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Estudo Investiga Elo entre Prazer Na Alimentação e Obesidade

Estudo Investiga Elo entre Prazer Na Alimentação e Obesidade

Sandra Narita
30 de outubro de 2008

Ao ingerir um milkshake de chocolate, o cérebro responde de maneira diferente, a depender de cada pessoa. Segundo pesquisadores norte-americanos, a explicação está em uma região do órgão chamado estriado dorsal, responsável pela liberação de dopamina – molécula ligada à sensação de prazer.

De acordo com o estudo, publicado na revista Science, o cérebro de pessoas obesas, pela presença menor de receptores de dopamina, responde a alimentos saborosos de forma menos intensa do que indivíduos mais magros. Isso significa que os obesos tendem a comer mais para compensar a menor resposta na satisfação ao ingerir uma comida.

“A pesquisa traz novidades sobre possíveis mecanismos envolvidos com a compulsão alimentar e, conseqüentemente, com o desenvolvimento da obesidade. Existem dúvidas se este seria o fator desencadeador. É preciso determinar se é a falta de receptores a causa da obesidade ou se a obesidade é que causa a diminuição de receptores de dopamina”, afirma o Dr. João Mota, diretor geral do Instituto de Nutrição e Ciências da Saúde (INECS), em Campinas (SP), e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ele acrescenta que existe, ainda, uma outra teoria, na qual o excesso de alimento pode estimular, cronicamente, o cérebro a produzir dopamina em excesso, mas, com o tempo e como adaptação, os neurônios reduziriam o número dos receptores dopaminérgicos. “Com o avançar das pesquisas, são descobertos novos fatores envolvidos com o desenvolvimento da obesidade. E acredito que ainda existam outros”, diz.

Magros de Ruim

Na verdade, centenas de trabalhos científicos, publicados nos últimos anos, têm revelado que a obesidade é também um fenômeno biológico altamente complexo e multifatorial. Sabe-se que o metabolismo é afetado por fatores que vão desde a carga genética até a eficiência energética de mitocôndrias e a biodiversidade de micróbios na flora intestinal.

Assim há os chamados "magros de ruim", que podem comer pizza à vontade, sem engordar, e os gordinhos, que acumulam gordura mais facilmente.

Em um experimento hipotético, centenas de pessoas poderiam comer exatamente a mesma coisa, praticar a mesma quantidade de exercícios e, ainda assim, engordar ou emagrecer de maneiras completamente diferentes. "Eu diria que a variabilidade entre os extremos seria de 100%", avalia Bruno Geloneze, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Genética

A pesquisa americana mostrou que há uma questão genética envolvida neste caso. A escassez de receptores de dopamina estaria associada ao chamado alelo A1, variante de um gene que leva ao comprometimento da sinalização de dopamina no cérebro.

Hoje já se sabe que o principal fator envolvido com o desenvolvimento da obesidade é o estilo de vida desarmônico que as pessoas levam, como o sedentarismo, alimentação desequilibrada em macro e micronutrientes, fumo, entre outros. “Seu tratamento deve ser interdisciplinar e a melhor intervenção é a mudança desse estilo de vida”, conclui o Dr. João Mota.

O artigo completo sobre a pesquisa americana pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org .

 

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