
Prof. Dr. Bruno Geloneze
Pesquisador do Serviço de Cirurgia da Obesidade Universidade de Campinas –
UNICAMP
Prof. Dr. José Carlos Pareja
Chefe do Serviço de Cirurgia de Obesidade da UNICAMP
A epidemia mundial de sobrepeso e obesidade
afeta aproximadamente 1,7 bilhão de pessoas em todo o mundo. Nos Estados
Unidos, dois terços da população tem sobrepeso e metade é obesa. No Brasil os
números são mais modestos, mas estima-se que haja 15% de obesos. Deste total,
entre 1 e 2% da população adulta apresenta obesidade grau III ou mórbida (IMC
> 30 Kg/m²). Isto implica que, pelo menos, 1,5 milhão de pessoas no Brasil são
obesos mórbidos. Nesses pacientes a prevalência de diabetes tipo 2 é de 20 a
30%, ou seja, devemos ter no Brasil algo como 400 mil obesos mórbidos
diabéticos tipo 2. Vale a pena destacar outros dois pontos: 1) os demais
obesos mórbidos não diabéticos apresentam um alto risco de desenvolver
diabetes durante a permanência da obesidade e da resistência à insulina
relacionada a esta; 2) existe um grupo, duas vezes maior, de obesos grau II (IMC
> 35) com diabetes, cuja morbidade pode indicar a discussão da conduta
cirúrgica bariátrica nestes pacientes.
O tratamento da obesidade com terapias
comportamentais (dieta e exercícios) e com medicamentos apresenta resultados
relativamente ineficazes na manutenção do peso perdido.
Na obesidade mórbida estes resultados são ainda mais desapontadores. A partir
de 1991, várias sociedades médicas internacionais estabeleceram, como critério
de recomendação da cirurgia bariátrica, o insucesso do tratamento clínico em
pacientes com IMC > 40, ou IMC > 35, nos casos de comorbidades graves
associadas com possível reversão com o emagrecimento induzido pela cirurgia.
Alguns pontos devem ser acrescidos a esta indicação: 1) a presença de risco
cirúrgico aceitável; 2) esclarecimento do paciente quanto ao seguimento de
longo prazo, manutenção de terapias dietéticas e suplementação vitamínica
durante toda a vida; 3) realização do procedimento por cirurgião habilitado;
4) possibilidade de avaliação e seguimento com equipe multidisciplinar das
áreas clínicas (endocrinologia), nutricional e psiquiátrica (1).
Impacto Metabólico da Cirurgia Bariátrica no
Diabetes tipo 2
A melhora na prevenção, e mesmo a reversão, do
diabetes são observadas nas diversas modalidades cirúrgicas bariátricas.
Uma das primeiras grandes séries de cirurgias
em diabéticos é o estudo de Greenville (EUA), no qual 165 pacientes diabéticos
foram operados pelo bypass gástrico e 83% dos pacientes permaneceram em
remissão do diabetes em 14 anos de follow-up (2). O segundo maior estudo é o
SOS (Swedish Obesity Subjects), que compara um grupo de pacientes operados com
um grupo não operado (3). Os dados do SOS indicam uma prevalência de DM, após
2 anos de seguimento, de 8% no grupo controle e 1% no grupo operado; e, após
10 anos, 24% no grupo controle e apenas 7% no grupo operado.
Vários outros estudos demonstram remissão entre
70 e 90% dos casos, sendo evidentes as taxas menores nos pacientes usuários de
insulina por vários anos, nos quais a capacidade funcional da célula beta pode
estar muito comprometida. Por outro lado, a totalidade dos pacientes usuários
de hipoglicemiantes orais reverte o diabetes com a cirurgia.
O problema destes estudos observacionais é que
nenhum deles foi desenhado para verificar, especificamente, o efeito em
pacientes diabéticos (4).
Não existem dados sobre o impacto da cirurgia
sobre as complicações crônicas micro e macrovasculares do diabetes. Da mesma
forma, é ainda incerto se haverá um aumento da longevidade nos pacientes
operados. Novamente, o estudo SOS deverá fornecer em definitivo as respostas
para estas questões.
