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Bernardo L. Wajchenberg: Reconhecimento Mundial

Bernardo L. Wajchenberg: Reconhecimento Mundial

Cristina Dissat
04 de Junho de 2007

Autor de mais de 200 artigos científicos, dois livros e dezenas de capítulos em publicações; centenas de citações de artigos no mundo inteiro; ex-presidente de várias sociedades científicas, entre elas a SBD; e responsável por um dos artigos mais lidos na edição da Endocrine Reviews de maio deste ano (Beta-Cell Failure in Diabetes and Preservation by Clinical Treatment). 

O professor Bernardo Leo Wajchenberg já ultrapassou a barreira dos 80 anos e continua acumulando em seu currículo produções científicas de reconhecimento mundial e mantendo um eterno diálogo com seus pacientes. Qual o segredo? Só conhecendo um pouco da vida desse profissional.

2007 Award da Endocrine Society

Com um dos históricos mais respeitados da endocrinologia brasileira, o professor Wajchenberg brinca, dizendo que até agora não entende porque recebeu o prêmio “2007 Distinguished Physician Award” da Endocrine Society. Com certeza a endocrinologia brasileira sabe o motivo.

Ele tem um ritmo invejável de trabalho e de produção científica. Um dos conselhos do especialista é estar sempre perto de gente jovem. “Não gosto de gente velha. Só estou atualizado porque fico cercado dos residentes”.

Em um bate papo informal, no Rio de Janeiro, o professor falou sobre sua vida e a premiação. A proposta partiu da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “O Dr. Amélio Godoy-Matos me indicou para o prêmio. Ele pediu meu currículo e, por um milagre... ganhei. Eu não esperaria que um indivíduo que está fora e vivendo aqui no Brasil pudesse ganhar. Quando recebi a correspondência, fiquei olhando e achando que tinha algo errado. Resolvi conferir, ligando para os Estados Unidos e a senhora que me atendeu confirmou que era eu mesmo”, contou o professor. Ele ainda completou: “Na fase em que me encontro, acho uma surpresa escolher um médico como eu. Tem gente muito boa aqui. Eu não tenho idéia de como isso aconteceu”. 

A sugestão do nome do especialista aconteceu com o apoio maciço da Comissão Internacional da SBEM, cujos membros estavam presentes na cerimônia, que se realizou no dia 3 de junho, domingo pela manhã. Além desse momento, a Endocrine Society promoveu um jantar, que foi registrado pela Dra. Valéria Guimarães, integrante da Comissão.

O Dr. Amélio mencionou o ritmo impressionante do professor. “Ele acabou de publicar uma revisão na Endocrine Review, com 36 páginas e 259 referências com o maior rigor científico e qualidade técnica. É um prazer poder discutir com ele temas como Resistência Insulínica, Síndrome Metabólica e Diabetes”.

A Voz dos Especialistas

O prêmio recebido pelo professor Bernardo deixou todos os especialistas brasileiros com muito orgulho. Acessem alguns destes depoimentos, em áudio, na coluna
Ouvindo o Especialista, no site da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

O Outro Lado 

Antes a imagem do Dr. Bernardo era de um professor durão, ou melhor, sempre foi de falar o que pensava e que, muitas vezes, soava como provocação ou arrogância. Nas várias reportagens publicadas sobre o especialista, as fotos traduzem bem o estilo muito sério do professor.Uma fisionomia séria. Porém, como ele diz, “trabalhava como devia”. Hoje é diferente. Aquela imagem foi substituída por um rosto muito fraterno e carinhoso.

Uma das principais características do seu estilo sempre foi a sinceridade e, talvez por isso, a mentira era (e é) considerada algo imperdoável para o especialista. Atualmente, o professor continua dando aulas constantemente, mas se considera uma pessoa diferente. “Não quero mais ser chefe de ninguém. Oriento teses e isso é bom. Ninguém mais fala mal de mim hoje, sem exceção. Estou mais velho”. E é verdade. Essa entrevista, realizada no hall de um hotel no Rio de Janeiro, durou praticamente uma hora, onde ele brincou, contou um pouco da sua história, com a naturalidade de quem está curtindo a vida e a ciência. 

É um apreciador de música clássica, com uma coleção de mais de 600 CDs; fala cinco idiomas (Alemão, Inglês, Espanhol, Francês e Italiano); e faz exercícios físicos com regularidade. “Uso a esteira em casa, seis dias por semana e tenho ódio dela. O melhor dia da semana é o de número sete, mas... preciso”. Segundo o prof. Bernardo tomar decisões quanto à saúde foi uma herança do pai. “Meu pai fumava quatro maços de cigarro por dia. Até que um dia (eu tinha 15 anos) teve uma úlcera e, naquela época, o tratamento era a retirada do estômago. Ele procurou um médico, que falou sobre o índice de mortalidade. Eu te opero, se você quiser. Naquela noite ele parou de fumar”.

