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Temas do Congresso

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A popularização da cirurgia da obesidade tem sido, em geral, benéfica para a população. E isso aconteceu principalmente devido ao avanço das técnicas cirúrgicas, que hoje são feitas em sua maioria por meio de laparoscopia, e apresentam mortalidade quase desprezível, “comparável a uma operação de vesícula”, segundo o cirurgião Almino Cardoso Ramos, que preside a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

 

Cardoso abriu as apresentações do Painel da SBCBM, realizado em 31 de maio, dentro da programação do XV Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica, promovido pela Abeso, em Curitiba. 

 

Embora mais pessoas tenham se beneficiado com as técnicas, Cardoso alertou para o risco da “banalização da cirurgia”. “Ela se tornou popular, fazendo com que pessoas busquem a alternativa cirúrgica para excesso de peso. Os avanços das técnicas e as facilidades que elas trazem são positivos, mas também ajudam a banalizar o procedimento”, disse.

 

Na visão da Sociedade, a abordagem multiprofissional, de orientação e preparo pré-cirurgia, e também na fase pós, ainda é o mais importante de todo o processo. “Construímos um modelo errado, centrado no cirurgião. O mais importante não é a cirurgia, e sim o processo que leva a pessoa a emagrecer após o procedimento. A maior constatação disso é que o nosso reganho de peso ainda é o grande problema: temos uma taxa de 15%, em média”, afirmou.

 

Cardoso ainda criticou o baixo número de cirurgias feitas via Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, das 72 mil cirurgias realizadas em 2012 no Brasil, apenas sete mil foram via saúde pública. Espera-se, no entanto, que este número avance, já que uma portaria, pulicada pelo Ministério da Saúde no início deste ano, amplia as faixas etárias eletivas para a cirurgia, inclui uma nova técnica na cobertura do SUS (sleeve) e reajuste os valores pagos pelos procedimentos em 20%. O presidente da SBCBM lembrou a importância desta ampliação, já que a obesidade no Brasil se tornou uma epidemia. Em 2012, pesquisa do Ministério constatou que quase metade da população, 48,5%, estava acima do peso ideal. Nesse mesmo período, a quantidade de obesos subiu de 11,4% para 15,8% da população.

 

Aliás, a discussão relacionada a peso também esteve no painel. Especialistas começam a questionar o Índice de Massa Corpórea (IMC) como único parâmetro para determinar a indicação da cirurgia bariátrica. Isso porque a simples medição deste número não leva em conta problemas de saúde associados à obesidade. “Temos que começar a discutir oferecer a cirurgia ao paciente que tem indicação, mas não atinge o IMC recomendado”, afirmou Cardoso. Para se ter ideia, em 2011 o governo brasileiro gastou R$ 488 milhões com o tratamento de 26 doenças associadas à obesidade, como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares.

 

Para João Batista Marchesini, cirurgião e sócio fundador da SBCBM, o método do IMC para determinar a elegibilidade para a cirurgia bariátrica foi estabelecido em 1991. “E virou um paradigma. Mas hoje, vinte anos depois, sabemos que o IMC se baseia em parâmetros corporais conflitantes, levando em conta massa magra e tecido adiposo. Por isso, o IMC começa a tremer na base”, afirmou.

 

Segundo Marchesini, pacientes com índices de massa corpórea iguais e com localização de gordura diferentes estão sendo operados de maneira igual. “No entanto, sabemos que a relação cintura quadril é indicador de risco para síndrome cardio-metabólica. A circunferência abdominal começa a ganhar importância maior neste sentido”, alertou.

 

Pacientes que possuem IMC abaixo de 35, mas que apresentam circunferência abdominal elevada e risco cardio-metabólico não recebem autorização dos seguros saúde para se operaram, conforme afirmou Marchesini. “Fica aqui um clamor de nossa Sociedade, para que nossas autoridades quebrem este paradigma, mudem este conceito”, conclui.


Texto: Aline Moura, especial para o site da Abeso

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