Quem
é obeso?
Esta
pergunta pode ter duas interpretações. Uma delas, de caráter diagnóstico:
“qual o limite entre uma pessoa não obesa e uma pessoa obesa” e outra, de
cunho epidemiológico: “quantos obesos existem em um ou outro estrato
populacional”.
Analisarei,
por ordem, primeiro como determinar o limite entre pessoas normais e pessoas
com obesidade. Isso permitirá uma interpretação mais clara dos resultados
dos estudos populacionais.
Qual
o limite entre uma pessoa obesa e uma pessoa não obesa?
O limite entre peso normal (peso
da população associado à menor mortalidade para altura) é arbitrário,
podendo haver diferenças entre as populações estudadas. Pode-se estabelecer
basicamente dois tipos de diagnósticos (ou limites) frente a um paciente: um
diagnóstico quantitativo, que se refere à massa corpórea ou à massa de
tecido adiposo e um diagnóstico qualitativo que se refere ao padrão de
distribuição de gordura corporal, que por sua vez é um forte indicador da
presença de adiposidade visceral.
Diagnóstico
quantitativo
Índice
de massa corpórea
Na
prática clínica o cálculo do índice de massa corpórea (IMC ou BMI,
de body mass index), também
conhecido por Índice de Quetelet, que é o peso (em kg) dividido pelo quadrado
da altura (em m) é ainda o mais utilizado. O IMC tem cálculo simples e rápido,
apresentando boa correlação com a adiposidade corporal.
O
IMC, porém, apesar de ter uma acurácia razoável na determinação da presença
ou do grau de obesidade frente a inquéritos populacionais, apresenta alguns
problemas quando utilizado individualmente no consultório. O IMC não é capaz
de distingüir gordura central de gordura periférica, o IMC não distingue
massa gordurosa de massa magra, podendo superestimar o grau de obesidade em
indivíduos musculosos e mesmo edemaciados (Tabela 1). De modo geral, esses
problemas são facilmente contornados, uma vez que a inspeção e exame físico
do paciente cabalmente denotarão se o aumento de massa deve-se a hipertrofia
de musculatura ou edema. Como veremos adiante, algumas populações asiáticas
apresentam aumento de adiposidade e agregam fatores de risco cardiovasculares
mesmo na presença de IMC normal. Por isso, é necessário e prudente obter os
limites entre subnutrição, peso saudável e os diversos graus de obesidade
para cada população, particularmente frente a diferentes grupos étnicos que
podem apresentar biotipo e conformação corpórea distintos.
Índice de massa corporal percentual
Em crianças, além da variação do peso, o IMC também varia com a
altura e com a idade, não sendo a sua aplicação direta um uso satisfatório.
O cálculo do IMC percentual (%IMC), que independe da altura e da idade da
criança e se apóia em tabelas de percentis de peso e de altura é mais
adequado (Tabela 4). Uma outra abordagem simples é o uso dos gráficos que
correlacionam peso e altura por idade e que proporcionam uma visão clara e
imediata da magnitude da desproporção entre peso e altura. Se a estatura de
determinada criança encontra-se entre o percentil 50 e o percentil 75, o peso
ideal deve estar localizado entre os mesmos percentis. Pode-se, pela curva,
estimar a quantidade de peso que deve ser perdida (quando o grau de excesso de
peso é muito grande), ou mesmo estimar em quanto tempo a manutenção do peso
atual o tornará adequado para a altura (quando o excesso de peso é pequeno).
Na verdade o IMC percentual apenas expressa numericamente quão desviado está
o peso da criança na curva de peso versus altura para idade.
Bioimpedância
A princípio aplicado apenas a nível experimental, mas que vem ganhando
aceitabilidade na prática clínica, pelo desenvolvimento de aparelhos menores
e mais baratos, a impedância bioelétrica de freqüência única é altamente
precisa e de fácil utilização, permitindo avaliar com precisão a massa
adiposa e a massa de tecidos magros. A impedância bioelétrica substituiu com
vantagem o método da somatória da medida da espessura das pregas cutâneas
que possui variabilidade inter e intra-examinador inaceitáveis. Aceitam-se
como valores normais <25% de tecido adiposo para homens e <33% de tecido
adiposo para mulheres (Tabela 2).
