|
Aspectos Psiquiátricos do
Tratamento da Obesidade
Alexandre Pinto de Azevedo
Médico Psiquiatra do AMBESO/AMBULIM
As opções de tratamento da
obesidade incluem os tratamentos dietoterápicos, psicoterápicos,
farmacoterápicos e cirúrgicos.
A abordagem psicoterápica,
neste caso a terapia cognitivo-comportamental (TCC) , utiliza técnicas
baseadas nas teorias de aprendizagem. O tratamento deverá ser dirigido aos
aspectos de hábito alimentar e atividade física. Inicialmente, o indivíduo
obeso é avaliado quanto a sua motivação para o programa de perda de peso,
correlacionando o desejo com a real disponibilidade de engajamento em programas
que modificarão um estilo de vida provavelmente desadaptativo. Uma vez
identificados comportamentos inadequados alimentares e sedentários, faz-se a
monitorização e acompanhamento das mudanças propostas. Então, novos
comportamentos, agora adequados, substituirão comportamentos antes apreendidos
e que mantinham e facilitavam a obesidade. Na verdade, a TCC utilizada
isoladamente é pouco impactante na perda real de peso, sendo, contudo,
essencial na manutenção da perda de peso. É preciso estar atento durante o
processo psicoterápico para sentimentos de frustração e culpa do paciente,
quando os objetivos propostos não sejam alcançados. A desmotivação do
indivíduo obeso é um dos principais fatores de abandono do tratamento, muitas
vezes colaborado pela também desmotivação do profissional.
Apesar da modalidade
farmacoterapêutica parecer ser a principal escolha de tratamento da obesidade,
deverá ser apenas indicada após a falha de procedimentos não invasivos e
sempre em conjunto com estes.
A visão do tratamento muitas
vezes depende da especialidade e do referencial teórico do profissional que
está conduzindo o programa de perda de peso. Contudo, a postura atual deste
tratamento envolve inicialmente a prevenção do ganho de peso, e uma vez já
instalado, a escolha inicial de métodos não invasivos, como a combinação de
psicoterapia e dietoterapia. Com a falha destes métodos, opta-se pela
farmacoterapia, considerando os riscos inerentes a determinadas drogas
anti-obesidade.
O psiquiatra inicia a sua
avaliação, após descartar trans-tornos orgânicos sistêmicos que possam
estar determinando a obesidade, com a identificação de possíveis fatores
psíquicos geradores do ganho de peso. Patologias como Transtorno da Compulsão
Alimentar Periódica (TCAP), Síndrome do Comer Noturno e/ou Depressão
Atípica podem determinar o ganho de peso, e se não identificados e tratados adequadamente
podem levar à falha da obesidade.
As medicações anti-obesidade
clássicas de ação central atuam nos sistemas catecolaminérgicos,
serotoninérgicos ou ambos (ação combinada). São os chamados anorexígenos e
usualmente são semelhantes à anfetamina. Drogas como fenilpropanolamina,
mazindol, femproporex e anfepramona têm excelente ação anorexígena e
conseqüentemente perda de peso, e são portanto, medicamentos muitas vezes
escolhidos para um tratamento de sucesso. Contudo, com o uso prolongado, além
do risco de abuso e dependência, podem determinar sintomas e síndromes
psiquiátricas. Estes podem ser desde inquietação, irritabilidade, insônia e
ansiedade, até quadros psicóticos (reversíveis ou não com a retirada da
medicação) e trans-tornos afetivos como síndrome depressiva e episódios
maniformes. Estas alterações psiquiátricas muitas vezes são conduzidas pela
associação de outros medicamentos como benzodiazepínicos/ansiolíticos,
também com grande potencial de abuso e dependência, se inadequadamente utilizados.
O principal aspecto no uso
destas substâncias reside na questão de que a obesidade é uma doença
crônica e portanto necessita de um tratamento a longo prazo, com período de
manutenção. Deve-se ter o cuidado, portanto, na prescrição dos medicamentos
anorexígenos citados a longo prazo, diante de todos os riscos. No momento da
escolha terapêutica para obesidade, o profissional deverá estar atento a
estes diversos aspectos.
Outros medicamentos anti-obesidade, liberados
pelo FDA, parecem ser bastante
seguros do ponto de vista psiquiátrico. O orlistat, por sua ação quase que
puramente gastrointestinal, não apresenta efeitos colaterais sistêmicos.
Além disso, há a vantagem de não alterar a absorção de drogas que possam
estar sendo utilizadas concomitantemente, como medicamentos antidepressivos.
Também pode auxiliar no tratamento da reeducação alimentar por um efeito
tipo antabuse . Indivíduos em uso adequado de Orlistat serão obrigados a
evitar alimentos ricos em gorduras pelo risco de apresentarem quadro de
diarréia de difícil controle. Assim, pelo medo da perda de controle do
hábito intestinal, desenvolvem um cuidado maior durante a ingestão de
gorduras, facilitando também a perda de peso.
A
sibutramina, droga de ação central, atua inibindo a recaptura de
noradrenalina e serotonina, levando ao aumento da saciendade e à termogênese.
Efeitos colaterais psíquicos não são freqüentes, mas pode ocorrer irritabilidade e insônia. Além
disso não apresenta potencial para abuso ou dependência e detêm alguma
ação antidepressiva, embora não deva ser indicada como monoterapia no
tratamento de síndromes depressivas. Cuidados específicos devem ser tomados
em pacientes com quadros bipolares e psicóticos.
Os inibidores da recaptura
seletiva de serotonina, como fluoxetina e sertralina, parecem exercer algum
efeito sacietógeno, determinando a perda de peso. Contudo, já é claro que
após o uso continuado destas medicações, perde-se esta ação, facilitando o
ganho de peso. Nenhuma destas drogas é aprovada para tratamento de obesidade.
Contudo, são drogas usualmente utilizadas no tratamento de episódios de
compulsão alimentar, presente na TCAP e Bulimia Nervosa, patologias
determinantes no ganho de peso.
Atualmente, o anticonvulsivante
topiramato tem sido descrito por sua ação anti-compulsão alimentar, com
re-latos de casos associando seu uso à perda de peso. Na verdade, o
topiramato é utilizado em psiquiatria como estabilizador do humor, mas estudos
estão em andamento para avaliar sua eficácia no TCAP. É evidente na prática
clínica a boa resposta em pacientes com episódios de compulsão alimentar,
com redução dos binges e conseqüente perda significativa de peso.
Também não está autorizada para tratamento a obesidade.
A escolha do tratamento para
obesidade a ser instituído depende, entre outros, do grau de obesidade e da presença de comorbidades, inclusive com patologias
psiquiátricas.
Profissionais que trabalham com obesidade devem estar sempre atentos aos
efeitos psiquiátricos de medicações anti-obesidade, levando-se em
consideração a necessidade de tratamento a longo prazo. Além disso, é
necessária a adequada identificação de transtornos do comporta-mento
alimentar como agentes geradores de ganho de peso, e instituição de
tratamento específico. O TCAP, como já dito em outra parte desta
revista, deverá estar presente em aproximadamente 30% dos indivíduos obesos
que procuram tratamento e até 50% daqueles que são canditados à cirurgia
bariátrica, além de uma maior freqüência de trans-tornos afetivos, como a
depressão. Diante disso, acreditamos ser necessária uma avaliação do
estado psiquiátrico do indivíduo obeso antecedendo a prescrição de
tratamentos antiobesidade.
Abeso-12/13
 
|