DEPOIMENTO

A paciente Ana Paula Silvestre Bertoni encaminhou à ABESO o depoimento a seguir, em que relata sua longa luta com a balança, só vencida com o uso da anfepramona sob controle médico. Com a recente proibição do medicamento, ela deixa no ar a pergunta inevitável: e agora, o que fazer?

São Paulo, 21 de Dezembro de 2011.

Uma Cidadã Brasileira Usurpada de seus Direitos

“Inicio meu depoimento com muitas interrogações a respeito da decisão, em 2011, de se proibir a comercialização das anfetaminas no Brasil. Acredito que, diferente de outras doenças dos desfavorecidos (como a tuberculose, para a qual não existe investimento em novas pesquisas e desenvolvimento de novas medicações, visto que é uma doença “de pobre”), em relação às anfetaminas ocorre o contrário, pois rico também pode ser obeso, e rico pode pagar por uma medicação mais cara ou recorrer a tratamentos cirúrgicos! Então para que continuar liberada uma medicação para obesidade como a anfepramona, que é de fácil acesso até mesmo para a população menos favorecida?

Nasci em 1976, filha de mãe solteira e que trabalhava muito para me sustentar. Segundo relato de minha mãe e fotos da minha infância, não fui uma criança gordinha, tinha peso e altura compatíveis e adequados a minha idade. Após o meu nascimento, minha mãe ainda manteve o peso por alguns anos, por volta dos 64 kg para 1,60 de altura. Porém, quando engravidou do segundo filho, então já casada, não mais manteve seu peso e começou a engordar, daí vieram o terceiro e o quarto filho. Minha mãe hoje pesa 120 kg, já fez inúmeras dietas, reeducação alimentar, usou medicamentos, e hoje está na fila para a cirurgia bariátrica. Porém, como sua pressão é muito alta, já foi necessário adiar por duas vezes a cirurgia.

Eu me mantive num peso normal e adequado até por volta dos 10 anos de idade; após este período, engordei um pouco, mas significava um leve sobrepeso.

Aos 16 anos, comecei a engordar e cheguei aos 79 kg, com 1,60 de altura. Gordinha! Então iniciei minha batalha contra a balança. Encaminhada pelo pneumologista, pois eu apresentava crises asmáticas tão violentas que frequentava a emergência do hospital próximo de casa pelo menos 4 dias da semana - sendo que, em algumas destas visitas, permaneci entubada na UTI por vários dias. O médico pneumologista foi incisivo: disse que, além de eu ter que me controlar emocionalmente, deveria procurar um endocrinologista e uma nutricionista para tentar perder peso, pois era um agravante para a minha doença.

Neste período da minha vida, como me sentia feia e gorda, evitava sair de casa. Não saía nem para ir ao supermercado. Era da escola para casa e da casa para escola, isso porque minha mãe me obrigava.

Marquei endocrinologista e nutricionista, e então fui à primeira consulta. Ele foi muito atencioso, me examinou, questionou junto com a nutricionista sobre meus hábitos alimentares, o que eu gostava mais, o que gostava menos, qual hora do dia sentia mais fome, se fazia exercícios.

Não me receitou medicação alguma, somente um cardápio e acompanhamento nutricional, e que queria me ver após 30 dias. Sempre fui muito determinada, e quando me propunha a fazer algo, realmente fazia! Não descuidei da dieta um dia sequer, porém quando voltei, no final dos 30 dias, havia engordado 1 kg!

Para mim foi uma derrota, chorei dentro do consultório. Então o médico olhou para mim e disse que eu não havia feito a dieta corretamente, senão teria emagrecido! Foi o fim, pois ele não acreditava em mim, mesmo com minha mãe, que sempre me acompanhava, dizendo que eu fiz tudo direitinho. Ele olhava com ar desconfiado, visto que era uma senhora obesa justificando a obesidade da filha!

Voltei para casa muito triste e envergonhada, mas não desisti, continuei fazendo a dieta que ele havia prescrito, durante mais seis meses. Vale dizer que nestes seis meses de dieta alimentar e exercícios físicos não emagreci uma grama sequer, e continuei inclusive com aquele 1 kg que ganhei nos primeiros 30 dias.

Resolvi procurar outro médico, que, diante da minha estória, já me receitou anfepramona, em conjunto com dieta e exercícios físicos. Ele me alertou que o medicamento não faria milagre e que eliminar quilos era uma questão de mudança de atitude! Fiquei muito empolgada com o médico, me passou muita confiança e acreditou que, mesmo fazendo dieta e exercícios, eu não perdia peso. Ele acreditou em mim!

Iniciei o tratamento e a mudança de vida, já no primeiro mês emagreci uns 3 kg, fiquei muito feliz e continuei com o tratamento. Neste período também frequentava um grupo de orientação e reeducação alimentar. Já comecei a sair de casa, vestir roupas adequadas a minha idade, a cuidar mais da minha aparência. Enfim, tudo estava mudando.

Com o uso de anfepramona, o único efeito colateral que me causava era boca seca, nada mais. Cheguei aos 55 kg, então meu médico disse que daria início à manutenção. Nesta fase, como é reduzida a dosagem, após 30 dias havia engordado 2 kg. Então voltei à dosagem anterior, e após 30 dias emagreci os 2 kg. Então, mesmo neste período todo de manutenção, continuei com a dosagem inicial, o que corresponde a 120 mg/dia.

Já com 27 anos, magra, formada e feliz, me casei. Mantinha o peso e continuava com a medicação e frequentando o meu médico de extrema confiança. Passei pela reeducação alimentar e hoje me alimento com muita sabedoria. Por opção, não como frituras e não utilizo açúcar na minha casa. Após 9 anos de casada, já pós–graduada, decidimos, eu e meu marido, que era hora de ter um filho. Eu sabia que teria que parar com a medicação, mas me sentia tão segura por ter mudado meu estilo de vida e por ter mantido o peso (mesmo com remédio) por tantos anos, que não me preocupei muito.