Diagnóstico
qualitativo
Distribuição de gordura corpórea
O
uso do IMC, como vimos, ignora a distribuição de gordura corpórea.
O
excesso de gordura pode estar mais concentrado na região abdominal ou no
tronco, o que define obesidade tipo andróide. São sinônimos de adiposidade
andróide, encontrados na literatura médica, os termos obesidade superior (de upper),
central, abdominal, ou em maçã (apple).
Este tipo de distribuição de tecido adiposo é mais freqüente mas não
exclusivo no sexo masculino.
A
maior quantidade de tecido adiposo pode, porém, estar mais concentrada na região
dos quadris, o que define obesidade tipo ginóide, inferior, periférica ou
subcutânea, glúteo-femoral, ou em pera, mais freqüente nas mulheres.
A
obesidade andróide apresenta maior correlação com complicações
cardio-vasculares e metabólicas que a obesidade ginóide, que apresenta como
doenças mais associadas complicações vasculares periféricas e problemas
ortopédicos e estéticos.
Relação
cintura-quadril
O cálculo da relação cintura-quadril, definida pela divisão do maior
perímetro abdominal entre a última costela e a crista ilíaca pelo perímetro
dos quadris a nível dos trocânteres femorais com o indivíduo em decúbito
dorsal. Índices superiores que 0,8 em mulheres e 0,9 em homens definem
distribuição central de gordura e estatisticamente se correlacionam com maior
quantidade de gordura visceral ou portal medidas por métodos de imagem como
tomografia ou ressonância magnética.
Métodos de imagem
Os
primeiros métodos de imagem estudados para avaliação da quantidade de
gordura corporal abdominal visceral foram a tomografia computadorizada e a
ressonância magnética. Estes métodos podem avaliar com precisão a
quantidade de gordura corporal medida pela área de gordura a nível de L4-L5
ou por avaliação volumétrica por múltiplos cortes abdominais em tomografia
espiral. Além de extremamente oneroso para uso rotineiro na prática clínica,
há um impeditivo adicional importante, que é o fato de que aparelhos de
tomografia perdem a precisão de incremento (ou andamento) da mesa do tomógrafo
acima de determinado peso e mesmo parte dos indivíduos obesos simplesmente não
conseguem ser acomodados nos aparelhos convencionais, uma vez que a abertura do
gantry do tomógrafo pode ser um
fator limitante em pacientes muito obesos.
A
ressonância nuclear magnética, por sua vez, oferece limites físicos ainda
mais restritos, já que o desempenho do aparelho depende de uma abertura menor
do equipamento. A abertura do túnel de magneto da maioria dos equipamentos
modernos de ressonância é de 50 a 60 cm e a mesa de transporte móvel desses
aparelhos suporta um peso máximo em torno de 150 kg.
Circunferência
abdominal
Mais
recentemente, a medida isolada da circunferência da cintura tem mostrado ser
suficiente para estabelecer risco, sendo considerados os limites normais a
circunferência <95 cm para homens e <80 cm para mulheres. O risco de
existir pelo menos um fator clássico de risco coronariano aumenta
substancialmente quando a medida em homens ultrapassa 104 cm (odds
ratio: 4,6) e em mulheres ultrapassa 88 cm (odds
ratio: 2,6). Embora este estudo, mais aceito universalmente, não tenha
sido realizado com a população brasileira, o limite de circunferência
abdominal nos vários estudos varia de 95 a 105 cm. É obviamente necessário
que estes valores sejam determinados para a nossa população (Tabela 3).
