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Revista da ABESO » Edição nº 37 - Ano VIII - Nº 37 - Dez/2008 » Estudo sobre obesidade mórbida, produzido na UNB, mostra dados inéditos

   

REPORTAGEM DE PAULA CAMILA RODRIGUES

Nos últimos anos, vem sendo constatado o aumento da obesidade em todo o mundo. No entanto, ainda há poucos estudos que abordem, por exemplo, a quantidade de obesos mórbidos em cada país. A pesquisa da Dra. Isabella Vasconcellos de Oliveira é uma dessas exceções. Ela fez sua dissertação de mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) sobre esse tema, orientada pela Dra. Leonor Maria Pacheco Santos, pesquisadora colaboradora da Faculdade de Ciências da Saúde (FS) da UnB.

O resumo do estudo foi publicado recentemente pela revista Obesity Surgery sob o título Trends in Morbid Obesity and in Bariatric Surgeries Covered by the Brazilian Health System. “É a única especializada em cirurgia bariátrica e no Brasil não existe uma revista que enfoque esse assunto”, explica Leonor, doutora em Patologia pela Universidade do Tennessee (EUA), com pós-doutorado em Epidemiologia na Universidade de Londres.

De acordo com a pesquisa, são mais de 609 mil brasileiros com obesidade mórbida. Os resultados foram gerados a partir de bancos de dados de três inquéritos nacionais realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Todos eles incluem medidas antropométricas: a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2002/2003, a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989 e o Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef ) de 1974/1975.

Quando os dados foram comparados, concluiu-se que o Nordeste apresentou o maior crescimento relativo (760%) entre os períodos de 1974 e 2003. Já o Sul teve o menor aumento (120%). Apesar de o crescimento ter sido maior no Nordeste, a região apresenta o menor índice nacional, de 0,43%. O maior percentual de cidadãos portadores de obesidade mórbida é o da região Sudeste, com 0,77%.

Há dois dados que são comuns a todas as regiões: a ocorrência mais freqüente entre a população de baixa renda e a alta incidência entre as mulheres, com média nacional de 0,95%. Nos homens, a porcentagem é de 0,32%.

Aumento no Número de Obesos

A pesquisadora Leonor Santos considera que uma das grandes contribuições do estudo foi quantificar pela primeira vez a obesidade mórbida no Brasil. “Até então não se conhecia o número oficial de obesos mórbidos, a sua distribuição e as tendências, ou seja, com que rapidez vem aumentando, onde, em qual sexo, etc. Esta pesquisa partiu de bancos de dados oficiais do IBGE, que foram novamente analisados para obter as estimativas de obesidade mórbida”, explica.

Segundo Dra. Leonor Santos, o aumento da obesidade no Brasil segue a tendência mundial. “São poucos os países que conhecem as suas taxas de obesidade mórbida. No Brasil, este estudo mostrou que 0,6% da população apresentava obesidade mórbida em 2003, comparado com 5% nos EUA e 2% na Inglaterra. Assim, é urgente adotar medidas preventivas para evitar que se alcance o patamar da população americana”, alerta.

A pesquisadora diz que não se pode determinar com precisão o motivo de o padrão de alimentação brasileiro ter mudado, pois exigiria uma pesquisa aprofundada, que nunca foi realizada e que seria de difícil execução. Algumas hipóteses poderiam ser consideradas, como: mudança no estilo de vida, diminuindo o tempo disponível para o preparo e para o consumo das refeições (introdução de lanches rápidos, frituras e refrigerantes); maior disponibilidade de alimentos industrializados com alto teor de gorduras; menor consumo de frutas e verduras frescas; modismos; propaganda; globalização, etc.

