O Lobo e o Cordeiro (ou a Anvisa e Nós)

O artigo a seguir foi publicado dia 04/08/2011 no Jornal da Tarde, em São Paulo.

Uma das fábulas de La Fontaine relata o episódio do lobo que encontrou um cordeiro bebendo água de um rio. Querendo devorá-lo, mas procurando razões para o seu intento, o lobo fez uma acusação contra o cordeiro, que se defendeu. Isso se repetiu por duas vezes. Após a terceira argumentação, o lobo decidiu devorar o cordeiro, mesmo que não encontrasse nenhuma razão, a não ser a vontade de satisfazer sua voracidade.

Moral da fábula: os poderosos sempre fazem prevalecer sua razão (ou o mal pode vencer o bem). É esta a metáfora que no meu entender se aplica à decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a comercialização dos remédios para emagrecer (sibutramina, anfepramona, femproporex e mazindol).

Decidida a proibir os medicamentos, mas tentando mostrar benevolência com a comunidade médica, a Anvisa organizou várias reuniões em Brasília para discutir o assunto, alegando querer ouvir os argumentos contrárias à proibição.

Entre várias associações médicas, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), e outras entidades representadas por professores de várias universidades, mostraram dados científicos e experiência pessoal mostrando que os remédios são necessários, pois modificar estilo de vida frequentemente falha em obesos e que eles são seguros, particularmente quando bem indicados.

Esses dados, incluindo a análise e crítica bem elaborada sobre a Nota Técnica emitida pela Anvisa, foram mostrados em todas as reuniões, em que estiveram também representantes do Conselho Federal de Medicina, da Associação Brasileira de Medicina, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, entre outras.

Apesar disso, a sensação dos colegas que defenderam os medicamentos é que os representantes da Anvisa em nenhum momento pareceram ao menos minimamente abalados com os nossos argumentos.

Baseados numa interpretação pessoal dos estudos publicados (que foram rebatidos ponto por ponto pelos especialistas) e no medo da venda indiscriminada dos remédios, os membros da Anvisa decidiram que darão o resultado de suas conclusões em breve, mas que os remédios serão proibidos. Ou seja, darão a conclusão do que já está concluído!

Assim como na história do lobo e do cordeiro, tudo leva a crer que o lobo (Anvisa), qualquer que seja o argumento utilizado pelo cordeiro (nós, classe médica interessada em tratar adequadamente nossos pacientes), vai realizar o seu desejo (proibir os remédios para emagrecer). O mais triste dessa fábula é que os grandes derrotados não seremos nós, mas os milhões de obesos que vêm se beneficiando ou poderão se beneficiar destes medicamentos.

Dr. Alfredo Halpern – Professor Livre-Docente da Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do HC-FMUSP; ex-presidente da ABESO e membro da entidade.