Parei de tomar o anticoncepcional e a anfepramona. No período de cinco meses nada aconteceu, não engravidei, porém já havia engordado 7 kg, mesmo fazendo dieta e exercícios físicos todos os dias. No sexto mês eu já estava decidida a voltar a tomar anfepramona e o anticoncepcional, foi quando passei mal e fui parar no pronto-socorro. Finalmente estava grávida e durante os nove meses de gestação engordei 42 kg! Passei dos 60 kg para 102 kg, e quando saí do hospital após o parto, tinha 98 kg.

Estava deprimida, triste, feia, não tirava a roupa na frente do meu marido, ficamos dois anos sem nos tocar, mas por minha culpa! Não participava das festas, encontros familiares e, pasmem, eu não tirava fotografia de jeito nenhum com minha filha, não gostava de me ver nas fotos. Morria de vergonha, e ficava constrangida de como as pessoas que me conheceram magra me olhavam com ar de reprovação e susto! Por ter amamentado até os cinco meses, não podia tomar nada, então me muni de forças e continuei com os meios naturais, dieta e exercícios, e perdi 2 kg.

Então, após dois anos de muita tristeza, e sem sucesso, resolvi voltar ao médico, porém fui a um nutrólogo que me indicaram, e que também realizava a colocação de balão gástrico. Li bastante a respeito e acreditei que seria a solução para os meus problemas. Realizei a colocação do balão no dia 1 de outubro de 2010. Em relação ao balão, só não atentei a um detalhe decisivo: a perda de peso se daria pela restrição de calorias devido à restrição da ingesta alimentar. Não serviria para mim, eu me alimentava há anos adequadamente, não comia além da conta e, como resultado, não perdi uma grama sequer! Quando retirei o balão, após oito meses, havia engordado 2 kg, para meu desespero. Mas o pior é que quem estava a meu redor não entendia por que eu não emagrecia, visto que eu me alimentava tão bem e fazia exercícios físicos, e utilizava de todos os meios para emagrecer!

Então voltei ao endocrinologista, ele me recebeu com a mesma simpatia de anos atrás. Conversamos, ele se lembrou de mim, não me condenou pelo meu excesso de peso e de novo me questionou sobre os meus hábitos alimentares. Contei tudo, inclusive da experiência com o balão. Então ele me olhou e me perguntou se o motivo da minha tristeza era por causa da obesidade. Eu afirmei com a cabeça e comecei a chorar copiosamente.

Logo ele se retirou da sala, ao retornar trouxe consigo um copo d`água e um espelho. Disse para eu me acalmar, beber a água, limpar o rosto e me olhar no espelho. Não entendi na hora, será que ele também iria zombar de mim? Mas, não! Ele pediu que eu olhasse no espelho e tentasse enxergar como eu era bonita, e que o sobrepeso não tirou isso de mim, e que ele só iria melhorar o que já estava bom! Disse, então, que somos criaturas divinas, perfeitas aos olhos do senhor, independente de gordos ou magros! Ainda teve tempo para me lembrar que minha filha absorvia e percebia toda esta tristeza, e que ficaria gravado na lembrança dela esta fase da vida. Perguntou: será que ela merece? Você merece? Então, após esta consulta maravilhosa, ele prescreveu novamente a anfepramona, totalizando 120 mg/dia.

Resumindo, e finalizando minha estória de vida, até o dia de hoje já emagreci e estou com 74 kg. Também fiz cirurgia plástica e hoje me sinto linda! Não canso de ouvir elogios dos meus colegas de trabalho, dos meus familiares e de todos que me cercam. Voltei a sair, frequentar a praia e fazer uma coisa que tinha muita vontade, mas não conseguia! Agora consigo tirar fotografia com minha filha, hoje com três anos. Só me arrependo de ter permitido que a obesidade e a depressão tirassem de mim a oportunidade de ter registrado os primeiros anos de sua vida. Hoje olho as fotos, só vejo ela e o pai, eu não estou em nenhuma!!!!

Sigo em frente, e sei que dependo da anfepramona para manter o peso. Esta medicação não me causou dano algum, só me trouxe benefícios, passei a ter mais disposição, vontade de viver e de curtir a vida e minha família, me tirou do isolamento social e da depressão!

Agora, diante da proibição da venda no Brasil, já me encontro angustiada, sem saber o que fazer. O meu médico me receitou outra fórmula, mas que não está surtindo efeito. Gostaria de perguntar aos profissionais que, isoladamente, tomaram esta decisão. O que eu devo fazer? A quem devo procurar?

Diante o fato de ter vivido desde criança tentando controlar o meu peso, me sinto enganada, roubada e negligenciada por ter sido proibida a venda desse medicamento, sem ao menos realizarem uma consulta pública, sem ao menos perguntarem aos usuários e seus médicos o que achavam de tal decisão, sem ao menos enxergarem que, muito além dos efeitos colaterais, existem os benefícios que estas drogas podem trazer e que trouxeram para a minha vida!

Enfim, ANVISA, eu como cidadã brasileira me sinto no direito de exigir que esta decisão seja revista. Esta atitude foi no mínimo inconsequente, e com certeza irá causar danos irreparáveis às pessoas que faziam uso desta medicação com acompanhamento médico, e que tinham muitos benefícios com o seu uso. Mais do que resultados estéticos, os resultados alcançados com a anfepramona me trouxeram novamente à vida.

E agora? O que fazer?”

Ana Paula Silvestre Bertoni

Uma cidadã brasileira negligenciada e usurpada de seus direitos.