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Reduzir porções e proibir refil de refrigerantes pode ser um bom caminho no combate à obesidade?

Reduzir porções e proibir refil de refrigerantes pode ser um bom caminho no combate à obesidade?

 

Nas últimas seis décadas as porções médias oferecidas em restaurantes e lanchonetes dobraram de tamanho. De refrigerantes, a quantidade servida quadruplicou. Qual o impacto sobre a obesidade? Quais medidas relacionadas ao consumo os países têm adotado para barrar o crescimento da obesidade? 

Por Luciana Oncken

O ministro da Saúde, Ricardo Barros, gerou polêmica ao anunciar que pretende fazer um acordo com restaurantes e lanchonetes para suspender a venda de refrigerantes em sistema de refil. O Brasil não seria o único país a seguir por este caminho. Em janeiro, a França proibiu máquinas de refil de refrigerante em estabelecimentos de alimentação. Lá, a regra inclui refrigerantes e isotônicos adoçados com adição de açúcar ou de edulcorantes. Outro país a entrar na guerra contra o consumo de bebidas açucaradas foi o México, em 2010, com a adoção de um imposto de 10% sobre esses produtos. O resultado foi que, em um ano, houve uma redução de 6% no consumo. No Chile, as bebidas dessa categoria trazem rótulos pretos, para deixar claro o risco do consumo em excesso. A Colômbia tem enfrentado grande resistência da indústria para aplicar o imposto sobre bebidas açucaradas. Até mesmo um vídeo educativo sobre os malefícios do consumo exagerado deste tipo de bebida, veiculado na TV, produzido Associação Educar Consumidores, com o apoio de Bloomberg Philanthropies, dos EUA, foi proibido de ser veiculado depois de uma ação na justiça do gigante local na área de refrigerantes. Nova York, em 2012, tentou restringir a venda de refrigerantes a copos de no máximo 500 ml. A medida do então prefeito Michael Bloomberg também gerou polêmica, e acabou derrubada na Justiça em 2013. Isso não desencorajou outras cidades americanas a seguirem pelo mesmo caminho.

A medida de taxar bebidas adoçadas com açúcar é orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em um relatório publicado em 2016, afirma que um imposto de 20% ou mais resulta em uma queda nas vendas e consumo de bebidas açucaradas. Uma forma de fazer com que as pessoas consumam menos açúcares livres, como frutose e glicose, ingiram menos calorias e reduzam o risco de cárie dentária. A OMS alerta que o consumo de açúcares livres, incluindo produtos como bebidas açucaradas, é um fator importante para o aumento global de pessoas com obesidade e diabetes tipo 2.

"A obesidade é um dos principais contribuintes para diabetes, doenças cardíacas e outros problemas de saúde evitáveis ​​que matam milhões de pessoas todos os anos - e o problema está ficando pior, especialmente entre as crianças e nos países em desenvolvimento. Políticas inteligentes podem ajudar a virar a maré sobre esta epidemia mortal, especialmente as destinadas a reduzir o consumo de bebidas açucaradas, que estão abastecendo as taxas de obesidade” Michael Bloomberg, fundador da Bloomberg Philanthropies, e agora embaixador global da OMS para doenças não transmissíveis., em documento divulgado pelo órgão em 2016.

A orientação do órgão é restringir a um máximo de 10% das nossas necessidades energéticas, de preferência de 5%, o consumo de açúcares livres. Esse conselho levou países como Reino Unido, Filipinas e África do Sul a estudarem a adoção de medidas semelhantes a do México.

Segundo a OMS, a mudança de hábitos também deve ser incentivada por programas focados na mudanças de estilo de vida, por meio de campanhas educativas e redução de carga tributária sobre alimentos saudáveis in natura, como frutas, vegetais e legumes. A sugestão do Organização é que os governos até mesmo subsidiem os preços de frutas e vegetais frescos em 10 a 30%. No Brasil, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) apoia esta linha de conduta para incentivar a mudança de hábitos. 

Consumo e obesidade

No último Vigitel - Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, de 2016, publicado este ano, o consumo de refrigerantes em cinco ou mais dias da semana foi de 16,5%, sendo mais alto entre homens (19,6%).O estudo apontou que o consumo diminui com a idade, e vale lembrar que o levantamento telefônico do governo não considera o consumo de pessoas de 17 anos para baixo, o grande alvo deste tipo de bebida. Interessante notar que, se comparado ao primeiro Vigitel (2007) que considerou o consumo de refrigerante, houve uma redução de quase 50% no consumo nos últimos nove anos. Os EUA, por exemplo, também apresentaram queda na ingestão de refrigerantes, mas um aumento significativo no consumo de isotônicos e bebidas energéticas açucaradas, não consideradas pelo Vigitel no Brasil. Na dieta americana, as bebidas açucaradas são a principal fonte de açúcar adicionado. 