Tabela 1. Classificação
da obesidade segundo o índice de massa corpórea (IMC) e risco de doença
(Organização Mundial da Saúde).
|
IMC
(kg/m2)
|
Classificação
|
Obesidade grau
|
Risco de doença
|
|
<18,5
|
Magreza
|
0
|
Elevado
|
|
18,5-24,9
|
Normal
|
0
|
Normal
|
|
25-29,9
|
Sobrepeso
|
I
|
Elevado
|
|
30-39,9
|
Obesidade
|
II
|
Muito
elevado
|
|
>40,0
|
Obesidade
grave
|
III
|
Muitíssimo
elevado
|
Tabela 2. Diagnóstico
quantitativo da obesidade.
|
Métodos mais utilizados para diagnosticar
obesidade (Quantitativo)
|
|
Tabelas
de peso x altura
|
|
Índice
de massa corpórea
|
|
Somatória
das medidas de pregas cutâneas
|
|
Impedância
bioelétrica de freqüência única
|
|
Espectroscopia
bioelétrica de freqüência múltipla*
|
|
Condutibilidade
elétrica corpórea total (Tobec)*
|
|
Absorpciometria
dual de raios x (DXA)*
|
|
Tomografia
computadorizada* e ressonância nuclear magnética*
|
|
Potássio
corpóreo total (40K)*
|
|
Água
duplamente marcada (D2O)*
|
* Métodos
de uso experimental, custo elevado e de uso limitado na prática clínica.
Tabela 3. Diagnóstico
qualitativo de obesidade.
|
Métodos mais utilizados para diagnosticar
obesidade (qualitativo)
|
|
Medida
do maior perímetro abdominal entre a última costela e a crista ilíaca
|
|
Relação
cintura-quadril
|
|
Absorpciometria
dual de raios x (DXA)*
|
|
Ultra-sonografia*
|
|
Tomografia
computadorizada e ressonância nuclear magnética*
|
* Métodos
de uso experimental e de uso limitado na prática clínica.
Tabela 4. Diagnóstico
de obesidade em crianças e adolescentes.
|
Índice de massa corpórea percentual
(%IMC)
|
|
%IMC
= (peso/altura2):(50o percentil para a idade
peso/50o percentil altura) x100%
|
>110%:
sobrepeso; >120%: obesidade
Quantos
obesos existem na população?
Estudos
epidemiológicos
Os
estudos epidemiológicos da obesidade envolvem análises da prevalência e da
tendência secular da doença em regiões e países distintos, como também a
distribuição em diferentes estratos populacionais (por idade, por sexo, por
faixa econômica ou cultural, etc.). Muitas vezes os estudos podem apontar para
fatores causais, sem arriscar-se em discutir aspectos fisiopatológicos em
profundidade, mas podendo considerar os assim chamados determinantes da doença.
Dados disponíveis atualmente apontam para dois fatores ambientais muito
provavelmente associados ao aumento da prevalência da obesidade em várias
populações: disponibilidade de uma alimentação com elevada densidade energética
(rica em gordura) e estilo de vida sedentário.
Em
populações adultas, o IMC é a medida de escolha sobre a qual a prevalência
de obesidade deve ser calculada (Tabela 1). Antes de descrever o que ocorre no
Brasil, será analisada a prevalência de alguns outros países.
Nível
de riqueza e prevalência de obesidade
A
obesidade é uma enfermidade relativamente rara (1-3%) em países extremamente
pobres (com produto nacional bruto – PNB – per
capita menor
que 400 dólares). Essas sociedades parecem estar naturalmente protegidas da
obesidade (Tabela 5). Nos demais países, com níveis maiores de riqueza, a
obesidade não guarda relação com a renda per
capita.
Nota-se que Japão e Suécia, a despeito do elevado PNB per
capita,
apresentam prevalência relativamente baixa de obesidade.
Nota-se
ainda que países com nível semelhante de riqueza, como Holanda e Inglaterra,
ou Holanda e Alemanha, apresentam prevalências bastante diversas de obesidade.