Medicina e Vocação

Se transformar em um dos maiores especialistas brasileiros foi o resultado de uma longa carreira construída desde a Faculdade. Aliás, a medicina não foi uma vocação, mas um desejo do pai, que achou ser a melhor opção para o filho Bernardo. Ele aceitou (para sorte nossa). “Não vou dizer que me arrependo porque seria ridículo. Já que estou fazendo é melhor não se arrepender. Eu acredito é no trabalho e é o que faço melhor há 50 anos”, disse.

Sempre foi o melhor aluno, ganhando 11 dos 13 prêmios da Faculdade de Medicina, no início dos anos 50. Ele lembra de alguns momentos difíceis pelo caminho, principalmente quanto à discriminação por sua origem polonesa. “Tive problemas discriminatórios na minha vida na Faculdade, no colégio, no ginásio e nos Estados Unidos. Acho isso um absurdo, mas nada me impediu de continuar a carreira”, comentou. “Quando eu era criança, um professor do colégio chegou a me dizer que se a Alemanha ganhasse a guerra, ele me queimaria vivo”. Anos mais tarde, o mesmo professor teve um infarte e acabou sendo internado em um hospital cujo médico era o prof. Bernardo. Se você quiser saber o final dessa história, converse com ele.

Procurando resgatar alguns momentos de sua trajetória, ele lembrou que ao acabar o estágio nos Estados Unidos tinha o sonho de continuar lá, trabalhando. “Eu queria ter ficado, ofereci meus préstimos há várias escolas, mas diziam que existia gente igual a mim lá e que davam preferência aos americanos”. Hoje, 50 anos depois, são os americanos que premiam o professor Bernardo Leo, reconhecendo o seu trabalho como um dos melhores do mundo.

O Diabetes e a Endocrinologia

Atualmente ele explica que não faz mais endocrinologia geral e sim diabetologia. A opção pela especialidade aconteceu na Faculdade, por admiração ao prof. Helio Lourenço de Oliveira. E da mesma forma que foi influenciado por um grande mestre, o Prof. Bernardo sabe que é responsável por ter incentivado tantos profissionais a seguir o mesmo caminho. Segundo o Dr. Ruy Lyra, presidente da SBEM, todos os especialistas brasileiros devem se considerar como alunos do prof. Bernardo. "É um exemplo de seriedade e competência e somos gratos por tudo que fez, faz e fará pela Endocrinologia Brasileira".

Apesar de ter sempre pesquisa muito sobre o diabetes, com diversos trabalhos de enorme repercussão científica, se considera um diabetólogo tardio. “Sempre fui endocrinologista e quando me aposentei é que passei a me dedicar exclusivamente ao diabetes. Estou aposentado há 10 anos”.

Ele comenta que estudou muito sobre o diagnóstico precoce de diabetes em crianças, em testes cujos resultados foram reproduzidos em Tratados na especialidade. Destacou também, pesquisas com fenformina e com sulfas com publicações na Europa e Estados Unidos. Sua área de atuação foi além como cálcio, testes de suprarrenal – que colaborou com a descrição; e diagnóstico de diabetes. “Tenho um trabalho muito importante e recente. Trata-se de uma revisão da falência de célula beta, publicado em abril, que já é o segundo trabalho mais lido da revista”, comentou (o trabalho está disponível para leitura no site).

Com tantos estudos publicados foi relativamente difícil resgatar tudo da memória, mas, aos poucos o professor Bernardo destacou alguns dos que considera de grande impacto. “Lembro de um trabalho sobre ácidos graxos e bloqueios, publicado em 1999 e que hoje é uma revisão clássica, com mais de 300 referências. Outro aborda a gordura visceral em mulheres obesas, com diabetes ou não, publicado na Alemanha”. O professor Bernardo, também mencionou uma pesquisa sobre o mecanismo das sulfas, apresentado na Academia de Ciências em Nova York quando ainda era residente na década de 50. Outro destaque foi a apresentação, em Israel, de uma nova variante do diabetes, na época do cinqüentenário da descoberta da insulina. “Fiz muita coisa, mas o pessoal esquece. O tempo passou”.

Em suas participações em centenas de congressos, sempre foi um especialista que levantava questões importantes e controvérsias. “Tenho uma visão para determinados assuntos, mas nem sempre a gente acerta”.

O Brasil no Exterior

Com uma visão muito crítica da ciência no Brasil, o prof. Bernardo acredita que aconteceram muitos progressos na medicina por aqui e que existem profissionais de alto nível. “Somos um país de terceiro mundo, sob o ponto de vista científico, e a medicina não é diferente. é claro que temos gente boa e estamos melhorando”. Ele acredita que as novas gerações consigam mais espaço, já que hoje os investimentos na área de saúde são melhores, mas não o suficiente.

