Colunas Nutrição

Enfrentamento da Obesidade Infantil

Enfrentamento da Obesidade Infantil

Denise Lellis, pediatra, representante do Departamento de Obesidade Infantil da Abeso
 
Brasília recebeu, de 14 a 16 de março, o Encontro Regional para o Enfrentamento da Obesidade Infantil, uma  parceria entre o Ministério da Saúde do Brasil, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Nutrição (FAO). Falamos sobre o assunto ontem aqui no Facebook da Abeso e no site.
 
O objetivo foi criar uma  oportunidade para debate e reflexão sobre os compromissos dos países da América Latina  no âmbito da Década de Ação das Nações Unidas para a Nutrição. Os participantes puderam dialogar sobre as lições aprendidas, os desafios e as ações que estão sendo realizadas para o enfrentamento ao sobrepeso e à obesidade infantil na América Latina.
 
Foram 8 órgãos Nacionais e Internacionais envolvidos com saúde e nutrição, 12 países incluindo o Brasil, além  representantes de vários importantes organizações nacionais interessadas e dedicadas á saúde e alimentação infantis.
 
Todos os países presentes apresentaram seus compromissos para a Década da Nutrição. Os temas mais presentes e unânimes foram:
 
-A importância da adequação  das quantidades de açúcar, sódio, gorduras totais, gorduras saturadas e gorduras trans dos alimentos processados e ultraprocessados  de acordo com as normas da OPAS.
 
-A importância da adoção da rotulagem frontal com alertas sobre excessos de açúcar, sódio, gorduras totais, gorduras saturadas e gorduras trans.
 
-A necessidade da regulamentação da publicidade infantil visando a proibição de propagandas de alimentos não saudáveis  direcionadas á crianças e adolescentes.
 
- Importância do investimento na educação nutricional e estímulo á atividade física nas escolas.
 
-Regulamentação das cantinas escolares visando a proibição da venda de alimentos inadequados no ambiente escolar.
 
-Promoção de ambientes saudáveis para que a população possa realizar atividades físicas.
 
-Promoção da saúde da gestante e incentivo ao aleitamento materno.
 
Sobre esses temas não há discussão. São questões necessárias para a prevenção do excesso de peso na infância e adolescência.
 
Chile e México foram os países que se mostraram mais adiantados na adoção das ações acima.  O Chile, por exemplo, estabeleceu uma lei que exige a rotulagem frontal de alimentos que fogem das recomendações da OPAS em níveis de sódio, açúcar e gorduras faturadas, proíbe a publicidade, voltada para as crianças, de alimentos considerados não saudáveis, exige regulamentação de produtos que estavam fora das recomendações nutricionais internacionais, proíbe a venda de alimentos não saudáveis nas cantinas das escolas e promove a educação nutricional e atividade física nas escolas.
 
O Chile ainda mostrou resultados sobre a aceitação da população e das empresas sobre a implementação da lei e obteve bons resultados. Mais de 60% das empresas haviam aderido às normas em 6 meses. A aprovação da população foi de 70 a 92% para cada norma. Cerca de 40% da população conferiu os rótulos frontais e dessas mais de 70% evitaram alimentos com os alertas.
 
O México apresentou seu programa "O poder do consumidor" que envolve a população ativamente nas decisões  e ações  relacionadas à nutrição, publicidade e poder de escolha.
 
O Brasil, entretanto, ainda está iniciando esses processos. Apesar de existirem projetos de lei em tramitação, não há legislação sobre a publicidade voltada às crianças e apenas 11 estados apresentam leis que proíbem alimentos não saudáveis nas escolas.
 
A Década de ação da ONU para a nutrição representa o reconhecimento global de que o excesso de peso representa um agravo à saúde, tão importante ou ainda maior do que a subnutrição e a desnutrição atualmente.
 
A ciência já evidencia, desde a década de 70, que o período intrauterino, o aleitamento materno, a introdução alimentar e manutenção de alimentação saudável nos primeiros dois anos de vida são cruciais para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis no adulto. Os primeiros 1000 dias que englobam o período das concepção até o final do segundo do ano de vida do bebê estão intimamente relacionados com todos os aspectos de saúde da infância, adolescência e idade adulta.
 
Apesar de estar apenas começando a inciativa da Década de Nutrição é coerente, embasada e fundamental para a melhora da saúde dos futuros adultos. Os compromissos do MS são adequados e bem vindos mas este é só o começo. A atitude da população é fundamental. Enquanto aceitarmos a venda de refrigerantes, salgadinho e frituras nas cantinas das escolas de nossos filhos, enquanto continuarmos colocando esses itens nas lancheiras das crianças e enquanto os tablets, celulares e a televisão estiverem conversando com as crianças mais tempo por dia do que seus pais, a questão do excesso de peso na infância e adolescência estará longe de ser resolvido. Governo, escolas e população devem falar a mesma língua, mas as melhores oportunidades começam dentro de casa.
 
 

Colunistas