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A importância da vizinhança nos hábitos de vida das crianças

A importância da vizinhança nos hábitos de vida das crianças

Um estudo observacional prospectivo promovido pelo The National Institutes of Health (NIH), a agência de pesquisa em saúde do governo dos Estados Unidos, e pelo Departamento de Pediatria da Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos, acompanhou ao longo de dois anos as mudanças no status de peso e comportamento de crianças que vivem nas cidades norte-americanas de King County, em Washington, e San Diego, na Califórnia.

Foram analisados aspectos relacionados ao acesso à alimentação e à disponibilidade de espaços para a realização de atividades físicas e de recreação dessas crianças.

O objetivo foi verificar se há relação entre as características das regiões onde vivem as crianças, status de peso e comportamentos alimentares e de atividade física. Segundo os pesquisadores, no caso dos adultos, estudos anteriores já haviam revelado que as relações são limitadas, fracas ou inconsistentes.

Tendo em vista que a obesidade infantil continua altamente prevalente nos Estados Unidos, a identificação de fatores ambientais que possam influenciar nestas questões, além dos já conhecidos, como os hábitos familiares, são importantes na tentativa de buscar soluções para a epidemia da obesidade em todo o mundo, que já atinge as crianças e adolescentes. 

 

O estudo

No  estudo, foram avaliadas crianças de 6 a 12 anos de idade, com a participação de um dos pais ou cuidador para o preenchimento das avaliações.

As crianças viviam em bairros com diferentes estruturas e características, divididos em alto ou baixo PAE (ambiente de atividade física) e NE (ambiente de nutrição) favorável ou desfavorável, totalizando quatro vizinhanças diferentes – alto PAE e NE favorável, baixo PAE e NE favorável, alto PAE e NE desfavorável ou baixo PAE e NE desfavorável.

O estudo examinou as mudanças ao longo de dois anos no status do peso das crianças e respectivos comportamentos relacionados a alimentação entre crianças que vivem em bairros que diferiam em relação ao acesso a nutrição e prática de atividade física. A hipótese era de que as crianças que vivem nos ambientes mais favoráveis, tanto para nutrição quanto para atividade física, teriam um peso mais saudável e mudanças comportamentais positivas ao longo do tempo.

 

Resultados

As crianças moradoras dos bairros menos favorecidos pelo ambiente apresentaram mudanças significativamente menos favoráveis, sendo encontradas maiores frequências de sobrepeso ou obesidade em comparação com as crianças dos bairros de melhores condições.

Os melhores resultados no peso da criança e também nas mudanças comportamentais estavam nos ambientes mais tranquilos e com estrutura para recreação, com melhor acesso à nutrição adequada. As crianças que vivem nestes bairros com ambientes mais favoráveis apresentaram as menores taxas de sobrepeso e/ou obesidade em comparação dentre todos os grupos.

Houve também evidências de que, enquanto supermercados dentro dos bairros levam à menor chance de obesidade, a presença de restaurantes surtiu efeito inverso, ou seja, status de peso infantil mais elevado no futuro.

Quanto à existência de locais adequados para a prática de atividade física ou recreação, os pesquisadores destacaram o fácil acesso e segurança adequada. Estes locais contribuíram para que as crianças apresentassem peso mais saudável.

Ao longo do tempo, as crianças que vivem nos ambientes de vizinhança menos favoráveis tiveram um acréscimo de médio de mais de 100 kcal na ingestão diária, e 50 minutos a mais de tempo sedentário diário do que as crianças que vivem nos ambientes mais favoráveis.

Crianças residentes em bairros com menos opção de atividade física, mas com melhores opções de nutrição, também tiveram um aumento relativo no comportamento sedentário. Inesperadamente, os bairros menos favoráveis à atividade física tiveram crianças com o menor declínio na atividade física ao longo do tempo.

Com estes resultados, os pesquisadores sugerem que mais estudos longitudinais são necessários para examinar se a influência da região onde vivem as crianças tem efeito duradouro sobre o peso e comportamento.

Entre os poucos estudos prospectivos existentes examinando tais associações, há aqueles que sugerem diferenças relacionadas ao tipo de lojas existentes no bairro. Os fast food, por exemplo, favorecem o ganho de peso.

 

Discussão

Os resultados atuais destacam a importância de se ter uma combinação favorável de ambientes de atividade física e acesso à nutrição adequada nos bairros onde as crianças vivem para incentivar uma trajetória saudável de status de peso e comportamento.

As crianças que moram em bairros mais propícios à caminhada, com pelo menos um parque de boa qualidade e um ambiente nutricional marcado pela disponibilidade de pelo menos um supermercado, sem alta concentração de restaurantes de fast food, tiveram mudanças de status de peso mais favoráveis do que as crianças em dois dos outros três bairros menos favoráveis. As crianças vivendo em ambientes mais favoráveis tiveram quase 50% menos chances de ter sobrepeso ou obesidade, em comparação com as crianças em todos os outros tipos de vizinhança.

Os resultados reforçam a importância de observar e garantir o acesso a opções saudáveis de alimentação e prática de atividade física como componentes de prevenção da obesidade infantil.

Além destas, outras variáveis podem influenciar as mudanças na atividade física das crianças ao longo do tempo, como é o caso da qualidade das calçadas e cruzamentos.

Também houve a interferência, em bairros de baixa PAE, de famílias que utilizam serviços de transporte para as crianças se locomoverem para programas de atividades físicas públicas ou privadas. As maiores rendas familiares e de vizinhança também foram relacionadas ao menor declínio na atividade física. Por outro lado, crianças menos favorecidas, que vivem em bairros com baixa PAE, podem apresentar diferentes trajetórias de atividade física.

Mais pesquisas são necessárias para identificar e implementar estratégias para prevenir o declínio no nível de atividade física, particularmente entre os jovens desfavorecidos.

Os pesquisadores sugerem recomendações específicas para os governos locais melhorarem os ambientes e as políticas dos bairros para incentivar o peso saudável nas crianças.

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