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Avaliação do Estado de Nutrição
de
Escolares do Município de São Paulo:
Uma experiência multidisciplinar envolvendo
professores
de educação física do ensino fundamental e médio

Resumo
Mapear desnutrição e obesidade nos jovens
brasileiros e propor políticas públicas de saúde para diminuir tal prevalência
são questões urgentes há décadas. Este estudo investigou a implantação de um
Sistema de Vigilância Nutricional de Escolares baseado na coleta e análise do
peso e estatura obtidos por professores de educação física (PEF), da rede
pública de ensino. Capacitados em 70h de curso, parceria USP e Secretaria
Municipal de Educação - SP, eles analisaram 9.720 escolares de 11 a 18 anos,
sendo 50% do sexo feminino. Observou-se que os PEFs capacitados foram
proficientes em: elaborar seu próprio projeto para implantar a Avaliação do
Estado de Nutrição dos Escolares (AENE); coletar eficazmente os dados
antropométricos de seus alunos; avaliar o
estado de nutrição deles; significar o resultado para avaliados e familiares;
sensibilizar discentes, pais e responsáveis na busca por tratamento (quando
necessário). Quanto ao estado de nutrição dos escolares, dentre os meninos,
11% apresentou desnutrição leve ou moderada e 14% algum grau de obesidade; as
meninas, 12,7% e 14,9%, respectivamente. Concluiuse que PEFs capacitados podem
efetivar uma AENE por meio do sistema educacional.
Considerações a Respeito do
Estudo AENE
Cláudia Cezar
Professora de Educação Física, Doutora em Nutrição Humana Aplicada, professora
do CEPEUSP e Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Obesidade e Exercícios
Físicos.
O estudo mostrou ser possível implantar um Sistema
de Vigilância Nutricional de Escolares, com as medidas de peso e estatura
realizadas por professores de educação física (PEF) da rede pública de ensino.
Foi possível que eles utilizassem os conceitos pertinentes a estado de
nutrição, obesidade, eutrofia e desnutrição, dentro do seu planejamento
pedagógico anual, porque é função social do professor determinar os aspectos
essenciais que seus alunos precisam refletir, a fim de que se sintam seguros
para fazer suas escolhas. Como a inteligência reside na capacidade de
dissociar idéias, neste sentido o PEF pode estimular a reflexão por parte de
seus alunos sobre os benefícios, ou não, de certos hábitos e costumes que a
sociedade apresenta. Depois de orientados pelos PEFs (que fizeram o curso AENE),
os alunos passaram a pensar e refletir antes de fazerem suas escolhas para o
tipo de alimento que costumam ingerir e o que fazer no horário livre, pois
aprenderam que estas se refletirão no corpo deles. Em uma das escolas a
professora relatou que as crianças passaram a comer as maçãs dadas no lanche
da Prefeitura, no horário do intervalo, e que antes eles as usavam para
acertarem uns aos outros.

Porém, garantir que a escola responda
adequadamente às características individuais e necessidades de todos os alunos
requer compromisso político e investimento financeiro dos poderes públicos e
privados, sendo que as Seguradoras de Saúde poderão ser particularmente
beneficiadas. Estas empresas deveriam, portanto, ser algumas das mais
interessadas em financiar este tipo de formação contínua de educadores.
Com este estudo, foi possível confirmar que
políticas públicas de saúde podem ser implementadas pela Área da Educação,
especialmente quando os conceitos são básicos e mínimos para manutenção da
saúde. A universidade, como produtora de conhecimento, tem a responsabilidade
de transmitir informações para profissionais atuantes na (e da) sociedade, que
por sua vez devem ser responsabilizados para agirem junto à comunidade,
sensibilizando cada um de seus alunos (e, estes, a seus familiares e amigos),
a responsabilizarem-se por sua condição de saúde, no que tange à escolha de
uma alimentação saudável e a um estilo de vida mais ativo. Porém, ainda há
muito a ser feito para que a AENE se efetive como um Sistema de Vigilância
Nutricional de Escolares.
Qualidade de Vida e Saúde da
População
Professora Dra. Silvia Cozzolino
Nutricionista, professora titular da FCF-USP, coordenadora do Programa de
Pós-Graduação Interunidades de Nutrição Humana Aplicada, vice-presidente da
Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.
O doutorado da Cláudia Cezar foi desenvolvido no
Programa de Pós-Graduação Interunidades de Nutrição Humana Aplicada da
Universidade de São Paulo, que tem como objetivo a formação de recursos
humanos com conhecimento em três linhas distintas da Nutrição, ou seja:
Bioquímica da Nutrição, Economia da Alimentação e Nutrição e Saúde Pública.
Este programa visa exatamente a integração destas áreas em busca de soluções
para melhor qualidade de vida e saúde de nossa população. Dentro deste
contexto, se avaliarmos na atualidade quais os principais problemas de saúde
pública, verificamos que a obesidade ocupa posição de destaque e, no Brasil,
embora ainda considerando que não atingimos os níveis epidêmicos de outros
países, já podemos observar índices que alertam para este perigo.
As conseqüências deste problema certamente
afetarão a economia do nosso país, principalmente a médio e longo prazos,
devido aos gastos com saúde advindos das complicações que derivam deste
estado. Assim, os objetivos do trabalho da Cláudia se basearam na hipótese de
que é possível atuar de forma contínua, com baixos custos, em um sistema de
vigilância nutricional permanente, por meio da atuação dos professores de
primeiro e segundo graus, da área de Educação Física, que estão habilitados
pela sua formação a realizarem medidas antropométricas, e podem, a partir de
uma orientação específica, avaliar o estado nutricional de seus alunos
utilizando um parâmetro simples como o Índice de Massa Corporal (IMC).
O IMC é o padrão mais utilizado de avaliação do
estado nutricional em estudos populacionais, embora tenha suas limitações. Os
resultados de correlação do IMC com outros obtidos por metodologias mais
sensíveis têm apresentado boa concordância, principalmente considerando que
esta população não possui o perfil de atletas, para os quais esta avaliação
não seria adequada.
Avaliando os resultados do estudo da Cláudia,
podemos concluir que a metodologia aplicada pode ser facilmente implementada;
é de baixo custo; os professores estariam habilitados para encaminhar os casos
(de desnutrição e de sobrepeso e obesidade) para os setores de saúde adequados
(postos de saúde, nutricionistas); seria possível o acompanhamento dos
estudantes ao longo dos anos de sua permanência na escola por meio de
planilhas atualizadas, o que permitiria ações mais pontuais por parte da
Escola e de acordo com suas especificidades; os professores de educação física
poderiam ser os grandes motivadores para a associação entre atividade física e
manutenção do peso corporal adequado; e, finalmente, poderiam ser criadas
disciplinas com conteúdos de alimentação saudável e nutrição, que seriam
ministradas para estas classes, visando principalmente a conscientização de
que uma alimentação adequada contribui para a saúde e longevidade, além de
melhorar a economia do país.
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