Mesmo em países com nível intermediário de riqueza, como Brasil e Rússia, a
prevalência pode mostrar-se bastante distinta, sendo cerca de duas vezes maior
na Rússia, apesar de PNB per
capita
semelhante ao do Brasil.
Em
países desenvolvidos, há uma vasta evidência de uma associação inversa
fortemente consistente entre diferentes medidas do status
sócio-econômico (incluindo renda e nível de educação) e risco de obesidade
em mulheres. Uma associação um pouco mais fraca e, algumas vezes variável
com a situação sócio-econômica caracteriza a obesidade no sexo masculino.
Os
países em desenvolvimento caracterizam-se por ambientes culturais, sociais e
econômicos em constante mudança, o que leva a padrões de determinação da
obesidade diversificados, complexos e dinâmicos, quando são avaliadas populações
distintas de regiões mais ou menos desenvolvidas ou quando analisadas as
populações rural e urbana em uma mesma região.
É
razoável esperar que em qualquer sociedade em desenvolvimento, o nível de
prosperidade material seja determinante básico de quanto alimento um indivíduo
possa obter e de quanta energia seja dispendida ao longo do dia apenas até um
certo nível de desenvolvimento econômico e tecnológico. Acima desse nível,
diferenças de renda determinam acessos distintos a várias comodidades, mas não
a alimentos do dia-a-dia e o gasto energético durante o trabalho tenderá a
valores baixos a moderados em todas as classes sociais. Nesta situação, rico
e pobre estarão igualmente expostos à obesidade.
À
medida que o desenvolvimento aumenta, o balanço energético dos indivíduos
depende cada vez menos do acesso à comida (no sentido de subsistência) e do
tipo de trabalho e cada vez mais das escolhas em relação ao tipo e à
quantidade de alimento (que por sua vez reflete a informação individual) e do
nível de atividade física fora do trabalho (por exemplo, em atividade de
lazer). Neste novo contexto, a educação (e não a renda) influenciará o
risco de obesidade.
Obesidade
e sobrepeso no Brasil e na América Latina
Níveis
modestos de riqueza, como o do nosso país, pode já mostrar-se compatível com
taxas elevadas de obesidade (Tabela 6), principalmente na população feminina,
e, como veremos adiante, em populações específicas, que apresentam um estilo
de vida, no que diz respeito a hábitos alimentares e padrões de atividade física,
semelhante ao de países desenvolvidos onde a obesidade é epidêmica. Isso é
decorrentes de algumas variáveis: mudanças na estrutura de funções empregatícias
e de alocação de tempo (que levam muitos brasileiros a um estilo de vida cada
vez mais sedentário) e profundas mudanças alimentares na última metade do século
passado (com o aumento do consumo de dietas “estilo ocidental”, ricas em
gordura).
Numa
análise dos efeitos da renda e educação em relação ao risco de obesidade,
Monteiro e colaboradores (2001) estudaram 9397 homens e mulheres de regiões
brasileiras distintas em relação a grau de educação, renda e
desenvolvimento (Sudeste e Nordeste). O risco de obesidade em homens aumentou
com o aumento da renda nas duas regiões (Nordeste: odds
ratio
ajustado: 3,38; Sudeste: o.r.
ajustado: 2,76). Ainda na população masculina estudada, o nível de educação
não influenciou o risco de obesidade no Nordeste; porém, no Sudeste, um maior
número de anos escolares levou a uma menor chance de obesidade (Nordeste: o.r.
ajustado: 1,04; Sudeste: o.r. ajustado:
0,78). Em mulheres do Nordeste, houve uma forte associação de obesidade com
renda (associação direta: o.r.
ajustado: 2,33) e educação (associação inversa: o.r.
ajustado: 0,44), enquanto que em mulheres da região Sudeste o risco de
obesidade foi menor quanto maior a renda (o.r.
ajustado: 0,78) e o nível educacional (o.r.
ajustado: 0,42).