A cirurgia bariátrica apresenta resultados
favoráveis nos fatores de risco cardiovasculares. Há uma nítida melhora no
perfil lipídico, na hipertensão arterial, na apnéia de sono e, mesmo, na
redução da hipertrofia ventricular esquerda, e no espessamento da camada
íntima-média das carótidas após a cirurgia.
Mecanismos de Ação das
Técnicas Cirúrgicas sobre a Fisiopatologia do Diabetes

Cirurgias Restritivas
As cirurgias puramente restritivas são
representadas pela antiga gastroplastia vertical de Mason, uma técnica
praticamente abandonada no Brasil, devido ao reganho de peso, e por sua
inferioridade de resultados ponderais e metabólicos, quando comparados ao
bypass gástrico. A versão atual da técnica puramente restritiva é a banda
gástrica. O mecanismo de ação desta técnica sobre o diabetes resume-se à
redução da resistência à insulina, decorrente da perda de peso em si. Embora
existam trabalhos publicados mostrando resultados positivos sobre a remissão
do diabetes, isto não corresponde à prática encontrada no Brasil. Além disso,
existe uma tendência natural da não-divulgação/publicação dos resultados
insatisfatórios sobre a perda de peso, e inferiores na melhora das
co-morbidades. O estudo SOS demonstra perdas ponderais de 25% do peso corporal
após 10 anos do bypass gástrico, contra 13% na banda gástrica. A redução da
insulinemia é de 54 e 25%, respectivamente, mais uma vez indicando a
inferioridade das técnicas puramente restritivas (1).
Cirurgias Disabsortivas
Os procedimentos disabsortivos são eficazes na
redução do peso e na melhora da sensibilidade à insulina. O primeiro
procedimento bariátrico utilizado era a derivação jejunoileal, iniciada em
1954, e caracterizada por perdas maciças de peso, mas associada a altas taxas
de complicações, como desnutrição, litíase renal e insuficiência hepática.
Esta técnica foi abandonada. A versão atual e eficaz da técnica disabsortiva é
representada pela cirurgia de derivação bíliodigestiva, conhecida no Brasil
como cirurgia de Scopinaro, cuja perda de peso média é de 80% sobre o peso
excessivo inicial, com reversão do diabetes em pelo menos 85% dos casos. O
sucesso desta cirurgia em diabéticos é reflexo da disabsorção de lípides
(provável redução da lipotoxicidade) e intensa melhora da sensibilidade à
insulina. A comparação entre o bypass gástrico (cirurgia de Capella) e a
cirurgia de Scopinaro sobre a resistência à insulina foi feita, em conjunto,
pelo grupo de cirurgia bariátrica da Unicamp e um grupo italiano. Neste
trabalho foi demonstrado que a cirurgia de Scopinaro leva a uma melhora da
sensibilidade à insulina de forma mais intensa que a cirurgia de Capella (5).
Isto, no entanto, não confere uma superioridade à cirurgia disabsortiva, pois
as complicações crônicas, em especial a desnutrição, é mais intensa nesta
cirurgia. Além disso, as taxas de remissão do diabetes parecem ser maiores na
cirurgia de Capella.
Cirurgias “Sacietógena-Incretínicas”
A cirurgia de gastroplastia vertical com
derivação jejunoileal é vista como uma evolução da gastroplastia vertical de
Mason. Os resultados superiores foram inicialmente atribuídos à característica
restritiva da cirurgia, associada a uma disabsorção imposta pela derivação
jejuno-ileal. Além disso, vários trabalhos observacionais mostraram uma
melhora do controle glicêmico poucos dias após a cirurgia, não podendo ser
atribuído ao emagrecimento, tampouco à melhora da resistência à insulina (6).
Na verdade, a intensa redução da ingesta alimentar, acompanhada da paradoxal
redução do apetite, é atribuída à redução da produção do hormônio grelina (um
orexígeno endógeno) pela exclusão do fundo gástrico do trânsito alimentar (7).
