também melhora a captação da
insulina e a resistência insulínica, tanto no músculo quanto em outros órgãos.
Em nossos estudos, conseguimos provar que principalmente a perda da gordura
visceral melhora os níveis dessa proteína produzida pelo tecido adiposo,
trazendo uma melhora da função do diabetes e de outras doenças associadas.
Quando o doente reverte o diabetes após a cirurgia, a adiponectina e o GLP-1
com certeza são fatores coadjuvantes. Este trabalho acaba de ser aceito para
publicação no conceituado Journal of Endocrinology.
Revista da ABESO: O que poderia nos adiantar
sobre o tratado de cirurgia de obesidade que está lançando?
Dr. Cid Pitombo: O livro envolve muito a parte
metabólica, fisiologia e também técnicas cirúrgicas.
Convidei, com 100% de aceitação, os 60 maiores especialistas do mundo nestes
assuntos – no Brasil, Geloneze, Tambascia e Pareja, por exemplo. Além do
Scopinaro, o Mason (que criou esta cirurgia) e outros. Fui muito bem aceito
pela editora norte-americana Mc-Graw Hill, sou o editor-chefe (nenhum
cirurgião brasileiro havia conseguido) e Dr. Pareja é um dos co-editores.
Obesity Surgery é o nome. Em 2007 vai ser lançado no Brasil, na versão em
inglês.
Revista da ABESO: Você é conhecido por não
ter receio de questões polêmicas. Dentre elas, o que acha importante comentar?
Dr. Cid Pitombo: É importante deixar claro que
cirurgia de obesidade é para cirurgião, não operador. O operador executa
mecanicamente qualquer procedimento. O cirurgião consegue entender e avaliar
tanto o paciente quanto as complicações possíveis. E isto envolve interagir
com pesquisa e com os endocrinologistas, que estudam isto há muitos anos. Um
dos maiores acontecimentos da minha profissão foi conhecer o Bruno Geloneze, o
Licio Velloso, Marcos Tambascia e o José Carlos Pareja, da Unicamp, pessoas
que desenvolvem níveis de conhecimento sem hipocrisias, alardeamento de
marketing etc. |