“Vários estudos documentam as associações entre ingestão de refrigerantes e bebidas açucaradas e ganho de peso em adultos e em crianças. Um estudo mostrou um aumento do risco de incidência de diabetes melito tipo 2 de 26% em indivíduos que consumiam uma maior quantidade de bebidas adoçadas, quando comparados com aqueles que tinham a menor ingestão”, Maria Edna de Melo, presidente da Abeso, endocrinologista. 

Um levantamento feito nos EUA, comparando dados de ingestão calórica média de bebidas açucaradas de 1988 a 1994 e de 1999-2004 mostra um aumento na ingestão média de 157 kcal para 203 kcal entre adultos; e de 204 kcal para 223 kcal entre crianças de 2 a 19 anos. Mais recentemente, como já mencionado acima, considerando dados comparativos de 1999-2000 e 2007-2008, houve uma redução no consumo específico de refrigerantes, mas um aumento considerável na ingestão de isotônicos e energéticos adoçados com açúcar. 

Reduzir porções pode trazer benefícios

Um comparativo entre as porções oferecidas na década de 1950 e hoje mostra que as porções médias dobraram de tamanho, principalmente nos EUA. Em fast foods o problema é mais grave: as porcões de batata frita e hamburgueres triplicaram. E o consumo de refrigerante quadruplicou. Oferecidas a preços atrativos, as porções gigantes e as bebidas em sistema de refil incentivam o consumo cada vez maior. Muitos estudos comprovam esta relação. 

Seja pela adoção de medidas educativas e de sensibilização do público, seja pela adoção de impostos, ou medidas restritivas, o fato é que reduzir porções oferecidas em restaurantes, lanchonetes e mesmo em casa têm resultado comprovado na redução da ingesta calórica. Um dos mais abrangentes estudos de revisão sobre o tema foi publicado em uma das mais conceituadas publicações científicas, o British Medical Journal (BMJ), em 2015. Os pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, se debruçaram sobre 62 estudos na área e descobriram que as pessoas consomem mais bebidas ou alimentos quando as porções e pacotes oferecidos são maiores, e vale também para peças de louça, em casa. E aqui entra a medida controversa que o Brasil quer adotar: suspender a oferta de refil de refrigerante em restaurantes e lanchonetes.

“A interrupção da prática do abastecimento de refis de refrigerantes tende a desestimular parte do consumo excessivo e trazer benefícios à saúde”, considera a presidente da Abeso, Maria Edna de Melo.

Segundo o estudo, caso eliminássemos totalmente as porções grandes , o consumo diário de calorias seria reduzido entre 12% e 16% no Reino Unido; e entre 22% e 29% nos EUA.

O mesmo estudo aponta algumas estratégias que poderiam ser adotadas, visando a redução do consumo excessivo de calorias, incentivado pelas grandes poções, para barrar o crescimento da obesidade, entre elas: reduzir o tamanho das porções de comidas e bebidas com quantidades elevadas de calorias (frituras, bolos, itens de confeitaria); reduzir a disponibilidade de grandes porções e pacotes; deixar porções maiores em locais menos acessíveis nos estabelecimentos comerciais; restringir práticas comerciais que permitem que porções maiores custem menos, em termos relativos, do que porções menores, além de restringir promoções de pacotes grandes e porções maiores; trabalhar porções menores em anúncios; produzir utensílios domésticos que permitam o oferecimento de porções menores.

Como podemos ver, não há apenas um caminho para a adoção de práticas que incentivem mudanças de comportamento. Um caminho, inclusive, é a autorregulamentação. Em junho do ano passado, os maiores fabricantes de refrigerantes e bebidas adoçadas com açúcar, a Coca-Cola, a Ambev e a Pepsico, anunciaram que não vão mais fornecer refrigerantes e sucos com adição de açúcar para crianças de até 12 anos em cantinas escolares. Além disso, as empresas se comprometeram a fornecer para as cantinas escolares apenas água mineral, sucos com 100% de fruta, água de coco e bebidas lácteas.

Em comunicado oficial, as fabricantes reconhecem que crianças nessa faixa etária não têm ainda maturidade suficiente para tomar decisões de consumo. 

