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Saúde Mental

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Ser obeso significa necessariamente ser depressivo ou ter algumacompulsão pela comida? E a cirurgia da obesidade seria capaz de acabar com osproblemas emocionais do paciente?

Estes dilemas foram abordados pelo painel Saúde Mental e Obesidade,realizado durante o XV Congresso de Obesidade de Síndrome Metabólica, realizadopela Abeso entre 30 de maio e 1º de junho, em Curitiba (PR).


Para o psiquiatra Arthur Kaufman, em geral os obesos possuempersonalidade negativa, poucas noções alimentares e só conhecem dietasrestritivas para perder peso de maneira cíclica.

“Ser gordo pode significar o cultivo do símbolo visual dos fracassosfísicos e psicológicos do paciente. Isso não é uma regra, mas é facilmenteidentificado em pacientes que lutam contra a balança”, resumiu o especialista.Segundo ele, é preciso propor um tratamento integral ao indivíduo, no qual aatividade física possui efeito antidepressivo. “Fazer um diário de recordatórioalimentar pode ser eficaz também. No qual o paciente registra o dia, o que comeu,a hora, se estava sozinho ou acompanhado, como se sentiu quando estava comendodeterminado alimento, o que o leva a comer ou beber, e o que pensa enquantocome e bebe”, explica o psiquiatra, que é membro da Abeso. A psicoterapia,segundo ele, também pode ser uma forma de encontrar um novo estilo de vida,tendo em vista as inúmeras implicações emocionais que giram em torno daobesidade.

Inúmeros obesos apostam suas fichas na cirurgia bariátrica para a curade seus males. Acreditam que a obesidade é seu maior problema, e que a cirurgiaserá eficaz no emagrecimento. Para a doutora em endocrinologia e metabologiapela FMUSP e membro da Abeso, Claudia Cozer, existe um grande conflito naliteratura médica a respeito dos resultados da cirurgia bariátrica. Claudia,que também é coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtorno Alimentar doHospital Sírio Libanês, afirmou que os pacientes possuem um “fenótipo” muitodiversificado e que, portanto, o resultado não é o mesmo para todos.

“É preciso levar em conta diagnósticos de compulsão, por exemplo, depreferência antes da cirurgia. Quando falamos em compulsão, precisamosclassificar. É muito difícil no pós-operatório saber se o paciente continuacompulsivo, porque ele não consegue mais comer como antes. Os critérios setornam diferentes, e alguns pacientes se tornam o que chamamos de´beliscadores´”, afirmou.

Segundo ela, cerca de 30% dos pacientes obesos mórbidos apresentamcompulsão. Após a cirurgia bariátrica, entre 30 e 50% continuam apresentandoompulsão, o que contribui para a falha na perda de peso.

Também é comum, segundo ela, que os pacientes desviem sua antigacompulsão por comida  para a bebida, ou para o consumo de analgésicos epsicotrópicos. “Sabe-se, por exemplo, que obesos, assim como dependentesquímicos, possuem falha no receptor de dopamina no cérebro”, afirmou a médica.Esses pacientes buscam na comida o aumento da sensação dopaminérgica, conhecidona literatura como “circuito de recompensa”. Pessoas que possuem umpolimorfismo nos genes responsáveis por este circuito não conseguem equilibrara sensação da dopamina, ficando com o circuito cego. “Por isso, a obesidadepode funcionar como um fator de proteção para outras dependências. Há pacientesque emagreceram com a cirurgia, e passaram a beber”, resumiu.

Segundo Claudia, a comida é muito mais acessível e aceitável nasociedade. Uma vez que a pessoa se priva de comer, vai buscar outrassubstâncias, até mesmo ilícitas.

O psiquiatra Adriano Segall concordou com a colega, afirmando que ostranstornos de humor são muito comuns em grupos de obesidade. “Além disso, aobesidade está associada a depressão em homens e mulheres”.

“Estamos no começo do caminho mais científico sobre a obesidade, ecomeçando a estabelecer relações entre a obesidade e os transtornospsiquiátricos”, disse.

Segall ainda afirmou que a última edição do Manual Diagnóstico eEstatístico das Doenças Mentais, lançada recentemente, traz um novo transtorno,chamado Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP). “E sabe-se que 25 a30% dos pacientes obesos apresentam o TCAP”. Mais ainda: cerca de 60% dospacientes obesos sofrem de algum distúrbio psiquiátrico.

Nesses pacientes, o tratamento da obesidade pode ser um complicador, jáque todos os principais agentes efetivos para tratar doenças psiquiátricaslevam ao aumento de peso, segundo Segall. “Por isso a cirurgia bariátrica temsido associada a melhora dos transtornos, mas não dá para generalizar”.

Texto: Aline Moura, especial para o site da Abeso (cobertura do CBOSM 2013).

 

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