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Obesidade e Alteração Climática

Obesidade e Alteração Climática

Obesidade e Alteração Climática

Pablo de Moraes

Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, apresentado recentemente no 74o Simpósio de Cold Spring Harbor sobre Biologia Quantitativa, afirma que as mutações genéticas na adaptação da raça humana às condições climáticas podem ser as causadoras da epidemia de obesidade nas populações indígenas ou mestiças. 

A pesquisadora russa Dimitria Chalkia, do laboratório do geneticista norte-americano Douglas Wallace, fez uma análise no DNA mitocondrial dessas civilizações e chegou à conclusão de que, à medida em que seres humanos migraram da África para a Ásia tropical e depois para o Ártico e para as Américas, o material genético foi sofrendo mutações que alteraram a função das mitocôndrias para aumentar capacidade de sobrevivência dessas populações. Tais alterações teriam sido mantidas por seleção natural ao longo do tempo, espalhando-se nas populações.

O estudo foi feito em amostras de DNA mitocondrial de 14 tribos do Ártico e da Sibéria e de nove tribos da Amazônia brasileira e da Costa Rica. Foram analisadas três grandes linhagens, os chamados haplogrupos A2, C1 e D1. Todos representam grupos humanos que migraram da Sibéria para as Américas (cujos descendentes estão, hoje em dia, na Amazônia), mudança que significa uma alteração considerável de temperatura.

De acordo com os pesquisadores, mutações causavam dois tipos de alterações funcionais na mitocôndria: um permitia ao corpo produzir calor e outro produzia ATP (adenosina triofosfato), molécula que transporta energia nas células. O DNA mitocondrial coordena o equilíbrio entre a produção de calor e a produção de energia. Uma pessoa que mora na África, por exemplo, precisa mais de energia do que produzir calor. O contrário acontece com quem vive na Sibéria, que precisa uma maior liberação de calor para se adaptar ao frio.

Nas três linhagens sul-americanas estudadas, que precisaram se readaptar ao calor, foram notadas mudanças que reverteram o padrão de produzir mais calor para o de produzir mais ATP. Ou seja, deixaram de produzir calor, já que estavam num clima mais quente, e passaram a produzir energia. Na época, tal alteração não causaria problemas, já que a dieta era restrita em calorias. Atualmente, a alta quantidade calórica dos alimentos e a incapacidade de dissipar calor gerou o problema da obesidade nessas etnias, ou seja, uma grande produção de energia não gasta.

De acordo com os pesquisadores, a grande propensão ao diabetes e à obesidade dos nativos é causada por essa alteração mitocondrial. Ainda segundo eles, conhecendo-se bem a genética dessas doenças e o papel do mtDNA nelas, podem surgir novos medicamentos e tratamentos.

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