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Departamento de Epidemiologia

:: Qual a sua visão sobre o fenômeno da transição nutricional nos países em desenvolvimento. A origem está mais no sedentarismo ou no hábito alimentar?

:: Pelos dados epidemiológicos apurados no inquérito de 1997, qual a prevalência de obesidade e excesso de peso estimada para a população brasileira como um todo? 

:: Como explicar a redução da prevalência de obesidade entre mulheres de mais alta renda da região sudeste do Brasil? Existem casos semelhantes em outros países?

:: Quais os principais estudos planejados para a nossa população? Já existe algum em andamento? 

:: Que medidas, na sua opinião, deveriam ser adotadas em nosso país para deter o crescimento da epidemia de obesidade? 

:: Existem exemplos de outros países, onde medidas populacionais de promoção do peso saudável tenham trazido bons resultados? 

:: Caso não seja posto em prática um plano abrangente de controle da obesidade no Brasil, que cenário devemos esperar para os próximos 30 anos? 

:: Estou realizando uma pesquisa sobre obesidade infantil. Dessa forma gostaria de receber ajuda acerca de onde e como obter dados recentes em torno da prevalência da obesidade na população infantil, principalmente no Brasil.

:: Você pode me informar sobre a freqüência de obesidade mórbida do seu último censo?

Qual a sua visão sobre o fenômeno da transição nutricional nos países em desenvolvimento. A origem está mais no sedentarismo ou no hábito alimentar?
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


Muito provavelmente nos dois, embora as evidências empíricas disponíveis estejam longe de esclarecer definitivamente essa questão. De fato, mesmo nos países desenvolvidos ainda discute-se muito o predomínio de um ou outro fator. No caso do hábito alimentar, há também dúvidas sobre quais aspectos da dieta seriam os mais importantes. Também é importante considerar se estamos preocupados em compreender a epidemia de obesidade ou a ascensão de outras doenças também associadas à alimentação e a padrões de atividade física, como dislipidemias, doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer. As respostas poderão ser distintas para cada um desses problemas. O fato é que, nos países em desenvolvimento, o que se vê atualmente são tendências simultâneas de aumento do sedentarismo e deterioração dos padrões alimentares, o que indica que ambos os problemas devam ser combatidos eficazmente e ao mesmo tempo. Enfim, a solução é a promoção de estilos de vida saudáveis, mais do que o combate a um ou outro fator de risco isolado.

 

Pelos dados epidemiológicos apurados no inquérito de 1997, qual a prevalência de obesidade e excesso de peso estimada para a população brasileira como um todo? 
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


O inquérito de 1997 foi restrito às regiões nordeste e sudeste do País. Ainda assim, na falta de outra pesquisa nacional mais recente, suas estimativas devem indicar a situação como um todo, uma vez que dois terços dos brasileiros vivem naquelas regiões. Segundo esse inquérito, a prevalência da obesidade em adultos (IMC >= 30 kg/m2) seria de 7,0% em homens e de 12,4% em mulheres. Se somarmos indivíduos com sobrepeso e indivíduos obesos (IMC >= 25 kg/m2), a prevalência seria de 38,5% para homens e de 39,0% para mulheres.

 

Como explicar a redução da prevalência de obesidade entre mulheres de mais alta renda da região sudeste do Brasil? Existem casos semelhantes em outros países?
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