Fazendo-se
uma análise comparativa com estudos norte-americanos que preocuparam-se com o
efeito independente da renda e educação sobre a obesidade, pode-se afirmar
que o padrão de associação entre essas variáveis e a obesidade não difere
em relação à região Sudeste do Brasil. Por sua vez, a região Nordeste
assemelha-se a padrões encontrados em inquéritos populacionais
norte-americanos de algumas décadas passadas.
Em
sociedades em transição econômica, a renda tende a ser um fator de risco
para obesidade, enquanto que a educação tende a ser um fator protetor, ambos
modificáveis pelas variáveis sexo e grau de desenvolvimento. As mulheres
apresentam uma tendência de modificação dos seus padrões alimentares e de
atividade física mais rapidamente que os homens, o que poderia facilmente ser
explicado pelas preocupações com o controle de peso e pelos padrões físicos
de beleza propagados em nossos dias.
Uma
análise de dados nacionais coletados nos anos 90 em inquéritos populacionais
de saúde em mulheres em idade reprodutiva na América Latina e Caribe revelou
uma associação inversa entre nível educacional e obesidade em cinco de nove
países estudados (Brasil, Colômbia, República Dominicana, Honduras e México).
Em apenas dois países, que ainda provavelmente se encontram em estágios mais
precoces de desenvolvimento e transição econômica (Guatemala e Haiti) a
educação formal está associada positivamente a obesidade.
Tabela
5. Prevalência
de obesidade em países pobres, ricos e com nível intermediário de riqueza.
|
País
|
PNB
per capita (dólares)
|
Ano
do estudo
|
Prevalência
(%)
|
|
Homens
|
Mulheres
|
|
Países
pobres
|
|
Tanzânia
|
100
|
1989
|
0,6
|
3,6
|
|
Índia
|
330
|
1990
|
-
|
0,5
|
|
China
|
370
|
1992
|
1,2
|
1,6
|
|
Países
com nível intermediário de riqueza
|
|
Brasil
|
2940
|
1989
|
5,9
|
13,3
|
|
Rússia
|
3220
|
1996
|
10,8
|
27,9
|
|
Arábia
Saudita
|
7820
|
1996
|
17,8
|
26,6
|
|
Países
ricos
|
|
Inglaterra
|
16550
|
1995
|
15
|
16,5
|
|
Holanda
|
18780
|
1995
|
8,4
|
8,3
|
|
Estados
Unidos
|
22240
|
1991
|
19,7
|
24,7
|
|
Alemanha
|
23650
|
1990
|
17,2
|
19,3
|
|
Suécia
|
25110
|
1989
|
5,3
|
6
|
|
Japão
|
26930
|
1993
|
1,7
|
2,7
|
Tabela
6.
Prevalência (%) de sobrepeso e obesidade no Brasil em subpopulações de vários
inquéritos.
|
Sexo
(idade - anos)
|
1975
|
1989
|
1996
|
|
Sobrepeso
|
|
Masculino
(2-3)
|
3,1
|
2,4
|
3,0
|
|
Masculino
(4-5)
|
3,9
|
2,6
|
3,2
|
|
Feminino
(2-3)
|
2,6
|
3,1
|
1,9
|
|
Feminino
(4-5)
|
3,6
|
5,0
|
7,6
|
|
Masculino
(10-19)
|
-
|
4,8
|
-
|
|
Feminino
(10-19)
|
-
|
10,6
|
-
|
|
Feminino
(20-49)*
|
23
|
31,6
|
36,8
|
|
Obesidade
|
|
Masculino
(25-64)
|
3,1
|
5,9
|
-
|
|
Feminino
(25-64)
|
8,2
|
13,3
|
-
|
|
Feminino
(20-49)*
|
5,3
|
7,5
|
10,2
|
*
Mulheres com pelo menos um filho menor que 5 anos.