No Brasil, a Região Sudeste, melhor exemplo das mudanças de estilo de vida, apresenta as maiores taxas de obesidade. Já a região Nordeste apresentava uma taxa muito elevada de desnutrição na primeira pesquisa realizada (1974-75), enquanto a obesidade mórbida quase não existia na região naquela época. No entanto, nessas três décadas ocorreram mudanças no estilo de vida da população, levando à “transição nutricional”, com redução da desnutrição e aumento da obesidade. “Apesar de apresentar a maior taxa de aumento, em 2003 essa região ainda representava a menor proporção de obesos mórbidos do Brasil”, ressalta Dra. Leonor.

A Dra. Isabella Oliveira comenta que os países subdesenvolvidos vêm enfrentando problemas com obesidade porque os padrões nutricionais sofreram alterações, como resultado de mudanças na dieta. ”O século XX foi marcado por uma dieta rica em gorduras (principalmente as de origem animal), açúcar e alimentos refinados, mas reduzida em carboidratos complexos e fibras. Segundo pesquisadores, o predomínio desta dieta tem contribuído para o aumento da obesidade, paralelo ao declínio progressivo da atividade física”, enumera.

Cirurgia Bariátrica como Tratamento de Obesidade

A Dra. Leonor explica que nem sempre a terapia com dieta funciona no longo prazo. “Estudos demonstram que é muito difícil a manutenção da perda de peso. Ou seja, é mais fácil perder do que manter. Não se pode simplesmente culpar o paciente que porventura não consiga vencer a luta contra a obesidade, o que requer uma mudança de hábitos e uma atitude de vigilância constante”, destaca.

No entanto, a obesidade pode ser evitada e isso gera benefícios tanto para o próprio paciente, quanto para a saúde pública. Segundo Dra. Leonor, algumas medidas preventivas são: orientação para o aleitamento materno exclusivo até os seis meses; alimentação adequada no desmame; educação alimentar na idade escolar e regulamentação dos alimentos oferecidos nas cantinas escolares; incentivo a atividades físicas e alimentação adequada do adolescente; e conscientização do consumidor para a melhor compreensão das informações nutricionais.

A razão para que não existam muitos estudos remete às diversas dificuldades de realização, por fatores como: longo tempo, custos elevados, seguimento dos pacientes, falta de evidências a curto prazo. A Dra. Isabella Oliveira cita o estudo mais longo sobre resultados da cirurgia - o Swedish Obese Subjects (SOS). Esta pesquisa longitudinal que já dura 14 anos e compara um grupo de pacientes operados a um grupo controle não operado, considerando 18 variáveis, dentre as quais, idade, sexo, altura e média de perda de peso. “Este estudo, além de ser o mais longo, é considerado como uma evidência conclusiva de que o tratamento cirúrgico é superior ao tratamento clínico para os pacientes inscritos (adultos de meia idade com IMC de cerca de 41 kg/m²)”, explica.

Ela diz que o SUS está consciente da importância da prevenção e do tratamento da obesidade. Desde 1999, a cirurgia bariátrica está inserida na tabela de procedimentos do SUS, quando foi instituída a rede de atendimento ao paciente portador de obesidade mórbida, com a criação dos Centros Nacionais de Referência para Cirurgia Bariátrica/Gastroplastia. Em 2007, o SUS lançou novas Portarias: - Portaria SAS n° 492: Define unidade de assistência de alta complexidade ao paciente portador de obesidade grave como o hospital que ofereça assistência  diagnóstica e terapêutica especializada, de média e alta complexidade, condições técnicas, instalações físicas, equipamentos e recursos humanos adequados ao atendimento às pessoas portadoras de obesidade grave.

• Portaria GM n° 1569, de 02 de julho de 2007: Institui diretrizes para a atenção à saúde, com vistas à prevenção da obesidade e assistência ao obeso a serem implantadas em todas as unidades federadas.

• Portaria GM n° 1570, de 25 de julho de 2007: Determina que a Secretaria de Atenção à Saúde, isoladamente ou em conjunto com outras Secretarias do Ministério da Saúde, adote todas as providências necessárias à organização da assistência ao portador de obesidade grave.

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