|

O professor e pesquisador carioca
Gilberto Kac, principal autor da pesquisa “Prevalência de Morbidades
Psiquiátricas Menores em Mulheres Selecionadas em um Centro de Saúde no Rio de
Janeiro”, escreveu comentário sobre seu trabalho e deu entrevista à reportagem
da Revista ABESO. Veja a seguir.
“O artigo que está sendo comentado faz parte de um
conjunto de trabalhos que publiquei nos últimos sete anos. Todos eles derivam
do primeiro projeto de pesquisa que desenvolvi no Instituto de Nutrição da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esse projeto se constituiu em uma
coorte com quatrocentos e setenta e nove mulheres acompanhadas por nove meses
pósparto, entre maio de 1999 e abril de 2001, no Município do Rio de Janeiro.
Os primeiros dados analisados foram objeto de minha Tese de Doutorado,
defendida na Faculdade de Saúde Publica da Universidade de São Paulo, em
dezembro de 2002. Nos últimos quatro anos, duas outras teses e uma dissertação
foram defendidas com base nessa pesquisa. O projeto original tinha como
objetivo estudar diversos aspectos determinantes da saúde e nutrição de
mulheres no pós-parto, pois havia identificado, à época, que esse grupo era
negligenciado no acompanhamento médico e nutricional. O artigo, recentemente
publicado em Cadernos de Saúde Pública, descreve um dos interesses da
pesquisa: estudar a relação entre saúde mental e estado nutricional. Nesse
estudo investigamos a relação entre transtornos mentais comuns (TMC) e estado
nutricional. Utilizamos um instrumento conhecido como GHQ (General Health
Questionnaire), desenvolvido para o rastreamento de TMC na clínica geral e
atenção primária. Os itens do GHQ cobrem sentimentos de tensão,
depressão, incapacidade de lidar com situações habituais, ansiedade e falta de
confiança. Observamos elevadas prevalências de TMC, sobretudo em mulheres mais
pobres e com menos escolaridade. A relação inversa entre transtorno mental e
classe econômica é um dos resultados mais consistentes dos estudos
epidemiológicos populacionais e de atenção primária no Brasil. O que nos
chamou atenção foi a relação entre obesidade no pós-parto e TMC, que ainda não
foi suficientemente estudada e merece ser aprofundada em estudos futuros”.
Gilberto Kac
Pesquisador e professor do
Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro; pesquisador
do CNPq.
Transtornos Mentais e Classe
Econômica
O pesquisador Gilberto Kac, do Rio de Janeiro,
explica que o tema central de seu trabalho – morbidades psiquiátricas menores
– são transtornos muito comuns e de difícil caracterização. “A maioria dos
indivíduos com estas morbidades apresenta queixas como tristeza, ansiedade,
fadiga, diminuição da concentração, preocupação somática, irritabilidade e
insônia.
O interesse do professor Gilberto Kac pelo assunto
vem do fato “de considerar a manutenção de uma boa saúde mental um dos
aspectos cruciais na sociedade moderna”. Ele acrescenta que se deve “levar em
conta a importância de aspectos da saúde mental e sua relação com a nutrição,
mais especificamente o estadonutricional”.
Sobre o que o levou a relacionar as morbidades
psiquiátricas menores com o estado nutricional em mulheres em idade
reprodutiva, o pesquisador disse que foi seu interesse pela epidemiologia
nutricional da saúde materno-infantil e que, até poucos anos atrás, “eram
escassos os estudos epidemiológicos com mulheres no pós-parto”. Segundo ele,
recentemente este interesse se ampliou, “a ponto de na coorte observacional de
gestantes que está atualmente em curso, estarmos estudando depressão e
ansiedade na gestação, além de depressão pós-parto”.
Os Números
A prevalência de morbidades psiquiátricas menores
no estudo, de acordo com Gilberto Kac, foi de 54,2%. “As maiores prevalências
de MPM foram observadas em mulheres pertencentes a famílias com o mais baixo
quartil de renda (65,4%); com escolaridade <4 anos (65,8%); solteiras (62,5%);
com três ou mais filhos (62,9%); e com gordura corporal medida pela
bioimpedância >= 30% (61,8%)”. Estes valores, segundo o pesquisador, são altos
quando comparados a outros estudos com amostras de indivíduos brasileiros.
Como exemplo, o realizado em Olinda, PE, “onde se observou prevalência global
de 35% para adultos de ambos os sexos com 15 anos ou mais. Ou mesmo na amostra
de adultos investigada pelo Estudo Pró-Saúde, realizado em amostra de
funcionários da UERJ, que verificou prevalências de 34,5% e 22,3% para
mulheres e homens, respectivamente”.
Prevalências
O professor Gilberto Kac ressalta que as
prevalências observadas são comparáveis, em termos de magnitude, “sobretudo às
de estudos realizados em unidades de saúde”. Os resultados também são
semelhantes, “em relação à magnitude do risco”, com os observados por Ludemir
& Melo-Filho, baseado em amostra domiciliar aleatória com 621 adultos, que
utilizou o GHQ (General Health Questionnaire) 20. Segundo os autores deste
estudo, a maior prevalência de MPM ocorreu entre indivíduos analfabetos
(49,7%) e com renda per capita menor que 0,25 salários mínimos (55,7%). Para o
pesquisador Gilberto, “a relação inversa entre transtorno mental e classe
econômica é um dos resultados mais consistentes dos estudos epidemiológicos
populacionais e de atenção primária no Brasil”. Segundo ele, a relação entre
maior risco de morbidades psiquiátricas menores e condições desfavoráveis,
como baixa escolaridade e renda, “já está relativamente bem documentada”. Por
outro lado, lembra Gilberto Kac, “a maior propensão em apresentar morbidades
psiquiátricas menores em mulheres obesas ainda não foi suficientemente
estudada, mas uma
hipótese consiste no maior potencial de consumo energético, devido ao
componente GHQ associado à ansiedade”, finaliza.
|