Notícias Dicas


Audiência Pública sobre Medicamentos: Diálogo Prevalece

Audiência Pública sobre Medicamentos: Diálogo Prevalece

Audiência Pública sobre Medicamentos: Diálogo Prevalece
Cintia S. Castro e Beth Santos

Com a participação de dezenas de especialistas de diversas entidades médicas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encerrou em clima de diálogo – “Estamos aqui para apresentar e ouvir argumentos”, disse sua representante, Maria Eugenia Cury - a audiência pública convocada pela Agência para esta quarta-feira, 23/02.

O encontro havia sido marcado para discutir a possibilidade de cancelamento do registro de medicamentos antiobesidade, causando apreensão nos profissionais de saúde. O Superintendente da Anvisa, Dirceu Barbano, disse que ainda não há um prazo estipulado para a decisão final da questão. “Se for possível resolver todas as dúvidas em curto prazo, resolveremos. Se não, levaremos o tempo necessário”, afirmou.

A Presidente da ABESO, Dra. Rosana Radominski, após comentar que “as sociedades médicas, conselhos etc compareceram em massa à reunião”, disse que “ficou claro que a opinião unânime dos especialistas é pela não suspensão dos medicamentos anorexígenos de ação central”. Segundo a endocrinologista, “a impressão geral é de que vai haver um recuo na posição da Anvisa. Agora temos que aguardar o pronunciamento oficial da entidade. Mas temos certeza de que demos um belo passo para que comecem a refletir melhor sobre o assunto”.

Posições

A audiência começou com a exposição dos membros da Câmara Técnica da Anvisa, que defenderam a retirada dos medicamentos do mercado. Eles afirmaram que os inibidores do apetite causam graves riscos à saúde.

Durante a audiência, o Dr. Ricardo Meirelles, presidente da SBEM, defendeu a manutenção dos fármacos antiobesidade no mercado nacional. Segundo ele, uma perda pequena de peso já pode ser considerada representativa, uma vez que diminui o risco de desenvolvimento de outras doenças, como diabetes, problemas cardiovasculares e hipertensão.

“Acreditamos que o tratamento da obesidade tem que se começar por modificações do estilo de vida, como hábitos alimentares e atividade física. Porém, sabemos que nem todas as pessoas conseguem aderir a um programa com facilidade. A medicação, sempre usada com critério, pode ajudar tais pacientes”, lembrou ele, que estava representando a SBEM e AMB (Associação Médica Brasileira).

A retirada dos produtos do mercado, de acordo com o Dr. Ricardo, estimulará o mercado negro. “Se um novo medicamento antiobesidade entrar agora, virá com um preço alto e inacessível para o paciente. Muitos voltarão a engordar e a correr os riscos do sobrepeso. A endocrinologia brasileira está apreensiva com a possibilidade do banimento de tais produtos”, resumiu.

Controle
A Dra. Rosana Radominski, presidente da ABESO, também falou perante os diretores da Anvisa, na audiência. Ela defendeu a manutenção doa fármacos no mercado brasileiro, propondo que se faça controle sobre o uso dos mesmos. Ela lembrou dos riscos envolvidos em uma provável proibição.

- Certamente complicações ocorrerão se forem retirados do mercado. Não vimos até agora fato novo que justifique esta proibição – declarou.

Vários especialistas que presidiram a ABESO defenderam pontos de vista dos endocrinologistas durante o encontro. Um deles foi o Dr. Walmir Coutinho, presidente eleito da IASO (International Association for the Study of Obesity) e um dos membros do estudo SCOUT.

“Se os medicamentos forem retirados do mercado subitamente, a população vai recorrer a alternativas perigosas”, destacou.

O Dr. Marcio Mancini, que presidiu a ABESO na última gestão, afirmou que, até agora, foram ressaltadas apenas as partes ruins dos estudos.

“Dizer que a perda de peso com sibutramina não melhora o diabetes não é verdadeiro”, defendeu ele, que atua como responsável pelo Grupo de Obesidade e Doenças Metabólicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Estudo

O Dr. Henrique Suplicy, que esteve à frente da ABESO de 2006 a 2007, apresentou dados de pesquisas realizadas na Universidade Federal do Paraná, mostrando que os efeitos adversos tendem a diminuir com o uso progressivo dos medicamentos. “A nota técnica da Anvisa foi tendenciosa e não está de acordo com a experiência clínica. Espero que, pelo bem dos obesos,  tais fármacos sejam mantidos, mas que a Anvisa exerça um rigoroso controle sobre a venda”, disse.

Durval Ribas Filho, da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia), pediu que as pessoas obesas não sofram mais discriminação.

"Obesidade é doença crônica que, sem tratamento, recrudesce. Que não aconteça mais um ato arbitrário no sentido de discriminar ainda mais os pacientes. Nem todo obeso come muito, e nem todo magro come pouco”, afirmou.

O representante da Sociedade Brasileira de Cardiologia levantou a questão sobre a polaridade entre entidades médicas e a Anvisa. “Essa queda de braço entre especialistas e órgão regulador tem que acabar, em prol do que é melhor para os pacientes. Esperamos que esse assunto continue em discussão com a presença constante dos especialistas e técnicos da agência”, defendeu.

Farmacêuticos
As entidades do setor farmacêutico também foram ouvidas através de diversos representantes. Um deles, Walter Jorge João, vice-presidente do Conselho Federal de Farmácia, defendeu um controle mais rigoroso em matéria de fiscalização. “Será que proibir é mais fácil que intensificar a fiscalização? Defendemos o controle em todos os níveis, em manipulação e comercialização”, disse.

A presidente da Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag), Maria do Carmo Garcez, entregou um parecer técnico da entidade sobre o uso de anorexígenos aos representantes da Anvisa. Ela lembrou que efetividade clínica só pode ser conferida por médicos que trabalham diariamente com os pacientes e chamou atenção para o mercado negro de medicamentos proibidos.  “Haverá uma inevitável passagem de drogas lícitas para ilícitas, e grande parcela da população ficaria sem assistência”, destacou.

Diretrizes
Ao final de sua fala, o endocrinologista Alexander Benchimol, membro da diretoria da ABESO, entregou à Maria Eugência Cury, chefe do núcleo de vigilância pós uso/comercialização da Anvisa,  as Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da Obesidade e do Sobrepeso, atualizadas por ABESO/SBEM em 2010.  

Encerramento

No encerramento da audiência, Maria Eugência Cury ressaltou os canais disponíveis para ouvir a sociedade em torno da questão dos medicamentos.

“Não podemos pensar em segurança eficaz de medicamentos que não seja através do monitoramento e da escuta à sociedade. Também devemos estar antenados com o que acontece na regulamentação de outros países. Precisamos também disponibilizar para a sociedade brasileira, ou seja,  pacientes, prescritores e profissionais de saúde, alternativas e tecnologias que forneçam eficácia e segurança”, resumiu.

Abaixo-assinado

Durante a tarde do mesmo dia, o abaixo-assinado online criado pela ABESO e SBEM, defendendo a manutenção dos fármacos antiobesidade no mercado brasileiro, havia ultrapassado a marca de 600 assinaturas, além de duas mil visualizações.

O Twitter da ABESO acompanhou a audiência pública transmitindo informações em tempo real.

Colunistas