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Obesidade e genética são temas de debate em Congresso internacional

Obesidade e genética são temas de debate em Congresso internacional

 

No último dia 20 de outubro, no Orange County Convention Center, em Orlando, nos Estados Unidos, participantes do ASHG 2017, o congresso anual da Sociedade Americana de Genética Humana, assistiram à apresentação do Dr. Andrew Wood, da University of Exeter Medical School, no Reino Unido. O especialista em genética estatística apresentou seu estudo, denominado Gene x environment interactions in the UK Biobank study: Evidence that both physical inactivity and sleep inefficiency accentuate the genetic risk of obesity.

No estudo, foi testada a hipótese de que níveis mais baixos de atividade física e padrões de sono inadequados acentuam a suscetibilidade genética à obesidade. Para isso, foram utilizadas informações de 103 mil dos indivíduos contidos no Biobank, um recurso de saúde nacional disponibilizado a todos os pesquisadores do Reino Unido.

A partir destes dados, foram consideradas as associações genéticas e extraídas medidas de atividade física e sono, incluindo atividade física total e segmentada, duração e eficiência do sono, além do Índice de Massa Corporal (IMC).

De acordo com o coordenador do estudo, metanálises já vêm identificando algumas interações entre atividade física e variantes genéticas associadas à obesidade, mas nem todo fenótipo, que é o resultado da interação do genótipo com o ambiente, é facilmente identificável.

Ainda assim, os resultados encontrados pelos pesquisadores são consistentes com estudos anteriores e sugerem que baixos níveis de atividade física e sono inadequado acentuam o risco genético de obesidade.

 

Risco genético e fatores ambientais

Segundo o especialista, o objetivo era avaliar se os genes relacionados à obesidade e o nível de atividade física têm efeito interativo sobre o risco genético para a obesidade e se é possível que esse efeito seja ainda maior no caso da associação de falta de atividade e sono inadequado.

O estudo utilizou dados de participantes entre 40 e 70 anos, calculando uma pontuação de risco genético para cada um deles com base em 76 variantes associadas ao risco elevado de obesidade.

De acordo com os achados da pesquisa, uma pessoa de estatura média, portadora de 10 variantes genéticas associadas à obesidade, e menos ativa fisicamente, trazia consigo um risco genético aumentado responsável por maior ganho de peso comparada às pessoas mais ativas.

Os resultados foram semelhantes nas análises dos padrões de sono. Entre os participantes com algum risco genético para a obesidade, aqueles que acordaram com mais frequência ou apresentaram mais inquietação ao longo do sono também possuíam IMCs maiores do que aqueles que dormiram de forma mais eficiente.

O próximo passo será examinar se essa interação entre genética e atividade física difere entre homens e mulheres.

Também serão estudados os efeitos dos padrões de atividade, ou seja, se um nível consistente de atividade moderada tem efeitos diferentes de níveis baixos pontuados por períodos de atividade vigorosa, por exemplo.

Ao final, os pesquisadores acreditam que as descobertas poderão auxiliar na perda do excesso de peso, ou na manutenção do peso ideal, ao contribuir para a compreensão de que a obesidade é complexa e que as estratégias de prevenção podem ser diferentes para cada indivíduo, conforme as suas particularidades. Assim, em breve, as pesquisas permitirão melhor personalização das intervenções em obesidade, acreditam.

 

Ainda sobre a obesidade

No mesmo dia, em outra sala do ASHG 2017, a obesidade era abordada pelo Dr. Michael P. Snyder, presidente do Departamento de Genética e Diretor do Centro de Genômica e Medicina Personalizada da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que liderou o estudo Integrative personal omics profiling during periods of environmental stress.

Para o Dr. Snyder, uma avaliação além do genoma, incluindo fatores ambientais, como a ocorrência da obesidade ao longo do tempo, pode fornecer um retrato mais detalhado do estado saudável de uma pessoa e, assim, entender o que muda quando ele transita para um estado de doença.

No evento, o Dr. Snyder e seus colegas da Universidade de Stanford e do The Jackson Laboratory revelaram que suas pesquisas foram concentradas em indivíduos pré-diabéticos para estudar o potencial de uma intervenção precoce eficaz para prevenir o diabetes. Ao longo de quatro anos, eles sequenciaram os genomas e coletaram dados de 107 indivíduos. Destes, 98 apresentavam pré-diabetes, dois com diabetes e sete controles saudáveis no início do estudo.

Foram realizadas mais de 900 consultas longitudinais ao longo de três anos, e também acompanhamento por meio de dispositivos portáteis para rastrear o nível de atividade e a temperatura corporal de cada participante.

Além de coletar estas informações, os pesquisadores avaliaram como esses fatores mudavam em resposta a fatores ambientais ao longo do estudo, tais como ganho de peso induzido por uma dieta de alto teor calórico em curto prazo, infecções respiratórias de ocorrência natural, ingestão de antibióticos, entre outros.

Foram comparadas as diferentes respostas ao ganho de peso nos grupos dos pré-diabéticos e controle. Também houve particularidades dentro dos grupos. No grupo pré-diabético, por exemplo, foram encontradas diferenças frente à dieta calórica e às doenças entre os participantes que eram sensíveis ou resistentes à insulina.

Assim como no estudo comandado pelo Dr. Andrew Wood, este retrato evidencia que todos temos diferentes perfis moleculares. Se quisermos avançar em direção à saúde e ao bem-estar, é importante capturar esse perfil em nível individual, avaliam os pesquisadores.

Para eles, a forma como a saúde é gerida atualmente precisa evoluir, deixando de se basear no tratamento de pacientes doentes para coletar informações sobre o estado saudável das pessoas, identificando formas de mantê-las saudáveis, prevenindo as doenças. 

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