A redução da grelina no seguimento de pacientes diabéticos foi demonstrada,
pela primeira vez pelo nosso grupo no Brasil (8). Esta redução deve ser
importante na prevenção do reganho de peso no longo prazo (9). A reversão do
diabetes deve-se a um aumento da sensibilidade à insulina, associado a uma
melhora da função de célula beta, incluindo a recuperação da primeira fase de
secreção de insulina (10). Esta recuperação deve-se a um aumento do hormônio
gastro-intestinal com ação incretínica, o glucagon like peptide 1 (GLP-1),
secundário à derivação jejuno-ileal. Assim, a cirurgia de Capella pode ser
considerada como um procedimento com resultados positivos, decorrentes da
modulação de hormônios e incretinas, e é a cirurgia padrão-ouro para o
paciente diabético obeso mórbido (figura 2).

Seleção de Pacientes
O primeiro consenso de indicação da cirurgia
bariátrica foi desenvolvido em 1986. O critério de IMC > 40 foi acrescentado
da necessidade do fornecimento de um consentimento livre e informado,
detalhando as complicações possíveis e a necessidade de um atendimento e
seguimento multidisciplinar de longo prazo. Em pacientes com IMC > 35, na
presença de co-morbidades significativas com possibilidade de melhora ou
reversão, existe uma indicação da cirurgia bariátrica. Este critério se aplica
aos pacientes com diabetes tipo 2. Uma discussão em aberto refere-se a
pacientes diabéticos tipo 2 com IMC > 32. Alguns autores advogam a indicação
cirúrgica em casos selecionados. Um argumento favorável a esta discussão é que
alguns pacientes mal controlados metabolicamente, com IMC < 35, irão atingir
estes valores ao serem mais bem controlados, por exemplo, com insulina,
passando a preencher o critério vigente. A decisão deve ser feita por
pacientes e médicos esclarecidos sobre os riscos e benefícios potenciais. Na
dúvida, o critério de seleção recomendado deve ser seguido (tabela 1).
Indicações e contra-indicações da cirurgia
bariátrica no paciente obeso diabético

Embora a cirurgia seja segura, com taxas de
mortalidade abaixo de 1% no período pré-operatório, alguns pacientes
diabéticos irão apresentar riscos adicionais atribuíveis às complicações
crônicas, micro e macrovasculares. Uma atenção especial deve ser concentrada
para a avaliação do risco cardiovascular nestes pacientes.
Conclusões e Recomendações
A obesidade deve ser considerada como uma
doença neuroquímica recidivante. Assim, o seu tratamento deve incluir
abordagens de longo prazo. A aceitação do tratamento cirúrgico do paciente
diabético depende da percepção, de médicos e pacientes, da influência da
obesidade na fisiopatologia da doença e da possibilidade de intervenção
duradoura sobre a obesidade. A cirurgia bariátrica, que promove prevenção e
reversão de longo prazo da doença, pode alterar esta percepção.
A redução de 5 a 10% do peso corporal tem sido
apontada como eficaz em melhorar o controle do diabetes ou promover uma
reversão da doença nas suas fases iniciais. No entanto, estes conhecidos dados
referem-se aos pacientes com sobrepeso ou obesidade grau I. Nos casos de
obesidade grau III e na superobesidade (IMC > 50), esta redução, embora útil,
é muito modesta para atingir os objetivos de tratamento do diabetes. Além
disso, se considerarmos o diabetes como uma doença relacionada a uma disfunção
do eixo entero-insular, a redução de peso deixa de ser o foco único, sendo
acrescida da modulação da produção prandial de insulina. Esta modulação pode
ser alcançada ao menos pela técnica de Capella.
Da parte dos pacientes, existe o medo e a
ansiedade gerados pela idéia de cirurgias chamadas de “radicais”. Da parte dos
diabetologistas, não há dúvidas de que o diabetes é uma doença crônica que
deve ser “radicalmente” tratada, a fim de evitar suas complicações crônicas.
Vários estudos indicam uma melhora geral da qualidade de vida, mesmo diante de
restrições dietéticas impostas pelas cirurgias. A reversão ou melhora do
diabetes e das alterações metabólicas associadas são acrescidas da melhora da
aparência física e das oportunidades sociais e econômicas.
Em resumo, a potencial reversão do diabetes
nestes pacientes faz com a que a cirurgia bariátrica deva ser considerada como
uma opção terapêutica em todos os pacientes diabéticos obesos mórbidos.
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