De fato, comparando os dados obtidos na região sudeste pelos inquéritos realizados em 1989 e 1997, pudemos detectar uma redução significativa (de 13,2% para 8,2%) da prevalência da obesidade feminina no extrato de maior renda familiar (os 25% das famílias de maior renda nas duas pesquisas) enquanto no extrato de menor renda (os 25% de menor renda) houve tendência oposta (aumento da prevalência de 11,6% para 15,0%). Estas estimativas já estão controladas para eventuais mudanças na distribuição etária da população entre as duas pesquisas. Tendências semelhantes de declínio da obesidade foram documentadas na literatura apenas na Finlândia, país onde houve um intenso trabalho de saúde pública voltado ao combate de fatores de risco para doenças cardiovasculares. A interpretação é bastante complexa e difícil de ser resumida em poucas palavras. O que talvez seja importante notar é que esse declínio, ainda que restrito a um grupo da população - certamente o mais bem informado sobre os riscos à saúde associados à obesidade e sobre formas eficazes de manutenção de um peso saudável -, indica que a ascensão da doença pode ser interrompida e mesmo revertida em nosso meio. Indicações muito diferentes emanam dos resultados de pesquisas semelhantes realizadas, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a epidemia da obesidade parece atingir todas as classes sociais.

 

Quais os principais estudos planejados para a nossa população? Já existe algum em andamento? 
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


O Centro Nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde tem como política a repetição de inquéritos nacionais sobre a prevalência da obesidade (e de outros fatores de risco para doenças não transmissíveis) a cada cinco anos. No momento, um desses inquéritos, coordenado pelo INCA, encontra-se em fase adiantada de planejamento. Será realizado em todas as capitais do país e deverá incluir, além da avaliação do peso e altura, o estudo da dieta e a tomada da cintura dos indivíduos estudados. Nosso núcleo na USP está, no momento, elaborando um projeto temático para ser realizado na cidade de São Paulo, tendo como foco as relações entre dieta, atividade física e doenças crônicas não transmissíveis, incluindo evidentemente a obesidade. Há também a possibilidade de que a próxima pesquisa nacional sobre demografia e saúde inclua a tomada de peso e altura de uma amostra da população feminina em idade fértil, além da antropometria em crianças. 

 

Que medidas, na sua opinião, deveriam ser adotadas em nosso país para deter o crescimento da epidemia de obesidade? 
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


Antes de tudo, o enfoque há que ser essencialmente o da prevenção. A alternativa de controle via diagnóstico e tratamento, empregada com algum sucesso para outros problemas de saúde, é totalmente ineficiente no caso da obesidade, seja pela magnitude do problema, seja pela baixa eficácia dos tratamentos disponíveis, seja pelos custos proibitivos que representariam. Por outro lado, a prevenção requer um conjunto articulado de ações que, ao mesmo tempo, protejam, promovam e apóiem estilos de vida saudáveis, com destaque para a alimentação equilibrada e para a atividade física regular. A articulação entre ações de proteção, promoção e apoio é essencial, pois uma não funciona sem a outra. Assim, para alcançar uma alimentação saudável, além de fornecer informações corretas sobre alimentação e saúde (promoção), há que evitar que informações incorretas e contraditórias alcancem os indivíduos (proteção) e, ao mesmo tempo, há que propiciar a esses indivíduos as condições que tornem factíveis a adoção das orientações que recebem (apoio).
Ou seja, uma política consistente de prevenção da obesidade deve compreender não só ações de caráter educativo e informativo (como campanhas veiculadas por meios de comunicação de massa), como também medidas legislativas (por exemplo, o controle da propaganda de alimentos não saudáveis, especialmente os dirigidos ao público infantil), tributárias (isentando alimentos saudáveis e onerando os preços dos não saudáveis), treinamento e reciclagem de profissionais de saúde, medidas de apoio à produção e comercialização de alimentos saudáveis e mesmo medidas relacionadas ao planejamento urbano (por exemplo, privilegiando o deslocamento de pedestres e não de automóveis e dotando áreas carentes de recursos mínimos para a prática de atividades físicas no lazer). Outro aspecto que deve ser levado em conta, na formulação de ações preventivas em nosso meio, são as evidências que indicam que a doença tende a se concentrar nos segmentos menos favorecidos da sociedade. Ou seja, a prevenção da obesidade deve ser vista como parte importante da agenda do combate às desigualdades sociais.