Nota-se, analisando a Tabela 6, que a população brasileira feminina
apresenta risco maior de obesidade e que a prevalência já se mostra crescente
a partir da idade de 4-5 anos. Na análise de adolescentes brasileiros da
Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (1989), além da prevalência duas
vezes maior de sobrepeso nas meninas, foram observadas outras variáveis que
conferiram risco maior de obesidade em subpopulações. Desse modo, renda
domiciliar e grau de escolaridade mais elevados conferiram risco de excesso de
peso respectivamente 3,27 e 3,29 vezes
maior em meninos e 2,12 e 1,09 vezes maior em meninas. O risco de sobrepeso em
adolescentes das regiões Sul e Sudeste foi cerca de duas vezes maior que em
adolescentes da região Nordeste.
Obesidade
em populações específicas
Centros
urbanos. Análises
que levam em conta a renda familiar duas vezes maior que a média brasileira
mostram proporções semelhantes às de países desenvolvidos.
Em
áreas urbanas brasileiras, no período 1989-1997, o aumento da prevalência da
obesidade foi maior nos estratos populacionais mais pobres.
Um
trabalho que analisou a presença de sobrepeso e obesidade em 1041 indivíduos
de 20 a 88 anos, divididos em quatro grupamentos sociais na Área Metropolitana
de São Paulo em 1990/1991, revelou uma prevalência de 12% a 62% em mulheres e
de 30% a 51% em homens. A prevalência de obesidade na população estudada foi
9,8%, apresentando variações entre as faixas etárias: de 5,5% entre 20 e 39
anos até 21,3% entre 50 e 59 anos. O trabalho adotou critérios de estratificação
sócio-econômica, procurando representar populações homogêneas dentro de
cada área de estudo, desde sub-empregados sem conhecimento de ofício até
empresários ou comerciantes proprietários.
Outros
levantamentos apontam para prevalências elevadas de sobrepeso em subpopulações
urbanas. Um estudo realizado na cidade de Campinas (SP) em 873 indivíduos
adultos de 20 a 82 anos, mostrou uma prevalência de sobrepeso de 44%.
Aproximadamente metade dos indivíduos acima de 44 anos
(51% dos homens e 50% das mulheres) apresentavam excesso de peso.
Um
estudo seccional que analisou o perfil antropométrico de funcionários do
Banco do Brasil no Estado do Rio de Janeiro, uma categoria profissional com
renda familiar e de escolaridade acima da média brasileira, mas que
assemelha-se em condições de trabalho e de vida a um segmento expressivo da
população brasileira, mostrou uma prevalência de excesso de peso de 34,2%
(Tabela 7). As principais causas de morte nessa população são as doenças
cardiovasculares, que respondem por 38% do total de óbitos.
Tabela
7. Distribuição
da freqüência (%) de sobrepeso segundo sexo e idade em 647 funcionários do
Banco do Brasil do Estado do Rio de Janeiro (1994).
|
Idade
(anos)
|
Masculino
|
Feminino
|
|
PNSN,
1989
|
BB,
1994
|
PNSN,
1989
|
BB,
1994
|
|
18-34
|
22,8
|
34,1
|
27,4
|
15,2
|
|
35-44
|
39,1
|
48,9
|
48,8
|
21,4
|
|
45-64
|
42,6
|
55,9
|
60,2
|
31,8
|
Percebe-se que, nesta população urbana, o excesso de peso aumentou com
a idade e foi aproximadamente 3 vezes maior em homens do que em mulheres.
Quando estes dados são comparados ao inquérito populacional da PNSN (1989),
nota-se que a freqüência de sobrepeso foi muito maior entre os bancários do
sexo masculino, enquanto que freqüências mais elevadas de sobrepeso foram
estimadas pela PNSN. Estas diferenças podem estar refletindo uma maior
preocupação do sexo feminino com a estética corporal ou fatores
comportamentais como padrão de consumo alimentar, prática de atividade física
e consumo de bebidas alcoólicas.
 
|