A carta-depoimento, a seguir, foi encaminhada à ANVISA pela paciente Maria Fernanda Bortolai, de São Paulo, e narra sua experiência positiva de 35 anos com os inibidores de apetite. Sua intenção é ajudar os técnicos da agência sanitária a “compreender um pouco mais a realidade vivida pelas pessoas que realmente precisam desse medicamento”.

Assunto: Medicamentos Inibidores de apetite

A/C: Equipe técnica ANVISA e demais envolvidos na proibição do comércio de inibidores de apetite

Caros senhores,

A notícia sobre a possível retirada do mercado dos inibidores de apetite tem me deixado muito angustiada. Como acredito que essa medida esteja sendo tomada por pessoas que não utilizam esse medicamento, achei que seria relevante expor a minha situação, a fim de ajudá-los a analisar esse tema de modo mais concreto e humano. De imediato, afirmo que a proibição do comércio de inibidores de apetite é algo que acarretará graves problemas a muitas pessoas.

Sei que há uma preocupação séria com o mau uso desses inibidores, mas gostaria muito que as autoridades competentes, antes de retirarem esses medicamentos do mercado, pensassem nas pessoas que necessitam MESMO deles e os utilizam com orientação médica.

Eu sou apenas uma delas.  Aos 15 anos, com 88 Kg, depois de muitas dietas e até fórmulas milagrosas, resolvi passar por uma consulta com um endocrinologista. Ele me indicou uma reeducação alimentar e um comprimido de Inibex por dia (1/2 pela manhã e 1/2 à noite). Dessa forma, emagreci muito, cheguei aos 68 Kg com 1,70m de altura (um bom peso, sem ser baixo demais).

Quando fiquei grávida, parei com o medicamento. Como consequência, engordei tanto que a obstetra  fez uma cesárea com 37 semanas, já que tive diabetes gestacional. Ela me orientou a não engordar porque, senão, aos 40 anos, seria diabética.

Com meu segundo filho não foi diferente, cheguei a 102 kg. Voltei ao médico e desde lá não me lembro de parar por longo período de tomar o medicamento anfepramona. Veja bem: não é uma brincadeira! É uma medicação apropriada para alguns obesos.

Com o medicamento, tenho mantido uma vida normal e com qualidade. Hoje, com 51 anos, faço exercícios físicos 5 vezes por semana, tenho uma alimentação equilibrada com orientação nutricional e, mesmo assim, peso 80 kg. Para mim, esse peso é uma vitória, pois sem esses esforços estaria com mais de 100 kg, diabética, hipertensa, com problemas na coluna, joelho.....

Tomando o medicamento, durmo bem, nunca usei remédio específico para dormir, nunca tive irritabilidade ou taquicardia e sempre respeitei a dosagem prescrita. Em compensação, todas as vezes que parei com o medicamento, engordei e me deprimi. 

Agora pergunto: quem vai resolver o meu problema de saúde? Hoje ele está completamente controlado com esse único medicamento, tomado com critério e orientação médica. Tomo porque preciso, como o diabético precisa de insulina. 

Ao retirar do mercado esse medicamento, os inúmeros cidadãos brasileiros que sofrem com a obesidade – grupo do qual, infelizmente, faço parte – serão imensamente prejudicados.

Outro aspecto relevante a se considerar na análise desse tema é o fato de que o uso irregular é mantido pelo mercado negro, não por meios controlados. É o mercado negro que  fornece – e muito provavelmente continuará fornecendo -  o medicamento para  caminhoneiros, que o usam de modo inapropriado, para não dormirem.

Sabemos que a medida não impedirá o comércio do medicamento, que passará a ser objeto valorizado no mercado negro, gerando mais lucro para os responsáveis pelo comércio ilegal. Além disso, na internet o medicamento virá com outro nome, sem a dosagem adequada, sem orientação médica e, aí sim, haverá grandes riscos para quem o consumir.

Só nós que necessitamos do produto como medicação prescrita e orientada pelos médicos é que não o teremos, pois os médicos não mais o terão para prescrever. Será que vocês acham que o que nos resta é uma cirurgia bariátrica? Será essa a solução? Será que vocês já se aprofundaram no assunto o suficiente para decretar de forma arbitrária essa lei? 

Sei que não há unanimidade entre os endocrinologistas em relação a esse tema.  Li que os endocrinologistas do Hospital das Clínicas de São Paulo – considerado referência nacional – também são favoráveis ao medicamento para alguns pacientes.

Fico perplexa com essa atitude da ANVISA e muito confusa sobre o que irá acontecer com os usuários desse medicamento: que efeitos a ausência do medicamento poderá acarretar? Será que teremos que nos consultar com os especialistas da ANVISA (e não mais com nossos médicos) a partir de agora? Será que o caminho que vocês estão sinalizando é engordar o suficiente para ter indicação cirúrgica? Ou vocês também pensam que os gordos assim o são porque comem demais, não têm amor próprio, vergonha??? O que vocês pensam?

Eu não sou a única que preciso desse tipo de medicamento, existem muitas pessoas que sofrerão com a determinação.

Hoje tenho todos os exames normais, como triglicérides, colesterol... Visto manequim 44, trabalho a 28 anos na PMSP, coordeno uma Escala Médica Urgência e Emergência, sou Designer de Interiores, casada há 30 anos, tenho dois filhos – um de 27 e outro de 24 anos –, ou seja, tenho uma vida normal. Em que esse medicamento pode estar me prejudicando?????

Gostaria muito que meu depoimento sensibilizasse a equipe que decidirá o meu futuro (e o de tantos brasileiros!), pois não será fácil manter a minha saúde equilibrada se vocês tirarem meu único aliado nesta luta que dura 35 anos. 

Espero que os responsáveis por um órgão tão sério como a ANVISA aceitem meu pedido de reavaliação desse caso e, se for necessário, deixo meus exames e minhas experiências pessoais à disposição de vocês para que possam aprofundar os estudos e compreender um pouco mais a realidade vivida pelas pessoas que realmente precisam desse medicamento.

Maria Fernanda