 

Existem exemplos de outros países, onde medidas populacionais de promoção do peso saudável tenham trazido bons resultados? 
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


É relativamente recente, em todo o mundo, o reconhecimento de que a obesidade é uma doença e, mais ainda, de que é um grande problema de saúde pública. Assim, infelizmente, ainda não acumulamos experiência suficiente no terreno das intervenções de massa para prevenção da obesidade. Uma das poucas experiências bem-sucedidas e bem documentadas é a da Finlândia, como já mencionei anteriormente, onde um conjunto de medidas intersetoriais muito bem articuladas mostrou-se eficiente, não apenas para reduzir a prevalência da obesidade, mas também para melhorar vários outros indicadores relacionados ao estilo de vida saudável.

 

Caso não seja posto em prática um plano abrangente de controle da obesidade no Brasil, que cenário devemos esperar para os próximos 30 anos? 
Resposta (Dr. Carlos Augusto Monteiro):


Dado que a obesidade é fator de risco de enorme importância para as principais causas de mortalidade, morbidade e incapacitação no Brasil – doenças cardiovasculares, doenças do aparelho locomotor, diabetes, entre outras –, caso nada seja feito o cenário seria muito preocupante. Entretanto, há que se registrar que é cada vez maior a consciência no país sobre a importância da obesidade, seja na esfera governamental, seja na sociedade civil, como bem demonstra o trabalho que vem sendo realizado pela ABESO. Essa consciência tem gerado iniciativas governamentais corajosas e pioneiras em países em desenvolvimento, como a rotulagem nutricional obrigatória dos alimentos industrializados e a obrigatoriedade de inclusão de um percentual mínimo de alimentos “in natura” no programa nacional de alimentação escolar.
No terreno do combate ao sedentarismo, há o exemplo criativo das parcerias governo-sociedade civil, tão bem sucedidas no programa “Agita São Paulo” e em iniciativas semelhantes que começam a ser implantadas em várias cidades do país e, mesmo, em países vizinhos. Projetos promissores como as ruas da saúde do Rio de Janeiro, as escolas promotoras de saúde e as empresas saudáveis são outras iniciativas criativas e de grande valor. Essas iniciativas, somadas à tendência de estabilidade, ou mesmo declínio da obesidade, constatada em alguns setores da população brasileira, apontam a possibilidade de que nosso país possa se tornar um exemplo de aplicação de políticas bem sucedidas de controle da obesidade. A importância das iniciativas brasileiras na promoção da alimentação saudável e da atividade física regular foi, recentemente, reconhecida pela OMS e consubstanciada pela visita que fez ao país missão técnica de alto nível da divisão de doenças não transmissíveis daquela organização.

Estou realizando uma pesquisa sobre obesidade infantil. Dessa forma gostaria de receber ajuda acerca de onde e como obter dados recentes em torno da prevalência da obesidade na população infantil, principalmente no Brasil.

Sua mensagem foi encaminhada ao Dr. Carlos Augusto Monteiro, responsável pelo Departamento de Epidemiologia da ABESO, que encaminhou as seguintes referências que lhe podem ser úteis:

Epidemiologia da obesidade
Monteiro CA in Halpern et al (orgs) Obesidade. São Paulo, Lemos Editorial, 1999

Monteiro CA & Conde WL - Tendência secular da obesidade segundo estratos sociais: Nordeste e Sudeste do Brasil 1975-1989-1997. Arq Bras End e Metabologia 43: (3): 186-194, 1999.



Você pode me informar sobre a freqüência de obesidade mórbida do seu último censo?

Sua mensagem foi encaminhada ao Dr. Carlos Augusto Monteiro, responsável pelo Departamento de Epidemiologia da ABESO, que enviou a seguinte resposta:

Não ha pesquisas feitas com o objetivo especifico de avaliar a prevalência de obesidade mórbida. No inquérito nacional mais recente feito no Brasil a prevalência de indivíduos com IMC de 40 ou mais kg/m2 foi de 0,2% em homens, 0,8% em mulheres e 0,5% nos dois sexos.