“O novo portfólio tem como referência diretrizes de associações internacionais de bebidas. Novos produtos lançados pelas empresas poderão ser incluídos, no futuro, seguindo essas referências”, informam.

"As crianças passam boa parte de seu dia na escola, e o alto consumo de bebidas açucaradas está associada ao aumento da obesidade infantil”, alerta a diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Cintia Cercato. 

Para a entidade, medidas como essa certamente terão impacto na redução do consumo desses produtos. 

A medida vale para as cantinas que compram direto dos fabricantes e de seus distribuidores. Para as que compram em supermercados e outros pontos de venda, as fabricantes pretendem trabalhar a conscientização para que sigam a mesma política.

Impactos na saúde e na economia

Levantamento feito em 195 países, realizado pela Universidade de Washington, nos EUA, e publicado esta semana na versão on-line do New England Journal of Medicine, mostra que 30% da população mundial está acima do peso. A obesidade já atinge uma 1 em cada 10 pessoas no mundo, está crescendo em países ricos e pobres. Os pesquisadores estimaram mais de 107 milhões de crianças e 603 milhões de adultos são obesos. O que mais assusta é seu rápido crescimento entre crianças em muitos países. Para se ter uma ideia, na China, na Indonésia e, inclusive no Brasil, este número triplicou nos últimos 30 anos, de acordo com o estudo. O resultado pode ser desastroso, já que serão adultos mais predispostos a desenvolver problemas como diabetes, doenças cardíacas e uma variedade de tipos de câncer.

Algumas das descobertas do estudo colocam todos em alerta. A taxa de obesidade dobrou em 73 países entre 1980 e 2015. Em todo o mundo, cerca de 5% das crianças e 12% dos adultos apresentavam obesidade em 2015. Nos EUA, cerca de 17% das crianças e 38% dos adultos têm obesidade. Entre os 20 maiores países, os Estados Unidos apresentaram o maior nível de obesidade entre crianças e adultos jovens. O Egito teve a maior taxa de adultos obesos. Os Estados Unidos tiveram o maior número de adultos obesos em 2015, com 79 milhões. A China chegou em segundo lugar com 57 milhões de adultos obesos - lembrando que a China tem mais de quatro vezes a população dos EUA. A China teve o maior número de crianças obesas, com 15 milhões, a Índia não ficou muito atrás, com 14 milhões. Globalmente, cerca de 4 milhões de mortes foram atribuídas ao excesso de peso ou à obesidade em 2014, por causas como doença cardíaca, diabetes, entre outros.

No Brasil, segundo o Vigitel, o excesso de peso (IMC acima de 25 kg/m2) já atinge 53,8%, um percentual quase 20% maior do que a média de 2006, quando foi realizado o primeiro levantamento. Na faixa de obesidade (IMC acima de 30), a frequência foi de 19%, um aumento de 9% em 10 anos. Nos levantamentos, em ambos os sexos, a frequência aumenta em duas vezes da faixa de 18 a 24 anos para a faixa de 25 a 34 anos. E diminui com o aumento da escolaridade. 

A obesidade, no Brasil, custa 2,4% do Produto Interno Bruto, o que equivale a 110 bilhões de reais, segundo estudo da McKinsey Global Institute, que traz os gastos do combate à obesidade no mundo. Globalmente, 2,8% de todas as riquezas são gastas no enfrentamento da obesidade, cerca de R$ 5,2 trilhões. 

Como estratégias para conter os gastos com a obesidade, trabalhando a prevenção e o tratamento, o estudo sugere a adoção de taxas e impostos sobre alimentos ricos em gordura e açúcar, e/ou campanhas de saúde pública. Também sugere intervenções em locais de trabalho, com adoção de controle de peso e exercício físico. O relatório pede, ainda, o que chamam de estratégia de escalada, envolvendo os diversos setores da sociedade, tanto no âmbito público quanto privado, para conter uma realidade que está atingindo proporções de crise.

"Sabemos que a obesidade é uma doença multifatorial, mas não podemos desconsiderar o crescimento da obesidade nos últimos anos acompanhando as mudanças no estilo de vida: aumento no consumo de alimentos com excesso de gordura saturadas e trans, sódio e açúcares livres, somados ao aumento da inatividade física e tempo de tela. É evidente que precisamos de um esforço conjunto, de toda a sociedade, poder público e privado, para enfrentar essa crise", considera a presidente da Abeso, Maria Edna de Melo.

*reportagem Banca de Conteúdo, Luciana Oncken, texto pode ser reproduzido citando o autor e fonte

**atualizada às 22h25, 15/06

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