Onde Publicar?

O professor sempre teve uma convicção de que é mais importante publicar artigos científicos e pesquisas no exterior. “Raramente eu publico aqui, porque a divulgação não é satisfatória. Quando estagiei nos Estados Unidos, fui à uma biblioteca e pedi um Brazilian Journal. A responsável trouxe algumas revistas embaladas há anos sem que ninguém tivesse visto nada. Ninguém lê. A mim não convence”. No início de sua carreira, publicar fora do Brasil tinha um impacto muito grande. Ele lembra que eram poucos os especialistas que faziam isso.

O Diagnóstico e Tratamento do Diabetes

Os novos parâmetros do diagnóstico com a detecção do diabetes cada vez precoce é um benefício na opinião do prof. Bernardo, embora ele tenha a certeza que, apesar de todo o progresso o diabetes é muito mal tratado. “O número de complicações continua igual. é que o bom tratamento não chega à população. Mas isso não invalida encontrar novas soluções, como é o caso da cirurgia para o diabetes. Estive na Itália e assisti a discussão sobre o assunto e acho que vale a pena tentar, mas ainda faltam dados e mais análises”.

Tempo é o grande segredo para tratar bem o paciente. Segundo o especialista uma boa consulta deveria levar horas, porém é uma dinâmica muito difícil nos dias de hoje com os convênios. “O paciente precisa ser instruído, saber o que ele tem e discutir o caso com o médico. é necessário olhar os resultados e conversar. O meu paciente traz os dados, eu olho e pergunto a ele: o que você acha, está bom ou está mal?”. Em um longo bate papo, o prof. Bernardo espera que o paciente explique o motivo da resposta positiva ou não. Só assim é possível analisar juntos. “Meu paciente mostra o que ele fez e quando não traz os dados fica difícil. Como posso tratar dele se ele não me mostra como ele está”.

Essa é uma conversa comum entre o prof. Bernardo e seus pacientes e que vai longe, até descobrir porque algum resultado não está bom.

Para o professor, as novas drogas lançadas no mercado, com certeza, vão facilitar o trabalho, mas o principal é orientar o paciente. “Acho que os lançamentos são importantes, mas se meu paciente acompanhar e realizar um bom tratamento é possível fazer com o que existe no mercado”.

A Validade ou Não da A1c

Muitos debates em torno da validade ou não da A1c (hemoglobina glicada) têm acontecido e para o professor é, realmente, uma situação complicada, porque as taxas baixas e altas podem dar um resultado incorreto. “Se o paciente tiver muitas hipoglicemias realmente a A1c pode aparece de forma errada. Por isso, entre a monitorização e a A1c eu fico com a monitorização”.

A eficiência, segundo o especialista, é a indicação de que algo vai mal e mostrar uma visão geral do paciente, por isso é tão importante fazer o acompanhamento da glicemia. “Mas ainda acho que o mais importante é conversar. Avaliar cada item, cada detalhe. Discuto tudo com todos. Eu sou assim e acho que estou certo”.

Aos Jovens Diabetologistas

“Em primeiro lugar, acho que eles deviam pensar duas vezes antes de se formar”, disse o professor em tom de brincadeira. “Eles estarão vivendo em uma época muito melhor com as novas drogas, mas o atendimento ao paciente não pode ser substituído por nenhuma droga. Só essa filosofia é incompatível com a medicina moderna, que tem pouco tempo para o paciente. Não existe medicina boa onde você limita o tempo de consulta”.

 

Mesmo já tendo passado dos 80, o prof. Bernardo afirma que infeliz é quem pensa no passado. “Quando me aposentei joguei fora todas as minhas revistas e livros. Eu olho pra frente, o passado não existe pra mim. E a melhor coisa é conviver com quem está aprendendo, porque você aprende também. é importante conviver com gente produtiva e é isso que nos mantêm jovem e sempre atualizado”.

Agracedimentos:

Os sinceros agradecimentos a todos os especialistas e profissionais que colaboraram para a produção dessa reportagem: Dr. Reginaldo Albuquerque (editor do site da SBD), Dr. Amélio Godoy-Matos, Dra. Claudia Pieper, Dr. Antonio R. Chacra, Dr. Adolpho Milech, Dr. Luiz Cesar Póvoa, Dr. Antonio Carlos Lerário e Dra. Valéria Guimarães. E os repórteres Barbara Bezerra, Sandra Malafaia e André Dissat (estagiário).


Sugestões:

Se você trabalhou com o professor Bernardo Leo não deixe de dar o seu depoimento e suas considerações na área de comentários abaixo. Participe dessa reportagem.

- Esta reportagem está sendo publicada nos sites da Sociedade Brasileira de Diabetes, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. Para outras reproduções favor contactar cristinadissat@diabetes.org.br. Fotos Celso Pupo

 

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